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Rita Carmo

Fernando Ribeiro (Moonspell): “Estou farto das parvoíces que as bandas [de metal] dizem sobre religião só para venderem discos”

“As pessoas no heavy metal veem tudo só preto ou só branco. Não há muitas bandas que trabalhem na ambiguidade que resulta de se nascer e crescer num país católico”, afirma o líder dos Moonspell à imprensa mexicana. Numa conversa sobre a importância da religião na música, Fernando Ribeiro considera que “Kant e Nietzsche teriam vergonha se lessem algumas letras” e defende maior “inteligência, profundidade e estudo”

Com "Hermitage", o novo álbum, acabado de sair, os Moonspell falaram com o site mexicano Pólvora, dedicado ao rock e ao metal, sobre a influência da religião na discografia do grupo.

Considerando que "Hermitage" retoma muitos elementos de aproximação ao simbolismo religioso, presentes nos primeiros discos dos Moonspell, o autor da entrevista pede a Fernando Ribeiro um comentário. A resposta é longa e o líder dos Moonspell lança críticas ao que considera uma apropriação oportunista das temáticas religiosas por parte de alguns artistas, acreditando que a maior parte das abordagens é superficial, mas vai mais longe, referindo-se efetivamente à força da religião na contemporaneidade.

"As pessoas no heavy metal veem tudo só preto ou só branco. Não há muitas bandas que trabalhem na ambiguidade que resulta de nascer e crescer num país católico. Estou muito farto de todas as grandes parvoíces que os grupos dizem sobre a religião, especialmente sobre o cristianismo, só para se promoverem e venderem discos. Penso que muito do black metal é mais marketing do que convicção verdadeira. Não há inteligência, profundidade ou conhecimento prévio para se dizerem certas coisas"

"Eu adoro metal mas fico um pouco desiludido porque também defendo que seja uma música cerebral. Através dos tempos encontramos bandas que fazem letras demasiado simples e até contraditórias. Claro que muito menos me agrada o fundamentalismo da igreja, mas Portugal não teria uma história se não se falasse também do catolicismo, que para nós é uma influência brutal. Comecei a falar destes temas como faria qualquer outra banda, começando por Satanás, mas quando me matriculei no curso de Filosofia na Universidade de Lisboa, todos esses mitos e dogmas que se alojaram na minha cabeça foram demolidos por obras de Kant e Nietzsche, [filósofos] que se sentiriam embaraçados se lessem letras de black metal que dizem coisas tão básicas como 'fuck you, God' ou 'we killed God'".

"Em 2021, para desmantelar um sistema há que fazê-lo com inteligência. Estudei muito o catolicismo, que tem uma história muito obscura, sobretudo nos países onde se impôs, como os da América Latina. Não podemos mudar a história, mas muito menos se poderá ter uma postura de ódio irracional. Todas as religiões têm sangue nas mãos, como prova agora o Islão, que se impõe de uma forma mais violenta, à semelhança do que sucedeu com o cristianismo na Idade Média"