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Daft Punk em 1997, antes dos capacetes

Getty Images

Os Daft Punk mostraram-nos que afinal os robôs dançam como nós. Esta é a história deles (e também das nossas melhores noites)

Deram os primeiros passos em 1993 e registam as últimas produções em 2016. Pelo meio, puseram toda a gente a dançar sem vergonha – humanos e não só. Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem Christo conseguiram a proeza de ascender ao topo da pirâmide da pop global sem expor por completo os homens por trás das máquinas. Sem pré-aviso, foram embora. Esta é a história musical de uma banda que não quis ser como as outras

Há neste momento – e se não acreditarem, poderão ir conferir – bonecos da dupla Daft Punk à venda no eBay por mais de 17 mil euros. A companhia japonesa Medicom, sobretudo através da sua linha Be@rbrick, criou várias versões da icónica dupla de capacetes futuristas que confirmam uma ideia: Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem Christo ergueram-se bem para lá da música para se imporem na história da pop como ícones, símbolos de um tempo.

Parte dessa conquista deve-se, obviamente, como aliás recentemente lembrava a Pitchfork, à extrema qualidade dos visuais com que os Daft Punk representaram a sua música na era da MTV, primeiro, e na do YouTube, mais tarde: trabalhando com realizadores como Spike Jonze (“Da Funk”), Michel Gondry (“Around The World”), a dupla japonesa formada pelo ilustrador Leiji Matsumoto e pelo realizador Kazuhisa Takenouchi (todo o filme Interstella 5555 de onde são retirados os clips de Discovery) ou Tony Gardner (na verdade um especialista em maquilhagem que, entre outros créditos dignos de nota trabalhou em “Thriller” de Michael Jackson e que para os franceses criou “Prime Time of Your Life”), os artistas franceses criaram uma espécie de nova linguagem visual para a era moderna. Os próprios Daft Punk foram creditados como realizadores de Electroma, filme que estreou em 2006 em Cannes, que não continha música sua (na banda sonora surgiam nomes como Brian Eno ou Curtis Mayfield, entre outros), mas que ganhou nova relevância ao ter fornecido as imagens para “Epilogue”, o vídeo com que a dupla anunciou ao mundo, no passado dia 22 de Fevereiro, que o seu percurso tinha chegado ao fim.

Na verdade, os mais recentes créditos artísticos dos Daft Punk, na qualidade de produtores, datam já de 2016: Guy-Manuel e Thomas trabalharam num par de temas de Starboy, álbum de The Weeknd. Antes disso, em 2013, integraram a alargada equipa de produtores que contribuiu para Yeezus de Kanye West. Duas mega-estrelas pop, ambas negras, representando a guarda avançada do som híbrido R&B-hip hop que hoje parece dominar as preferências de todo um planeta.

Mas o derradeiro registo dos Daft Punk foi o álbum de 2013 Random Access Memories. No título do disco que deu ao mundo o mega-sucesso “Get Lucky”, havia uma palavra que permite descodificar todo o processo de pensamento de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo: «memórias».

Muita da música eletrónica do presente é produzida usando a mesma ferramenta base – o computador – e os Daft Punk acreditam que isso lhe impõe uma aura genérica - «uma paisagem musical uniforme», como explicou Thomas Bangalter nas páginas do New York Times, o que os levou a descartar caixas de ritmos e samplers – há apenas dois samples na totalidade de Random Access Memories! – em favor de… seres humanos. Um gesto radical se se considerar que os Daft Punk foram os dois robôs mais celebrados de toda a cena eletrónica, tendo-se tornado verdadeiros símbolos de um mundo tecnologicamente avançado graças à sua cuidada imagem que inclui aqueles dois capacetes que injetam mistério na sua identidade: serão humanos? Aliens? Ciborgues? Action figures que custam milhares de euros no eBay?

Por isso mesmo, esse último trabalho dos Daft Punk distinguiu-se dos anteriores porque eles quiseram aceder, de forma nada aleatória, às suas memórias e recuar até um tempo em que o produtor mais do que comandar máquinas, comandava pessoas, colocando-se no papel de gente como Quincy Jones – que produziu os discos-chave de Michael Jackson – ou, claro de Nile Rodgers, homem dos Chic, e Giorgio Moroder, mestre Disco. Estes dois últimos, cumprindo certamente algum sonho de Thomas e Guy-Manuel, foram aliás convidados especiais de Random Access Memories. As pessoas, como por exemplo o baterista John Robinson que emprestou o seu pulsar a Off The Wall de Michael Jackson, permitiram dar à despedida discográfica dos Daft Punk, e ainda de acordo com as suas declarações da altura ao New York Times, «uma infinidade de nuances, nos ritmos e nos grooves». Algo que as máquinas não possuem. Uma memória real.

Gravado entre Paris, Los Angeles e Nova Iorque, esse álbum dos Daft Punk fez desfilar pessoas de várias gerações e estilos musicais – de Chilly Gonzalez a Pharrell Williams, de Panda Bear a Paul Williams. Não se contendo numa época ou género, os Daft Punk criaram um poderoso hino à história da própria música, pelo menos da música que desde os anos 70 fez as bolas de espelhos dos clubes brilharem com mais intensidade. De «Get Lucky» a «Fragments of Time», Random Access Memories, é fácil reconhecê-lo agora, impôs-se como um tratado na forma como o estúdio ainda pode superar a memória interna do computador, como as pessoas, e não os Plug-ins, podem ser a resposta para criar momentos únicos.

Esse álbum surgiu oito anos depois de Human After All, o álbum de “The Prime Time of Your Life”, “Robot Rock” ou “Human After All” que originou a digressão que haveria de passar por Portugal em 5 de Agosto de 2006, para uma triunfal apresentação no Festival do Sudoeste. Arrancando ao som da memorável sequência de notas que entrou para o imaginário colectivo graças a Encontros Imediatos do 3º Grau, filme de Steven Spielberg, esse concerto foi uma eufórica e extremamente visual tradução daquilo que a música electrónica teria que fazer para conquistar definitivamente um lugar nos grandes festivais de Verão.

Curiosamente, a porta que os Daft Punk aí escancararam nunca seria devidamente aproveitada pelo duo: essa digressão, que levou o nome Alive, que arrancou em Coachella em Abril de 2006 e que só terminaria, quase meia centena de apresentações depois, em Sydney, na Austrália, em Dezembro de 2007, não teve exatamente sequência, algo digno de nota porque, caso o tivessem desejado, os dois artistas poderiam ter basicamente escolhido que festivais de topo encabeçar. Desde então, os Daft Punk só registaram mais um par de apresentações, tendo protagonizado duas passagens pelos Grammys, em 2014 (ao lado de Stevie Wonder, para recolherem os frutos de Random Access Memories, incluindo a cobiçada distinção de Álbum do Ano), e 2017 (por causa do trabalho com The Weeknd).

Para trás, os Daft Punk deixaram aqueles que são, provavelmente, os seus dois mais celebrados clássicos: os álbuns Discovery, de 2001, e Homework, de 1997, com o primeiro a ser justamente apontado como uma obra prima da cena electrónica, um exercício de músculo house apontado às pistas de dança, criado em cima de samples de disco imaginativamente trabalhados em estúdio, criando logo aí um molde para uma sonoridade que se haveria de afirmar durante o milénio seguinte desembocando no fenómeno EDM que conquistaria notoriedade global, definindo o pulso dos festivais de Verão um pouco por todo o planeta.

Para lá dos álbuns de originais, os Daft Punk ainda criaram a banda sonora do remake do clássico cinematográfico Tron, o filme Tron: Legacy, lançado em 2010, duas antologias de material gravado ao vivo em 1997 e 2007 e um álbum de “reconfigurações” dos temas que criaram para a banda sonora do filme da Disney e em que se cruzaram com outros grandes nomes da electrónica como Moby ou Paul Oakenfold.

Com os primeiros passos dados como Daft Punk a datarem de 1993, quando criaram as bases para a estreia com o single “The New Wave”, e a despedida em álbum com essa celebração das memórias dançantes a ter sido lançada em 2013, é difícil não ler na simetria temporal uma precisão robótica ou até, quem sabe, uma planificação há muito gizada e que, entretanto, se possa ter cumprido.

Afinal de contas, para estrelas de carácter icónico e de dimensão global, Thomas e Guy-Manuel foram sempre muito reservados, tendo protegido a sua imagem, sobretudo a partir de Discovery, com os capacetes que se tornaram verdadeiros símbolos pop e que abriram caminho para que outras estrelas EDM experimentassem igualmente com imaginativas máscaras, como Marshmello e Deadmau5.

Tal proteção da imagem poderia querer dizer que Guy-Manuel de Homem Christo, que completou 47 anos há um par de semanas, e Thomas Bangalter, que fez 46 no arranque do ano, querem agora gozar uma reforma tranquila. Ou então não. Afinal de contas os robots, mesmo aqueles que têm alma, como era o caso dos Daft Punk, não envelhecem. Só precisam de recarregar baterias.