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ALFREDO MATOS

Rogério Charraz lança esta sexta-feira “O Coreto”, um álbum que “deve ser ouvido como quem lê um romance”

O musico Rogério Charraz defende que o seu novo álbum, “O Coreto”, a editar no próximo dia 26, deve ser “escutado como quem lê um romance”. As letras de todas as canções são de José Fialho Gouveia

O musico Rogério Charraz defende que o seu novo álbum, "O Coreto", a editar no próximo dia 26, deve ser "escutado como quem lê um romance", seguindo-se mesmo o texto das canções e a introdução a cada uma.

"Este trabalho, para ser entendido na sua totalidade, precisa que as pessoas vão olhando para o `booklet`, lendo a introdução que colocámos em cada canção, explicando o seu papel na história", disse Charraz à agência Lusa. "Nada impede", porém, "que cada canção tenha por si só uma vida própria", alertou, por seu turno, o autor de todas as letras deste álbum, José Fialho Gouveia.

Os dois criadores de "O Coreto" falam à agência Lusa sobre este novo projeto "totalmente concebido em parceria", como sublinha Charraz: "José Fialho Gouveia participou em tudo, desde a gravação à conceção da capa", disse Charraz. O álbum conta com a participação da cantora Sara Cruz, que Charraz descobriu nos Açores e que afirma ter "a voz perfeita" para Ana, a personagem feminina desta história. O músico destaca "a fragilidade" como Sara Cruz interpretou as canções.

Entre outras canções, Sara Cruz interpreta, em duo, "Feita deste Chão" e "Vou Estar Aqui", o último capítulo desta história. Sobre o álbum, Charraz disse que "é um projeto muito a dois, não só na parte criativa, pois o José Fialho [Gouveia] fez parte de todo o processo, até em estúdio", sublinhando "a enorme cumplicidade", entre ambos. "Tem sido muito fácil. E poucos são os momentos em que discordamos. Temos a mesma idade, temos ideias muito semelhantes do ponto de vista político, somos do mesmo clube, temos os mesmos gostos musicais e literários", prosseguiu Charraz, que referiu que "a presença `do Zé` foi uma enorme mais valia" e "facilitou o trabalho".

A colaboração entre ambos já tivera início no álbum "Não Tenhas Medo do Escuro" (2016), para o qual Fialho Gouveia escrevera cinco letras, e continuou em "4.0" (2018), com quatro temas. "Começámos logo a trabalhar muito juntos", afirmou Charraz realçando que "as palavras [de Fialho Gouveia] são muito simples, pois são muito sugestivas".

Charraz, que referiu que cada vez escreve menos, salientou ainda que, com José Fialho Gouveia passou a ter alguém com "quem partilhar decisões e trocar ideias desde o ponto de vista estético até ao negócio". Uma situação que contrasta com os anteriores álbuns em que, reconheceu, trabalhou "muito sozinho". "Nesse sentido", o letrista aliviou-o bastante, garantiu. José Fialho Gouveia, por seu lado, sublinhou "a grande empatia e amizade" que une os dois, e "a forma de ver o mundo", o que "facilita o trabalho".

Na opinião do letrista, a interpretação de Rogério Charraz "é uma certeza que vai estar de acordo" com o que escreveu. "Quando escrevo uma letra qualquer, ou o Rogério vai dar exatamente a intenção que eu queria àquelas palavras, ou vai melhorá-las", sublinhou Fialho Gouveia à Lusa, acrescentando que funcionam "muito bem" juntos.

No processo de construção das canções, habitualmente, primeiro Fialho Gouveia escreve a letra, seguindo-se a composição musical de Charraz. Rogério Charraz disse que o objeto "coreto" o fascinava há já alguns anos. Passou assim a Fialho Gouveia a ideia de "uma história em que o coreto tivesse um papel central", que fosse um tributo a um equipamento que "é lindíssimo, muito pouco valorizado, quase sempre decorativo, mas muito bem situado, central e em sítios lindíssimos". O seu principal objetivo "é tocar em coretos, como aconteceu em agosto do ano passado, em Pinhal Novo, no concelho de Palmela [distrito de Setúbal] e que funcionou maravilhosamente", disse. O coreto "é um palco lindíssimo e, do ponto de vista cénico, permite jogar com as luzes e o espaço envolvente", disse o músico à Lusa.

Para José Fialho Gouveia, que já escreveu para outros intérpretes como o fadista Hélder Moutinho, a diferença em relação a Charraz "é mais de temática, de assuntos que são abordados e como o são". "As coisas não são estanques", declarou Fialho Gouveia, referindo que "já aconteceu estar a escrever e a imaginar um fado, mas o Rogério pegou na letra e virou tudo menos fado". Todavia, quando escreve para Rogério Charraz, o letrista reconhece que já tem a voz dele na cabeça e "o [seu] registo de composição". "Ao escrever uma letra, independentemente para quem seja, tenho a tendência a imaginar uma voz ou até tenho uma melodia na cabeça, mas quando escrevo para o Rogério, isso simplifica-se e torna-se um processo simples, cómodo, confortável", referiu Fialho Gouveia à Lusa.

Rogério Charraz defendeu que, neste álbum, mantém a sua "crítica social", designadamente "a um país assimétrico, centrado em três ou quatro núcleos urbanos, e um outro país sem hospitais ou postos dos correios, onde não há outros serviços essenciais" Reconhecendo que, neste álbum, "não há uma crítica política, como aconteceu em `O Submarino Irrevogável`", do álbum "Espelho" (2014), Charraz argumentou que "não fazia sentido ter essa linguagem tão direta".

"Não fazia sentido ter essa linguagem tão direta e objetiva sobre questões políticas, mas a crítica social está lá e, mais do que a crítica, a preocupação social, nomeadamente este país assimétrico que nos impede de sermos felizes", afirmou Charraz. Destacou os "excecionais músicos" que o acompanham, entre os quais Carlos Miguel, na bateria e percussão, Nuno Oliveira, no contrabaixo, Mário Delgado, na guitarra `Dobro`, Paulo Gaspar, no clarinete e saxofone barítono, e Carlos Lopes, no acordeão. Rogério Charraz acompanha-se na guitarra acústica.

"O Coreto" deverá ser apresentado no Teatro da Trindade, em Lisboa, no dia 23 de março, "respeitando todas as regras de segurança e com algumas surpresas". Entre as participações previstas, estão Luísa Sobral, que entra nos coros de "O Coreto" e foi a responsável pela produção musical. Rogério Charraz e José Fialho Gouveia justificaram a escolha de Luísa Sobral para a produção, pela sua "abordagem acústica, que vai ao osso da canção" e a respeita, "sem artefactos artificiais".

O álbum chega aos escaparates no próximo dia 26, e deverá subir ao palco do Teatro da Trindade, em Lisboa, no dia 23 de março.