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Será que Carolina Deslandes vai ganhar o Festival da Canção?

'Por um Triz', canção escrita e interpretada por Carolina Deslandes, partirá como favorita na edição deste ano do Festival da Canção, dada a notoriedade da cantora-compositora. Mas a história recente mostra que nem sempre o concorrente mais famoso é o vencedor

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Uma balada acústica, com letra em português e uma mensagem capaz de causar identificação em muitos corações partidos. 'Por um Triz', canção escrita e interpretada por Carolina Deslandes, é um dos dez temas a concurso na segunda eliminatória do Festival da Canção, marcada para o próximo sábado, 27 de fevereiro, e uma das grandes favoritas a brilhar na final de 6 de março. Afinal, com mais de 800 mil seguidores no Instagram, rede social na qual é particularmente ativa, Carolina Deslandes goza de grande popularidade e notoriedade mediática (atualmente, por exemplo, integra o júri do concurso The Voice Kids, dedicado aos concorrentes mais jovens). A letra de 'Por um Triz' parece espelhar a sua vida pessoal, marcada pela separação recente do seu companheiro Diogo Clemente, e as reações online são positivas: no YouTube, o vídeo da canção tem, à data de publicação deste artigo, quase 185 mil visualizações, sendo ultrapassado apenas pelos 191 mil de 'Saudade', dos Karetus, já apurada para a final. Mais: entre as centenas de comentários, há elogios de espectadores de vários países – a comunidade internacional da Eurovisão presta sempre atenção às participações de cada país – e até de alguns ilustres, como Dino D'Santiago, que aplaude a letra emotiva de 'Por Um Triz'. Há mesmo quem compare a aparente singeleza da canção ao cometa 'Amar Pelos Dois', que em 2017 valeu a Portugal, pela voz de Salvador Sobral, a única vitória na Eurovisão.

Porém, um olhar pela história recente do Festival da Canção mostra que nem sempre – ou quase nunca – o triunfo sorriu ao concorrente mais conhecido na 'grelha de partida'. No ano passado, por exemplo, a canção mais votada foi 'Medo de Sentir', da até então desconhecida Elisa. É verdade que, na final de 2020, não abundaram os nomes extremamente populares, mas tanto os veteranos Blasted Mechanism como Bárbara Tinoco, que participara no The Voice em 2018, seriam mais familiares junto dos espectadores do que a cantora madeirense que acabou por não poder representar Portugal na final da Eurovisão, cancelada devido à pandemia.

De igual forma, em 2019 foi a jogo uma das bandas pop mais bem sucedidas do país, os D.A.M.A., bem como o cantor soul/funk NBC, dono de uma carreira já longa. E, envolto em iguais doses de glória e polémica, o vencedor acabou por ser Conan Osiris que, apesar de nessa altura já ter lançado o álbum “Adoro Bolos”, aterrou no mainstream televisivo como um extraterrestre.

Em 2018, duas figuras bem conhecidas concorreram ao Festival da Canção: Anabela, vencedora do certame em 1993, quando tinha apenas 16 anos, com 'A Cidade (Até Ser Dia)', e o veterano José Cid. Num nível inferior de notoriedade, esta foi uma edição que contou com a participação de JP Simões, Catarina Miranda (Emmy Curl) ou Capicua (enquanto autora da canção interpretada por Tamin). Também a (já então) estrela Diogo Piçarra se apresentou a concurso, ganhando a segunda eliminatória com pontução máxima do público e do júri mas acabando por desistir, na sequência de boatos de que a sua canção constituiria plágio. A vitória iria para 'O Jardim', escrita por Isaura e cantada por Cláudia Pascoal – então uma novata, mas ainda assim familiar do grande público graças à participação em concursos como Ídolos e The Voice. Estava, contudo, longe de ser a favorita à partida.

Recuando até 2017, ano da coroação de Salvador Sobral, eis a edição que contou com outro nome histórico da música portuguesa: Lena d'Água, que não venceu mas cujo regresso às canções originais e à vida mediática serviu de catapulta para o aclamado álbum que lançaria dali a dois anos, “Desalmadamente”. Quanto a Salvador Sobral, inicialmente alvo, tal como Conan Osiris, de tanta adoração como de 'linchamento' digital, já tinha, em 2017, lançado um álbum, mas era menos reconhecido do grande público do que a sua irmã mais velha (e compositora de 'Amar Pelos Dois'), Luísa Sobral.

No mais longínquo ano de 2015, o peso histórico de Simone de Oliveira ou Adelaide Ferreira não foi capaz de impedir a vitória da bem mais jovem Leonor Andrade, com uma canção ('Há um Mar que nos Separa') escrita por Miguel Gameiro, dos Polo Norte.

A juventude dos intérpretes e a novidade das canções que apresentam parecem ser, assim, dois dos fatores que mais contribuíram para as vitórias no Festival da Canção nos últimos anos. Destaque ainda para a crescente presença feminina: este ano, por exemplo, 70% dos intérpretes são mulheres (14 em 20), cabendo também a autoria das canções a uma boa percentagem de criadoras (Carolina Deslandes, Da Chick, Fábia Maia, Ian, Irma, Joana Alegre e Tainá compuseram as canções a que dão voz, enquanto Anne Victorino d'Almeida é a autora do tema cantado por Nadine e Viviane escreveu o de Ana Tereza).

Se olharmos exclusivamente aos números, nomeadamente às escutas que cada canção tem no YouTube, os concorrentes mais bem posicionados para ganhar o Festival da Canção em 2021 são os Karetus (191 mil plays), Carolina Deslandes (184 mil) e Neev (152 mil), que no ano passado lançou o seu álbum de estreia. Os Black Mamba, que vêm construindo uma carreira sólida e que se apresentam a concurso com um tema escrito pelo seu vocalista, Tatanka, não vão, por enquanto, além dos 70 mil. Mas até ao lavar dos cestos é vindima, como se costuma dizer. E na final de 6 de março, em caso de empate após apuradas as votações de público e júri nacional, é a vontade do público que determina quem representará Portugal na Eurovisão, na Holanda. E aí Carolina Deslandes, a figura da música portuguesa mais bem sucedida no Instagram (apenas David Carreira tem mais seguidores, cerca de 900 mil, mas quatro vezes menos interações, isto é, 'gostos' e comentários) poderá contar com uma ajuda preciosa dos seus fãs.