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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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1991, o último grande ano do rock. Capítulo 1: Pearl Jam, Nirvana e Soundgarden mudavam a face da música (mas não estavam sozinhos)

Primeira parte de uma série de artigos que olham para aquele que poderá ter sido o ano da melhor colheita rock das últimas três décadas: 1991. Há 30 anos, além das bandas de “Ten”, “Nevermind” e “Badmotorfinger”, o rock do outro lado do Atlântico revelava nomes como Screaming Trees, Melvins, Temple of the Dog, Mudhoney ou Tad. Era Seattle a afirmar-se como nova meca do rock

1991... ainda se lembram? Por cá Cavaco Silva reinava supremo, no último ano da legislatura do XI Governo Constitucional, a primeira vez que um partido tinha conquistado maioria parlamentar, e preparava-se para ganhar as eleições de Outubro desse mesmo ano, para mais 4 anos como inquilino do Palacete de São Bento. Do lado de lá do oceano, George H. W. Bush estava tranquilamente instalado na Casa Branca. Quer dizer, “tranquilamente”, salvo seja, já que durante o seu mandato teve que lidar com o desmembramento da União Soviética, mandar uns quantos soldados ao Panamá para darem “boleia” ao ditador Noriega até à América e organizar a libertação do Kuwait que resultou na Guerra do Golfo...

Nesse ano, milhões de adolescentes suspiravam enquanto admiravam os posters de Patrick Swayze nas suas paredes – a People distinguiu-o como o homem mais sexy do mundo -- e ninguém voava mais alto do que Michael Jordan, estrela máxima dos Chicago Bulls. Enquanto isso, havia grandes probabilidades de, caso ligassem a rádio, escutarem “Everything I Do I Do It For You”, talvez o maior êxito do ano. Mas Bryan Adams está longe de ser o nome que definiu um ano que muitos acreditam ter sido de absoluta excepção na história do rock e que teve várias faces.

Aqueles 12 meses traduziram-se numa espécie de “tempestade” perfeita porque toda a gente se esforçou para deixar uma marca vincada nesse particular calendário. No topo da pirâmide estavam aqueles nomes com fôlego para encher estádios e, muito provavelmente, entre os mais representados nas cassetes que os jovens soldados americanos levavam consigo para o Golfo: dos Metallica aos Guns n’ Roses, de Tom Petty a Lenny Kravitz ou dos Red Hot Chili Peppers a Van Halen; por outro lado, os subterrâneos eléctricos também registaram criativos picos de voltagem com gente como os My Bloody Valentine, Pixies, Dinosaur jr., Fugazi, Smashing Pumpkins, Butthole Surfers, Jesus Lizard ou Swans a lançar importantes discos; deste lado do oceano, em Inglaterra, também se revelavam trunfos nas jogadas dos U2, Primal Scream, Blur ou Massive Attack, por exemplo. Cada uma destas cenas merecerá, ao longo deste ano, atenção dedicada numa série de textos em que viajaremos três décadas para trás no tempo.

Mas hoje queremos voltar a olhar para Seattle e para a dinâmica particular do movimento grunge que teve em 1991 um ano-chave. Claro que as origens da cena são anteriores e remontam, pelo menos, à histórica compilação Deep Six (C/Z Records, 1986) que incluía material de bandas como Green River, Soundgarden, Melvins, Malfunkshun, Skin Yard e U-Men. O trabalho levado a cabo pelas diferentes bandas e pela editora principal da cidade, a Sub Pop de Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, deu frutos, atraindo a atenção do dinâmico circuito de rádios universitárias e, obviamente, das grandes editoras em permanente busca de sangue novo. Terá sido aliás por viva recomendação de Kim Gordon, dos Sonic Youth, que David Geffen assinou em 1990 contrato com os Nirvana, banda que tinha já visto Bleach, o seu álbum de estreia, transformar-se num registo de culto que atraiu as atenções da imprensa internacional.

1991 abriria, no entanto, com a estreia de uma outra banda da área numa major: a 29 de Janeiro, os Screaming Trees de Mark Lanegan, banda oriunda da pequena cidade de Ellensburg, a hora e meia de carro de Seattle, lançavam Uncle Anesthesia na Epic. Era já o seu quinto álbum, mas apenas o primeiro editado por um selo da “primeira divisão”, facto que lhes permitiu ter na cadeira de produção não apenas Terry Date (Dream Theater, Pantera, Prong, Deftones...), mas também Chris Cornell, o homem forte dos Soundgarden. Os executivos das grandes editoras perceberam que seria com este tipo de registos que manteriam os seus chorudos bónus de fim-de-ano, já que os astros pareciam alinhados para transformarem este tipo de rock mais “sujo” e abrasivo no som dominante daquela era.

Poucas semanas depois, a 15 de Fevereiro, os Tad de Tad Doyle lançaram na Sub Pop 8-Way Santa, um álbum produzido pelo mesmo Butch Vig que também carimbaria a produção de Nevermind. Esse disco encontrou alguns problemas: a banda foi processada pelo casal cuja foto, encontrada num álbum comprado numa loja de velharias e usada sem permissão, adornava a capa. E a Pepsi não ficou propriamente encantada com o uso do seu logo na capa do single Jack Pepsi. Ainda assim, o tema “Jinx”, primeiro single retirado do álbum, ganharia um lugar na banda sonora de Singles, o filme de 1992 de Cameron Crowe que ajudaria Seattle a ganhar ainda mais destaque no imaginário pop internacional.

Os Temple of the Dog lançaram o seu único álbum a 16 de Abril. O super-grupo foi criado por Chris Cornell como forma de homenagear Andrew Wood, o vocalista dos Malfunkshun e Mother Love Bone, que faleceu em Março de 1990. O grupo criado para dar corpo às canções de Cornell incluía Jeff Ament e Stone Gossard (ambos tinham integrado os Mother Love Bone), Mike McCready e Matt Cameron (baterista de Soundgarden que mais tarde se juntaria também aos Pearl Jam). O então guarda-nocturno numa bomba de gasolina Eddie Vedder também participou nos coros de três das canções. O espírito comunitário que parecia caracterizar a cena de Seattle tinha aí uma clara expressão na forma como todos aqueles músicos se reuniram num estúdio para evocarem o espírito de um dos seus amigos, desaparecido cedo demais.

Em Maio, logo a dia 3, coube a vez aos Melvins de lançarem álbum, o seu terceiro, o que lhes reforçava a justa condição de pioneiros da cena que o mundo começava então a descobrir: tinham começado em 1983 e nos seus concertos era comum estarem muitos dos músicos que mais tarde formariam bandas. Dale Crover, baterista, chegou mesmo a tocar nas maquetes que registaram o material que serviria de base para Bleach, a estreia dos Nirvana. Bullhead saiu na pequena Boner, contou com produção de Jonathan Burnside e sustentou uma longa digressão (a banda fez o seu papel em espalhar o som de Seattle, com quase 100 concertos dados nesse ano, incluindo uma generosa parte na Europa, especialmente em Inglaterra e na Alemanha).

O primeiro grande clássico grunge do ano só foi lançado quando o Verão já ia longo, no final de Julho. Every Good Boy Deserves Fudge, segundo álbum dos Mudhoney, ajudou a salvar a Sub Pop, à época a braços com sérias dificuldades financeiras, despachando 50 mil cópias à saída, marca assinalável para a escala de um selo independente. “Um assalto aural de 43 minutos em tons punk” foi como a Rolling Stone descreveu o disco. Steve Turner, o guitarrista que tinha estado nos Green River, afirmou mais tarde que em 1991 a banda “estava a dar-lhe a todo o gás, mas também a desafiar a imagem que as pessoas tinham de nós. Estávamos em alta na altura. Só que durou pouco”.

De facto, a lotaria que haveria de premiar algumas das bandas de Seattle pode não ter bafejado os Mudhoney, mas haveria de dividir a taluda por três outros grupos que também quiseram reclamar parte do calendário para si.

A 27 de Agosto os Pearl Jam estreavam-se com Ten na mesma Epic que uns meses antes tinha tentado a sorte com os Screaming Trees. Menos de um um mês depois, a 24 de Setembro, seria a vez dos Soundgarden lançarem o seu terceiro álbum, Badmotorfinger, que saiu com selo A&M, e dos Nirvana apresentarem ao mundo através da Geffen o seu Nevermind. Juntos, e apenas nos Estados Unidos, esses três álbuns acumularam vendas de cerca de 26 milhões de cópias, com a parte de leão desse grande bolo a ser arrecadada pelos grupos de Eddie Vedder e Kurt Cobain.

Em comum, esses três discos terão o facto de não terem sido sucessos instantâneos, com a estrada a ter sido crucial para alimentar o desempenho comercial de cada um dos álbuns: os Nirvana fizeram 100 concertos em 1991, a maior parte deles após o lançamento do álbum; os Pearl Jam somaram 108 apresentações no mesmo ano, com 52 datas concentradas nos meses de Outubro e Novembro; os Soundgarden fizeram menos datas nesse ano: “apenas” 27 concertos, mas o grupo tinha arrebanhado 120 datas no ano anterior e preparava-se para um 1992 em grande com mais de 130 concertos na agenda.

Estes três álbuns encabeçam a lista da Rolling Stone dedicada aos 50 melhores álbuns grunge de sempre. Sobre Ten, terceira entrada nessa lista, escreve a revista americana: “Eddie Vedder era um recém-chegado à cena de Seattle e tinha conhecido os restantes membros da banda apenas uns meses antes de gravarem, mas o seu rosnar profundo e as letras altamente pessoais revelaram-se um encaixe perfeita para a música deles que retirava mais inspiração do punk e do rock de arena dos anos 70 do que de qualquer outra coisa da década anterior”.

Badmotorfinger dos Soundgarden de Chris Cornell também fez por conquistar esse estatuto de clássico grunge que lhe valeu um destacado segundo lugar na já referida lista: “Embora o baterista Matt Cameron tenha declarado orgulhosamente ‘não fazemos álbuns pop’ quando o disco saiu, a verdade é que o disco saiu numa altura de profundas mudanças para o rock mais pesado e a banda conseguiu registar um trio de êxitos com “Outshined”, “Jesus Christ Pose” (graças em parte ao facto da MTV ter banido o vídeo) e o ritmicamente invulgar “Rusty Cage”, que mais tarde mereceria uma versão de Johnny Cash”,

No topo da tabela, muito naturalmente, posiciona-se Nevermind dos Nirvana, um daqueles álbuns de infinito impacto geracional que de facto mudou a face da música. O álbum só chegou aos lugares cimeiros das tabelas de vendas cerca de seis meses após a sua edição, mas quando estourou, estourou a sério, chegando a vender 300 mil cópias por semana. Sozinho somou mais de 11 milhões nas vendas nos Estados Unidos, 30 milhões em todo o mundo! Uma marca astronómica que chega para o afirmar como um dos mais vitais documentos da história do rock, responsável por ter convertido milhares de adolescentes em todo o mundo a essa universal linguagem eléctrica.

Escreveu a Rolling Stone, a propósito de Nevermind, quando o disco foi apontado como o melhor álbum de grunge de sempre: ““Durante alguns anos em Seattle viveu-se um Verão do Amor e foi incrivel”, disse Cobain. “Ser capaz de saltar para cima da multidão com a minha guitarra e ser apoiado e ser levado até ao fundo da sala e depois trazido de volta ao palco sem ser magoado – era uma celebração de algo que ninguém conseguia exactamente definir. Mas assim que chegou ao mainstream, tudo acabou.” Alguns meses da edição de Nevermind, Ten dos Pearl Jam subiria ao segundo lugar das tabelas, Dirt dos Alice in Chains furaria o Top 10 e Badmotorfinger dos Soundgarden tornar-se-ia Disco de Ouro. Esse álbum inaugurou uma nova era para uma geração de fãs de música que estavam cansados dos excessos do rock. Quer eles tenham ficado agradados com a distinção quer não, a verdade é que os Nirvana mudaram a música para sempre”.

30 anos depois, continua a não ser possível disputar essa afirmação.