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101 canções que marcaram Portugal #52: 'O Elevador da Glória', pelos Rádio Macau (1987)

Encabeçaram a vanguarda de um tempo novo, de uma linguagem musical desacostumada. Acomodaram a sua matriz ao pós-boom-rock e inebriaram um público ávido de novas linguagens. As suas canções continuam na playlist de um Portugal sofisticado. 'O Elevador da Glória' é a 52ª de 101 canções que marcaram o país

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'O Elevador da Glória'
Rádio Macau
(1987)

Xana, Flak e Alex apearam-se na estação do Rossio, vindos da linha de Sintra, onde viviam, para correr nesse dia as editoras da capital, não mais que uma mão cheia. Levavam apenas uma cassete, uma. Na Valentim de Carvalho, com a lata de que são feitas a inconsciência e a convicção, tiveram a ventura de Francisco Vasconcelos se dispor a ouvi-la. Que passassem dali a duas horas. Os Rádio Macau, num assomo de atrevimento, impuseram a Vasconcelos metade desse tempo, que não o tinham a perder. Acostumado à rebeldia do rock and roll, o responsável da editora acedeu à presunção dos garotos e começou aí a história de uma banda que, ao longo de quase 40 anos, tem sabido dedicar sublimidade musical a Portugal.

Tinha-se passado alguns anos, não muitos, desde que, no final dos anos 70, ouviam Clash ou Television e se identificavam com aquela estética crua e insolente. As suas ainda limitadas aptidões técnicas ajustavam-se, para mais, à simplicidade do pós-punk, do gótico e da estética industrial. O seu som dissonante precisava todavia de uma Patti Smith, de uma figura carismática e disruptiva. Xana vivia sozinha desde a adolescência, crescera depressa e adquirira maturidade antes do tempo. Tinha a feição, confiança e rebeldia de que os Rádio Macau precisavam. Soube fazer de si e souberam fazer dela a primeira rocker portuguesa – que encantou o país dos anos 80 até hoje.

Queriam viver a vida num só dia, mas a sua obstinação em não desapontar, em fazer bem, em estar à altura, levaram-nos a palmear, canção após canção, álbum após álbum, década após década, um trajeto firme na melhor música que se fez em Portugal.

Tiveram de limar a sua sonoridade para penetrarem no mercado, sem a corromper todavia. Vivia-se a depressão pós-boom-rock e a indústria, com cash flow mas em crise criativa, ansiava por singles. Que sim, havia dinheiro para gastar, podia investir-se em boas gravações, com primor, e os Rádio Macau foram uma das bandas que souberam fruir esse tempo novo, de inflexão.

O primeiro álbum, “Rádio Macau”, foi o introito para o muito bom que iriam produzir a partir daí, com determinação e afinco. Tinham já algum hype, ainda que o álbum não tivesse um grande single. Permitiu-lhes todavia chamar a atenção, sobretudo pela sonoridade elegante e aprimorada. Permitiu-lhes dar concertos, ser uma banda com a qual contar para inebriar público ávido de novas narrativas musicais. Só sobressaía quem estivesse alinhado com códigos comerciais – quer fizesse ou não concessões à sua diretriz estética.

Os Rádio Macau, inserindo-se na mesma esfera de estranheza de António Variações ou Heróis do Mar, encabeçavam a vanguarda de um tempo novo, de uma linguagem musical desacostumada. Alinhavam-se assim, ainda que não intencionalmente, nesse novo padrão e, com o LP “Spleen” pelo meio, lançaram-se para um álbum que se ouvia de fio a pavio, um álbum insuflado de grandes canções, “O Elevador da Glória”. O álbum fez dos Rádio Macau maiores, mainstream, ovacionados, repetidos, copiados, a ditar tendências ainda por escrever em Portugal. O álbum foi reconhecido pela crítica e pelo público, a díade suprema. Fez com que o seu percurso, palmilhado com desvelo, tivesse valido a pena. E fez com que fossem tomados pela angústia – depois do muito bem que tinham feito e sobretudo pelo muito bem que teriam de fazer a partir de então.

Desse álbum, ‘O Anzol’ era a canção mais diagonal, mais ligeira, com acordes simples – assente numa letra requintada e orelhuda. Mas ‘O Elevador da Glória’ era a canção que definia mais energicamente os Rádio Macau: uma canção porosa, agitada, com uma letra bem desenhada, austera e elegante. ‘O Elevador da Glória’, não sendo uma canção datada, marcou esse tempo, o final dos anos 80; faz parte da playlist do prelúdio de um Portugal sofisticado.

Por um compromisso para com o esmero, Flak, Xana e Alex têm interrompido os Rádio Macau por períodos longos - para se renovarem e voltarem a fazer de novo muito bem. Para viverem outras sonoridades, doutrinas, pessoas e lugares – e regressarem ventilados por aquilo que os habitou entretanto.

A passagem do tempo não deve ser uma alegoria de decadência. Para os Rádio Macau, envelhecer seria outrossim sinal de desistência. São, pelo que criaram, um paradigma de sofisticação. E tudo começou com o mote de um elevador que transporta passageiros da Baixa até ao Bairro Alto. A um passo da estação onde se tinham apeado anos antes com uma cassete no bolso e a determinação de alcançar um sonho que todos vimos cumprir.

Desde o triste anonimato
Desde a ralé e a escória
Até à fama e ao estrelato
Há o elevador da glória

Ouvir também: ‘Entre as memórias e o sonho’ (2008). Mais de 20 anos depois, os Rádio Macau confirmam a indiferença pela época em que criam canções.

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