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Rita Carmo

Quando regressam os grandes concertos a Portugal? As incertezas de uma indústria em pleno ataque de nervos

The Weeknd só em outubro de 2022, Diogo Piçarra na várias vezes adiada Altice Arena a uma distância de 20 meses. Zero grandes digressões anunciadas para 2021, festivais sem saberem que verão vão ter, concertos que transitaram do passado em risco. A BLITZ falou com profissionais do setor e algo parece, desde já, claro: os espetáculos das estrelas mundiais e as grandes salas esgotadas tão cedo não acontecerão em Portugal. Até lá, a reinvenção é a palavra de ordem

Quando o regresso a solo nacional do canadiano The Weeknd, uma das maiores estrelas do momento da música pop, foi anunciado para o dia 25 de outubro de 2022, ou seja, para daqui a mais de ano e meio, a teoria de que a música ao vivo só voltará em força no próximo ano começou a ganhar força. O concerto, promovido pela Everything is New e integrado na digressão europeia de promoção ao álbum “After Hours”, terá lugar na Altice Arena, em Lisboa, e os bilhetes já se encontram indisponíveis nos sites de venda.

“O que isso quer dizer é que há artistas internacionais a começar a achar que este ano não vão conseguir fazer digressões e que é preferível passarem já tudo para o ano que vem, na esperança de que isto já possa estar a mexer normalmente”, defende Paulo Ventura, organizador do festival EDP Vilar de Mouros e CEO da empresa de agenciamento de artistas Metrónomo, responsável pela agenda de concertos de Legendary Tigerman e Tiago Bettencourt, entre outros. “Uma coisa é podermos abrir como fizemos no ano passado, com o apoio das autarquias e dos programadores, que de alguma forma aguentam a ideia de trabalhar com uma sala a um terço ou a 40%, outra coisa são essas digressões internacionais em que precisas de ter uma bitola mínima de lotação para atingires os objetivos financeiros. [Nos Estados Unidos] perceberam que há uma quantidade de territórios na Europa onde ainda existem muitas restrições e, então, preferem ficar quietinhos em casa até isto poder recomeçar a mexer”.

O que isto também parece significar é que os vários grandes concertos de artistas estrangeiros que continuam agendados para 2021 estarão prestes a ser adiados ou cancelados. A manutenção desses espetáculos – por exemplo, Guns N’ Roses no Passeio Marítimo de Algés a 2 de junho, Aerosmith na Altice Arena (Lisboa) a 8 de junho ou Iron Maiden no Estádio Nacional a 21 de junho – depende não só da possibilidade de os artistas se deslocarem como das negociações que decorrem, neste momento, entre os promotores e o governo português. “Estou em total stand-by, à espera de perceber o que acontece”, admite Andreia Criner, da agência de comunicação LiveCom, que tem como clientes, entre outros, os festivais F e VOA e a promotora Prime Artists. “Continuo à espera de saber o que acontece aos grandes concertos de estádio, como o dos Iron Maiden, que estou a comunicar. Até informação em contrário, a data está anunciada”, acrescenta. “É uma digressão deles, depende sobretudo do que o artista decide ou pode. Imaginemos que um ou dois países estão bem e podem receber concertos e os outros não... Tudo mexe”, afirma, com uma reserva de esperança.

Mais um verão covid

Poucos dias depois do anúncio do concerto de Weeknd na Altice Arena, foi igualmente confirmado que o espetáculo, há muito esgotado, do português Diogo Piçarra na mesma sala lisboeta seria adiado, uma terceira vez, para 1 de outubro de 2022. Originalmente agendado para o dia 28 de março de 2020, o concerto do músico algarvio tinha sido reagendado, no início da pandemia, para 12 de setembro e, posteriormente, para 20 de março deste ano. “O adiamento para daqui a um ano e meio tem a ver um bocadinho com o cansaço”, explica Carla Simões, diretora de Artists Management & Booking da editora Universal, responsável pela produção do concerto de Piçarra. “Já adiámos três vezes, esta é a quarta data, e estamos muito cansados com essa situação. Não é um concerto fácil de adiar, porque está esgotado. São 16 mil lugares”, assinala.

Para este espetáculo, data única de um artista português e fora do contexto de uma digressão, chegou a haver um plano B, que envolveria fazer três sessões, “com todos os custos extra que isso acarreta”, mas a hipótese caiu por terra quando se percebeu que os espetáculos dificilmente se poderiam realizar em março deste ano. “Não podíamos deixar o público mais uma vez à espera da última hora para perceber se era viável ou não. Começámos a sentir os fãs do Diogo muito impacientes, a enviar mensagens a toda a hora a perguntar se ia haver concerto ou não e decidimos, então, tomar a decisão de adiar”.

Adiar para 2022 afigurou-se como a solução mais segura, e a prudência mandou agendá-lo para o último trimestre do próximo ano. Tem tudo a ver com a vacinação, afirma Carla Simões. “Adiando para o final deste ano, estaríamos a correr o mesmo risco, porque não sabemos o que vai acontecer”, refere. “É público que o governo acha que no final do verão terá 60% da população vacinada. A questão é: com 60% da população vacinada, vai abrir-se tudo a 100% ou vão continuar as limitações da cultura? Não sabemos. Também sabemos que, pelo plano de vacinação, só no final do primeiro trimestre do próximo ano é que toda a população estará vacinada. Portanto, acreditamos que a partir desse momento haverá, aí sim, uma abertura a 100%. E já com o receio dos deslizes que possam existir, optámos por adiar mais para o final do ano, para termos mais garantias”.

Outros espetáculos também já empurrados para 2022 foram as várias apresentações do Desconcerto, que junta António Zambujo, César Mourão, Luísa Sobral e Miguel Araújo, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Também adiados por diversas vezes, foram agora remarcados para 26, 27, 28, 29 e 30 de janeiro do próximo ano, estando colocada de parte a ideia de desdobrar os cinco espetáculos em dez sessões. Neste caso, parece acreditar-se que lotações máximas serão autorizadas no início de 2022.

Quer Paulo Ventura quer Andreia Criner admitem que o verão deste ano poderá ser muito semelhante ao de 2020, no que a espetáculos diz respeito. “Acredito que, no verão, e tendo em conta o que aconteceu no ano passado, conseguiremos trabalhar em lotação covid, ou seja, ao ar livre, em espaço aberto, com distanciamento, álcool-gel, etc.”, diz a responsável da LiveCom. “Na pior das hipóteses, estou a contar ter um verão de 2021 com as mesmas regras de 2020. Não tenho a mínima ideia se, quando desconfinarmos, quando terminar o Estado de Emergência, voltamos logo a poder abrir as salas e a trabalhar ou se vai ser gradual. Se vão primeiro os miúdos para as escolas, se abre algum comércio. Não sabemos, ainda”.

“Eventualmente, durante o verão isto pode começar a mexer. E sempre dependendo da boa vontade das salas e teatros, que podem trabalhar a um terço porque pertencem às autarquias e têm programação própria”, acrescenta Ventura. “A digressão do Tiago Bettencourt, montada desde o ano passado, está projetada para ter de 20 a 26 espetáculos e tem uma bitola de assistência de 460 ou 480 pessoas, em média, para cumprirmos os objetivos...”, afirma o patrão da Metrónomo, dando conta depois da reinvenção constante. “Semanalmente, temos que adiar datas. Era para ser de fevereiro a maio e, neste momento, já vai ser de quando começar, que não sabemos exatamente quando é, até dezembro. E, de repente, vou fazer para 200, 150 pessoas? Vou! Mas vou ficar brutalmente aquém daquilo que tinha programado. O que é que vamos fazer?”.