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1991, o último grande ano do rock. Capítulo 2: Pixies, Smashing Pumpkins, Dinosaur Jr. e os demais “freaks da cena”

Segunda parte de uma série de artigos que olham para aquele que poderá ter sido o ano da melhor colheita rock das últimas três décadas: 1991. Há 30 anos, do lado de lá do Atlântico, Sonic Youth, Smashing Pumpkins, Dinosaur Jr., Pixies, Butthole Surfers, Jesus Lizard e até os neófitos Mercury Rev ocupavam os subterrâneos eletrificados de uma cena que não estava alinhada com os tops. Pedindo ajuda ao punk e ao psicadelismo, o rock ganhou novas ideias e protagonistas, entrando definitivamente nos anos 90. Uma “freak scene” que ainda hoje é celebrada

Há exatamente 30 anos, poderia encontrar-se em dois factos que ocorreram no espaço de pouco mais de uma semana dois extremos que ajudam a entender o quão variado 1991 foi em termos musicais: a 12 de Março, os R.E.M. de Michael Stipe editavam na Warner o álbum Out of Time, trabalho que os transformaria num sério caso de sucesso internacional, e oito dias depois, a 20 de Março, Michael Jackson assinava com a Sony um contrato no valor de mil milhões de dólares. Embora musicalmente distantes, tanto a banda de “Losing My Religion” como o homem de Thriller representavam então agudos símbolos de uma indústria agressiva, poderosa, capaz de transformar arte pop em produto de elevado valor comercial, de tratar artistas em empresas, discos como acções e os tops de vendas como uma espécie de representação dos títulos mais valorizados no mercado bolsista. Este foi um dos anos em que a indústria facturou mais dinheiro, o pináculo de uma montanha de lucros que em breve se começaria a desmoronar.

Mas havia muito mais a acontecer, nomeadamente nos subterrâneos electrificados de uma cena que não estava alinhada com os tops, mas que gerava uma vibração muito especial que, aliás, os Sonic Youth procuraram documentar com o filme 1991: The Year Punk Broke, filme em que os Dinosaur Jr. de J. Mascis faziam uma perninha, ajudando a pintar o quadro de uma freak scene de que eram parte fundamental.

Quando chegaram à Sire, em 1991, depois da edição de Bug na SST, os Dinosaur Jr de J Mascis eram já uma verdadeira instituição do underground eléctrico americano. A tensão que sempre caracterizou a relação de Mascis com o baixista Lou Barlow e o baterista Murph traduzia-se numa música densa, dinâmica nas suas alternâncias de passagens pelos abismos de feedback e pelos planaltos mais melódicos, evocativa da tradição rock clássica (sobretudo Neil Young), mas também consciente dos desvios à norma a que o rock sempre abriu espaços (o punk e o hardcore).

Lançado a 19 de fevereiro, Green Mind, o primeiro resultado da associação à Blanco y Negro/Sire, foi um álbum que J Mascis gravou praticamente sozinho, depois de descartar Lou Barlow, que arrancou para uma frutuosa carreira à frente dos Sebadoh, e Murph, o baterista relutante que nunca encaixou da melhor maneira as instruções do líder que tinha precisamente começado por tocar bateria. Os problemas que Mascis nesta época encontrava com todos os seus line-ups eram apenas sinal da sua mente altamente criativa e obsessiva, que romantizava a ideia clássica de banda rock, mas que não cedia um milímetro nas suas próprias intenções criativas. Com Murph a surgir apenas em três das 10 faixas do álbum e com contribuições pontuais de gente como Don Fleming (guitarrista que se assumiria como produtor, papel em que trabalhou com bandas como Screaming Trees, Sonic Youth ou Hole), este álbum destila a visão que os Dinosaur Jr andavam já há uma meia dúzia de anos a apurar em palco, com o contraste da agressividade das guitarras e da angústia melancólica da voz a apontarem o caminho para toda uma geração. Com canções que são hoje vistas como verdadeiros clássicos – como “The Wagon”, que dita o tom logo a abrir, ou uma “Puke + Cry” que é quase pop na sua leveza, que combina guitarra acústica e texturas eléctricas, ou ainda a dupla que fecha o álbum, a espantosa “Thumb”, que soa a delicada canção folk tomada pela electricidade, como uma ruína que deixou a natureza avançar cobrindo-se de silvas, ou o tema título, “Green Mind”, que pode ter dado uma ideia ou duas de nuances melódicas aos Sonic Youth que, por esta altura, já se tinham convertido, depois de uma relutância inicial, e declarado a sua admiração – este é um álbum que gerou justificado culto, ainda por cima servido por uma icónica capa que ostenta uma foto de Joseph Szabo, Priscilla, 1969, tirada do seu livro de fotografias Almost Grown.

Os Dinosaur Jr beneficiaram e de que maneira da mudança de clima musical na América, transformação essa que começou a levar jornalistas de todo o mundo até cidades como Seattle em busca da identidade sónica de uma nova geração que nesta altura começava a cruzar o mundo para expor em festivais de impacto global a sua existencialista visão do rock enquadrada em igual medida pelo peso e negritude da música dos Black Sabbath, pela densidade e drama da obra de Neil Young e pelo abandono niilista professado pelo punk. Um dia depois do lançamento de Green Mind, outro importante disco desta cena freak aterrava nos escaparates das lojas alternativas de todo o mundo: piouhgd dos Butthole Surfers de Gibby Haynes. Com um título inventado para ser impronunciável, logo difícil de mencionar em rádio, este quinto álbum do grupo de San Antonio, parecia fazer tudo para garantir as suas credenciais “alternativas” e, ainda assim, acabaria por ser comprado pela major Capitol, que o relançaria em 1992.

Três décadas mais tarde, o som dos Butthole Surfers continua a ter bem explícitas todas as marcas da revolução a que pareciam querer conduzir na mesma época em que bandas como os Sonic Youth ou Jesus Lizard também pareciam apostadas em estudar em detalhe os efeitos da electricidade na canção rock. O grupo de Gibby Haynes, vindo do meio do Texas para causar pesadelos a Tipper Gore (yup, a mulher do salvador do planeta) e a todas as donas de casa do Parents Music Resource Center, cruzava electricidade punk, psicadelismo desregrado à Zappa, uma certa aura hippie (mais Manson do que São Francisco…) e outras marcas da americana numa música densa e provocadora.Um autêntico murro no estômago que incluía uma tremenda versão do clássico de Donovan “The Hurdy Gurdy Man”.

Nesta época, os mais dedicados fãs da cena alternativa, certamente leitores de revistas como a Spin, uma espécie de reverso da medalha representada pela mais mainstream Rolling Stone, não tinham mãos a medir. A 15 de Março, o segundo álbum dos Jesus Lizard de David Yow, Duane Denison, David Wm Sims e Mac McNeilly chegava às lojas mais alinhadas com estas sonoridades abrasivas (e, nesse tempo, para quem morava em Lisboa, isso significava já a Carbono, então situada na Av. Almirante Reis, ou a mítica e já desapaecida Torpedo, localizada na Estação de Comboios do Rossio). Produzido por Steve Albini (que já tinha desempenhado idênticas funções em Head, álbum de estreia do grupo lançado no ano anterior), Goat alinhava nove ferozes faixas, com o vocalista a ocupar o centro das atenções com uma entrega plena de tensão, capaz de recorrer ao grito ou ao murmúrio mais angustiado, soando como “uma personagem sobrenatural de um filme de David Lynch”, de acordo com Jason Crock da Pitchfork. Apesar de se terem formado em Austin, no Texas, os Jesus Lizard decidiram-se por Chicago, Illinois, para base das suas operações que, eventualmente, depois do período fértil em que trabalharam com Albini (que lhes produziu os primeiros quatro álbuns), acabariam contratados pela Capitol que haveria de os promover do circuito de clubes mais underground para os palcos do Lollapalooza, em 1995. Ainda em Março, mas no dia 27, a mesma Touch and Go (editora de Chicago, precisamente) responsável pelo lançamento de Goat faria chegar às lojas Spiderland, o segundo e último álbum dos Slint de David Pajo, um trabalho que nos anos seguintes haveria de adquirir um significativo reconhecimento sendo apontado como influência decisiva para projectos mais alinhados com as dinâmicas precisas do math rock e as explorações experimentais do pós rock de gente como Godspeed You! Black Emperor ou Mogwai e Isis.

A estreia em álbum dos celebrados Mercury Rev também ocorreu em 1991 com o hoje clássico Yerself Is Steam, trabalho que a própria banda produziu e que, de acordo com declarações de Jonathan Donahue (guitarrista e vocalista), soava caótico e ruidoso porque a banda estava a tentar fazer com 10 guitarras eléctricas o que as orquestras faziam com as suas secções de cordas: “estávamos apenas a orquestrar”. Esse som psicadélico da banda de Nova Iorque pode não ter causado mossa alguma nos tops, mas a consagração do grupo anos mais tarde no circuito dos festivais “alternativos”, como o Primavera, prova que o som que aí primeiramente apresentaram conquistou adeptos entre o público mais sintonizado com as propostas mais canhotas da cena musical dos 90. A Pitchfork, aliás, incluiu este álbum na sua lista de 50 Melhores Álbuns de Shoegaze de sempre num muito respeitável 16º posto. Outra estreia do ano, esta com considerável impacto, seria a dos Smashing Pumpkins com Gish, álbum que se tornaria um pilar do circuito de college rádios nos Estados Unidos e que faria de Billy Corgan um autêntico ícone da cena. O álbum chegou às lojas no final do Maio, quando o mundo se distraía com o arranque da digressão Use Your Illusion que haveria de trazer os Guns n’ Roses a Lisboa no ano seguinte e com a análise ao documentário Truth or Dare de Madonna que tinha estreado nas salas de todo o planeta um par de semanas antes.

De certa maneira, os Pumpkins representavam o topo do iceberg alternativo, com Billy Corgan a não esconder as suas ambições de popstar nas entrevistas que ia concedendo e a funcionar como uma espécie de agente infiltrado de uma mais visível e bastante mais comercial facção rock. Andar na estrada a abrir para bandas como os Red Hot Chili Peppers, Jane’s Addiction ou até Guns n’ Roses tinha-lhes certamente mostrado o que significava estar no topo da montanha. A produção de Butch Vig, que um par de meses depois das sessões com Corgan e companhia regressaria a estúdio com uma certa banda de Seattle para terminar o material depois reunido em Nevermind, seguiu as recomendações do líder da banda que tinha por referências sónicas clássicos rock de bandas como os ELO ou Queen. O disco, que Bily Corgan descreveu como sendo acerca “da dor e da ascensão espiritual”, furou o Top 200 da Billboard e posicionou-se no topo das tabelas das Rádios Universitárias americanas, vendendo cópias suficientes para se sagrar como o lançamento independente mais bem sucedido da sua época, marca que só seria ultrapassada alguns anos depois pelos Offspring com o álbum Smash.

As edições de White Light From The Mouth of Infinity (6 de Junho) dos Swans de Michael Gira e Jarboe e de Trompe Le Monde i(23 de Setembro) dos Pixies de Black Francis e Kim Deal foram igualmente importantes neste agitado ano alternativo. Os Swans eram uma banda veterana, já no seu sétimo álbum e com uma década de carreira às costas, trilhando sempre as margens mais remotas do rock, aperfeiçoando um som absolutamente singular feito de longos mantras eléctricos com uma espessura algo gótica. Uma receita perfeita para o culto, mas pouco conforme com voos mais altos. Ao invés, os Pixies, que aqui somavam menos experiência, mas que ao quarto álbum já haviam conquistado uma muito mais pronunciada visibilidade, pareciam destinados a outros voos. Só que não (bem, mais ou menos...). O álbum de “Planet of Sound” ou da versão de “Head On” (original dos Jesus And Mary Chain) seria o último antes de uma dolorosa separação em 1993 (claro que o grupo regressaria ao activo e até aos estúdios, embora já sem Kim Deal, voltando a gravar em 2014, ano de edição de Indie City, o primeiro de três registos desta última fase da sua carreira). Mas antes de se separarem, os Pixies fizeram uma notável digressão que os coroou como justos monarcas neste reino subterrâneo feito de electricidade e dores de alma. Na memória de muitos estará, pois claro, a passagem do grupo por Portugal, alguns meses antes da chegada de Trompe Le Monde às lojas, quando Bossanova (de 1990) era ainda o seu álbum mais recente. O concerto do Coliseu dos Recreios, a 13 de Junho, não abriu apenas um buraco na plateia, mas conquistou aquele invejável estatuto que se manifesta com um orgulhoso “eu estive lá”, frase que se escuta bastas vezes quando são evocadas as passagens pelo nosso país de bandas como os Ramones, Clash ou Nirvana.

Nas páginas da BLITZ, Filipe Garcia recordou essa triunfal apresentação lisboeta da banda de Boston: “”Rock Music” serviu de tema de arranque - mesmo que as luzes da sala estivessem por apagar e a aparelhagem da sala ainda fizesse barulho -, passou-se pelos inéditos e a sala veio previsivelmente abaixo com temas como “Monkey Gone to Heaven”, “Holiday Song” e “Vamos”. Se agora o mais provável seria ver o Coliseu iluminado por ecrãs de telemóveis, a filmar, a fotografar ou a partilhar vídeos e imagens por Facebooks e Instagrams, em 1991 foram os “inevitáveis isqueiros” que ajudaram Black a cantar “Where Is My Mind?”. Nessa altura, os Pixies foram recebidos por uma “delirante assistência” durante uma passagem por Lisboa “coroada de êxito”. Um dia depois, a euforia repetir-se-ia sem menor intensidade no Porto”. Lembram-se disto tudo? Estiveram lá? 1991 foi muitas coisas, fez-se de muitos sons, de muitos discos e de muitas correntes. Esta foi das mais subterrâneas, mas também das mais memoráveis, uma cena estranha que não tardou a entranhar-se no imaginário de toda uma geração.