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Hélio Morais, Fernando Ribeiro e Ana Bacalhau

Sem poder dar concertos ao fim de semana, músicos desesperam. “É a tempestade perfeita para encomendarmos o caixão à cultura”

A manterem-se os indicadores covid, é possível voltar a realizar concertos com público a partir de 19 de abril, mas a quase impossibilidade de fazê-lo ao fim de semana é recebida com estupefação e desilusão por Fernando Ribeiro (Moonspell), Hélio Morais (Linda Martini) e Ana Bacalhau, músicos ouvidos pela BLITZ. “Aturámos os caprichos da DGS. Fizemos tudo. Fomos castigados com vários confinamentos. E agora estamos novamente a ser castigados ao fim de semana. É outro nome para confinamento”

Desânimo parece ser o sentimento partilhado pelos músicos portugueses ao saberem que o regresso dos espetáculos, a 19 de abril, terá, à partida, grandes entraves horários: durante a semana só podem decorrer até às 22h e ao fim de semana só se podem realizar no período da manhã (até às 13h). Ainda sem especificações no que diz respeito às lotações das salas, Fernando Ribeiro, dos Moonspell, Hélio Morais, dos Linda Martini, PAUS e Murais, e Ana Bacalhau dizem que não é desta forma que vão conseguir fazer planos para o futuro, a curto ou médio prazo, tendo em conta que os três têm álbuns novos para apresentar.

“Estamos aqui numa tempestade perfeita para encomendarmos o caixão à cultura. Já não tenho vontade, já acabei o alfabeto dos planos. Já vou no Z”, desabafa o líder dos Moonspell, “em 2020 a cultura fez tudo o que foi possível e impossível para mostrar que os espetáculos eram possíveis e não foram fontes de qualquer contágio. Aturámos os caprichos da DGS, porque não eram inspeções técnicas nem sanitárias, eram caprichos. Fizemos tudo. Fomos castigados com vários confinamentos e, agora, estamos novamente a ser castigados com esta questão de a cultura ter de se fazer até às 13h ao fim de semana. É outro nome para confinamento. A cultura continua confinada”.

Hélio Morais partilha da mesma opinião, defendendo que, apesar de se falar em desconfinamento, a cultura vai continuar “semi-confinada”, “porque não podemos trabalhar nos dias mais fortes, que são os sábados”. “O meu disco [de estreia a solo, “Murais”] está para sair em abril e, naturalmente, estamos a reagendar os concertos que estávamos a programar para promovê-lo. Sabemos que, a partir de 19 de abril, ao sábado e ao domingo, não vamos poder ter espetáculos a partir das 13h... É muito pouco. Estamos há um ano quase sem poder trabalhar e nos poucos períodos em que trabalhamos, estamos muito limitados”, defende, “e estou mesmo a ver que daqui a nada vamos ter um novo confinamento, porque depois os números sobem e volta-se a confinar e nós nem sequer tivemos oportunidade de amealhar o possível durante o pouco tempo em que estivemos desconfinados”.

“É tudo uma questão de fé, neste momento, porque não há grande coisa em concreto”, atira Ana Bacalhau, a voz que conhecemos nos Deolinda e que tem um novo disco em nome próprio por sair desde o ano passado, “há uma completa indefinição, porque não sabemos se vamos andar para a frente, se vamos andar para trás. Eu tenho um disco para editar e delinear uma estratégia para esse disco poder sair e chegar às pessoas implicaria saber mais ou menos com que linhas nos cosemos. Assim, torna-se mesmo muito difícil. No agora que temos, que é a única coisa a que nos podemos agarrar, porque o futuro não existe, é difícil tomar decisões com segurança. O que saiu agora foram os horários das salas quando abrirem, a 19 de abril, e é muito difícil trabalhar com este horário”.

Tanto Fernando Ribeiro como Ana Bacalhau sentem que as poucas informações já divulgadas sobre o regresso aos palcos só deixam o público mais confuso. “O que o governo fez foi passar uma mensagem que as pessoas não compreendem. Não compreendem a seriedade nem a gravidade. Há pessoas que nos dizem ‘porque é que vocês não se adaptam?’, quando nós passámos toda a nossa carreira a adaptar-nos... Principalmente em 2020, não é?”, diz o músico dos Moonspell. “O risco de se estar num auditório não sei se não será menor, mas pelo menos será igual, ao de ir a um supermercado fazer compras. Aquilo que a experiência nos disse no ano passado é que surtos houve zero e, que eu saiba, casos ligados a uma ida a um evento performativo também não houve”, recorda Bacalhau, “e depois há esta falta de informação aos agentes culturais e esta areia para os olhos do público em geral, que acha que nós já vamos abrir e nos estamos a queixar sem razões. Existem muitas razões, infelizmente, para nos queixarmos”.

“António Costa anuncia o desconfinamento, mas depois não anuncia as regras e a DGS anda à bolina. Não se pode dizer a um cozinheiro: ‘olha, agora vais para a cozinha, mas não usas o sal, não usas a pimenta nem usas o fogão’. É exatamente isso que estão a fazer à cultura”, acrescenta Ribeiro, “ou seja, podemos abrir mas para eles ficarem bem vistos na comunicação social. Há falta de critério, falta de atenção, falta de profissionalismo e, acima de tudo, falta de respeito”. Ao olhar para depois de abril, Hélio Morais continua a ver incerteza no horizonte: “se tudo correr bem, se calhar, a 3 de maio já vai abrir [com menos restrições], mas imagine-se que tenho dois espetáculos agendados para o concelho de Lisboa, se o concelho de Lisboa ultrapassar os números limite vamos confinar especificamente em Lisboa e os meus concertos são novamente adiados”.

“Além disso, não se sabe nada de lotações e quem trabalha com bilheteira não pode ter esta indefinição”, destaca ainda Ana Bacalhau, “dizerem que vão abrir os auditórios com esta informação e esta indefinição é o mesmo que dizerem que vamos continuar a não trabalhar. Quem vai à bilheteira não sabe se vai conseguir compensar os gastos. É muito complicado fazer contas assim. Portanto, isto de dizer que vai abrir a 19 de abril é um bocadinho para enganar, para atirar areia para os olhos. E sei que há muitos auditórios que dizem que só vão abrir depois do verão. Eu quero é que os responsáveis políticos nos digam como é que podemos exercer a nossa profissão, a nossa vocação”.

Ribeiro diz sentir-se “castigado” pelo governo, “sinto-me um menino que se portou mal, que escolheu esta vida da cultura e não interessa para nada”. “O Ministério da Cultura poderia ser extinto, na minha opinião, porque é uma despesa e não representa quem faz a cultura. [A ministra] Graça Fonseca não tem qualquer espécie de autonomia, não luta por ela, não se coloca politicamente. Vou mais longe: não há interesse na cultura. Não há um plano. Quando reúnem e se fala de cultura devem dizer ‘olha, deixamos tudo na mesma’”.