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101 canções que marcaram Portugal #53: 'A Lenda de El-Rei D. Sebastião', pelo Quarteto 1111 (1967)

É uma referência do psicadelismo folk. Agregou a temática tradicional, o psicadelismo e a música árabe, com metáforas poéticas incomuns. Lançou os alicerces para uma pop nacional – que serviriam de guião a muitas outras bandas nas décadas seguintes. 'A Lenda de El-Rei D. Sebastião' é a 53ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'A Lenda de El Rei D. Sebastião'
Quarteto 1111
(1967)

‘Sem a loucura, que é o homem mais que a besta?’, escrevia Fernando Pessoa na única obra que viu editada em vida, ‘Mensagem’. O mito messiânico, objetivado por D. Sebastião neste livro, acompanhou a cultura portuguesa desde Bandarra até hoje. Portugal nunca conseguiu erguer o quinto império mas conseguiu ser movido por sonhos, por loucura, perseguindo o impossível. D. Sebastião, o rei menino, encarna a capacidade de Portugal ver mais longe. Outro que amava os abismos, as torrentes e os desertos.

Cascais, 1967. Década de inovações, de experimentalismo. As bandas buscavam reinventar o que estava na moda. As rádios ventilavam novas linguagens. Mas o Quarteto 1111 queria fazer diferente cá no burgo. Queria agregar a temática tradicional, o psicadelismo e a música árabe, com metáforas poéticas incomuns – concetualizando enfim uma portugalidade universal. 1967, o verão do amor, foi o ano de “Sgt. Peppers”, de “Forever Changes”, de “The Velvet Underground and Nico”, de “Gates of Dawn” – ainda todos a se tentarem recompor do ciclone que fora “Pet Sounds”. Mas porque a inspiração desponta de diegeses insuspeitas, foi João Gilberto e a sua batida sambista inovadora, o seu swing, a sua estética irregular, que desbloqueou o Quarteto a compor, tentando transpor as harmonias de Gilberto para o piano – encurtando a distância entre a bossa nova e o rock psicadélico. O grupo inovou e compôs, como ironia e para espanto, temas arreigados da nossa história. As letras e a música do Quarteto 1111 ascenderam ao estatuto de culto – nesse final de anos 60. Foi como banda de vanguarda que inaugurou o palco do mítico Vilar de Mouros, em 1971.

O EP de estreia, que integrava ‘A Lenda de El-Rei D. Sebastião’, é ainda hoje uma referência do psicadelismo folk; lançou os alicerces para uma pop nacional – que serviriam de guião a outras bandas nas décadas seguintes.

O programa ‘Em Órbita’, de Pedro Albergaria, expôs a ‘lenda’. Passou, a partir daí, a ter visualidade e, em simetria, a censura à perna. O seu primeiro álbum (de 1970) conteria canções tão insurretas como ‘Domingo em Bidonville’, ‘As trovas do tempo que passa’ ou ‘Lenda de Nambuangongo’ – a merecer hoje emoji de riso. Os membros do 1111 só não foram presos porque eram monárquicos (bate certo) e Salazar temorizava-se sobretudo com militantes do PCP de papel passado. Em todo o caso, o ‘Fugiu de Alcácer-Quibir’ teria de ser cambiado para ‘Depois de Alcácer-Quibir’ – até porque D. Sebastião, diga-se, nunca se esquivou de quaisquer guerras. O Quarteto 1111 passou a alumiar, desde aí, a direção que a música portuguesa haveria de trilhar – evidente em bandas subsequentes como os Heróis do Mar, a Sétima Legião ou o Trovante.

Ainda que reconhecido, aos fins de semana animava bailes, festas, em palcos grandes ou menos monumentais – como suporte financeiro. O público estava acostumado a tangos, pasodobles, boleros e a canções melosas portuguesas, francesas e italianas. O Quarteto, todavia, não declinando cativar os auditórios, servia o rock anglo-saxónico – de Kinks a Beatles, de Stones a Simon and Garfunkel. E também John Lee Hooker, Chuck Berry ou Fats Domino. Só o muito bom, cantado e tocado com desvelo e perícia. Trazia tarimba dos Babies, do Conjunto Mistério e dos Top Five, de José Cid e Tozé Brito.

O reconhecimento, todavia, não provê sustento: a partir de 1970, por isso, mas acicatado também pelo sentido prático e esteta de Tozé Brito, infletiu a sua dialética: impôs-se ser uma banda mais comercial, ainda que não abdicando do progressismo e psicadelismo da sua génese. Mas essa atitude era incombinável com as imposições de um mercado mainstream ainda (e sempre?) caloiro de harmonias inovadoras. O Quarteto 1111 passou a ter, assim sendo, um heterónimo: os Green Windows – um ângulo mais rendível de exibição musical. ’20 Anos’ ou ‘O Dia em que o Rei Fez Anos’ eram a faceta mais descomplicada do Quarteto 1111. Atravessaram os anos 70, as duas bandas, em simetria criativa – com êxitos mais fecundos, bem de ver, a tombar para os Green Windows; a influência que projetaram (por mais de 50 anos) detêm-nos, ao invés, o Quarteto 1111 – sabe-se que o tempo e a qualidade nem sempre estão alinhados com a glória. Hoje, o seu legado materializa-se em (mais) um dos preceitos de Pessoa: ‘Deus quer, o homem sonha, a obra nasce’.

E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Mas que nunca mais voltou
El-Rei D. Sebastião

Ouvir também: ‘Balada para D. Inês’ (1968). A representação da história de Pedro e Inês foi levada ao Festival RTP da Canção por José Cid – tendo todavia a acompanhá-lo o Quarteto 1111. A canção classificou-se em terceiro lugar.