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Nick Cave acaba de lançar “Carnage”, um álbum novinho em folha. Já o ouvimos: é apocalíptico, religioso e embaraçoso

“Duas pessoas sentadas numa sala dispostas a correr riscos, e o que tiver de acontecer, acontece”. Aconteceu “Carnage”, um disco editado de surpresa neste final de fevereiro, que junta Nick Cave ao seu habitual cúmplice criativo, Warren Ellis. Já está disponível

Era já noite e Nick Cave caminhava pelas ruas brilhantes de chuva, junto à igreja de Saint Mary Abbots que, diante dele, se erguia “misteriosa e vazia, com o pináculo iluminado a tocar os céus”. Foi nesse momento que lhe ocorreu a pergunta que, em janeiro, nos “Red Hand Files” — o seu blog/newsletter online —, o Tom, de Chicago Illinois, e a Leah, de Ypsilanti, no Michigan, tinham enviado: “Is shitty art worth making?” Gravemente, Cave responde: “A Bíblia abre com a história da criação — ‘No princípio, Deus criou o céu e a terra’”. E, qual teólogo benignamente pedagógico, prossegue: “A história conta-nos que Deus considerou que a sua criação era ‘muito boa’. Devo dizer que concordo inteiramente — o mundo não é apenas muito bom, é perfeito — tão perfeito que é capaz de conter em si coisas profundamente imperfeitas. É uma obra-prima que envolve uma falha essencial e estimulante — a nossa humanidade. No que respeita à ‘shitty art’, toda a arte é perfeitamente imperfeita — tal como o próprio mundo — e, em certa medida, todos os juízos de valor acerca dela são largamente subjetivos e despropositados. (...) Qualquer coisa que nos anime positivamente é uma reencenação da história original da criação. Tenhamos ou não consciência disso, criar arte é um encontro religioso.” Regressando à chuvosa noite inicial, conclui: “E, de súbito, era um momento perfeito — um momento perfeito alojado numa catástrofe humana partilhada mas, ainda assim, perfeito.”

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