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101 canções que marcaram Portugal #51: 'O Vento Mudou', por Eduardo Nascimento (1967)

É uma canção melódica, escrita por quem sabe do ofício. Eduardo Nascimento soube todavia agigantá-la. Deu-lhe pujança. Estarreceu Portugal com aquele ‘Oiçam’. Portugal tem sabido preservar o seu legado. A música, essa, ventilou a nossa história com o melhor que soubemos produzir. Esta é a 51ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'O Vento Mudou'
Eduardo Nascimento
(1967)

Naqueles anos de 1991 e 1992, no seguimento dos acordos de Bicesse, Jonas Savimbi pôde assentar em Luanda, numa moradia colonial, no bairro mais bonito da capital de Angola – o bairro Miramar. Do Miramar soslaia-se sobretudo a baía de Luanda e em frente da moradia de Jonas Savimbi, emprestada pelo governo como voto de boas intenções, estava o Cine-Miramar, um cinema ao ar livre rodeado de esplanadas onde se assentava convívio.

Nesse bairro nasceu e cresceu Eduardo Nascimento. Ainda garoto, empoleirava-se no ramo mais alto de um embondeiro, de onde conseguia mirar os filmes com Charlton Heston, John Wayne ou Brigitte Bardot. Faziam-no sonhar com aventuras que não vivera ainda ou com um glamour com que haveria de se enfadar. Anos mais tarde, em 1969, haveriam de ser essas memórias que o fariam volver a Luanda, com saudades das tardes tropicais. No cume do sucesso por todo o Portugal ultramarino, Eduardo Nascimento regressava inesperadamente à sua terra, ao bairro Miramar, do qual tinha saído sem muito labor e ao qual voltava sem olhar para trás.

Eduardo Nascimento era vocalista dos Rocks, ‘a’ banda de Luanda, do Portugal multirracial. Os Rocks animavam matinés e soirées. Eram um grande conjunto, feito de músicos treinados por muitos anos de amadorismo e ouvido treinado. Tocavam originais, mas também clássicos de época, sobretudo de R&B e Jazz. Demitiam-se do folclore tradicional; enjeitavam colar-se aos N’gola Ritmos, de Liceu Vieira Dias, referência da música angolana de então. Os Rocks davam nas vistas pelo seu repertório, pela sua consistência e sobretudo pela voz e figura possante de Eduardo Nascimento. Pertenciam a uma nouvelle vague nascida em Angola mas com aspirações na Europa – mas não queriam ser pastiches do Duo Ouro Negro.

Tocavam rock da pesada e não espantou que tivessem ganho o concurso Yé-yé em Luanda. Representaram assim Angola no grande concurso em Lisboa, no Teatro Monumental, e o seu segundo lugar (denegado pelo público) foi tónico para que Vasco Morgado, o grande empresário do teatro, os contratasse para a sua boate – último lanço da noite para boémios, loucos e colunáveis: o Porão da Nau. Certa noite, no Porão da Nau, Nuno Nazareth Fernandes e João Magalhães Pereira convidaram Eduardo Nascimento para representarem a sua canção no festival RTP desse ano – sem os Rocks, ele que se acostumara ao amparo dos seus parceiros. Aceitou, ainda assim, mesmo a só. E começou a escrever aí com tinta permanente o seu cunho na música feita em Portugal. Aceitou porque ‘O Vento Mudou’ era uma grande canção. Porque se sabia maior para a cantar. E sobretudo porque sabia que iria vencer – que nada fazia para o seu inverso, que a firmeza não deverá andar de braço dado com a sobranceria.

Lá entrou Eduardo Nascimento. Excelente porte. Seguro. Popa engomada. Divertindo-se. Olhando apenas para a câmara – como se só ela ali estivesse. Como se todos os portugueses com acesso à televisão não o estivessem a fixar. A canção ajudava: era uma grande canção, melódica, escrita por quem sabe do ofício. E Eduardo Nascimento fez o que o seu talento ditava: fez arrepiar Portugal. Cresceu na canção até quase ao final – para nos estarrecer com a repetição daquele ‘oiçam’ com a mesma naturalidade com que sussurrava ‘Mbiri-mbiri’ ou com que bravejava ‘I put a spell on you’. Poderia ter sido um festival em nome só – tão possantes eram a canção e Eduardo Nascimento. Venceu destacado os seus conterrâneos Duo Ouro Negro e abalou para Viena.

Em Viena, ofereceram um banquete dançante aos representantes de cada país na Eurovisão. Uma rapariga tímida e agitada rejeitou dançar com quem lhe pedia a mão. Abriu todavia uma exceção para Eduardo Nascimento. A sua noite, a deles, foi intervalada entre os passos de dança e a prosa amena. Dois dias depois, apresentou-se no palco principal descalça, imperturbada e alegre. Chamava-se Sandy Shaw, venceu com ‘Puppet on a string’ e passou a universalizar-se.

Num festival ganho por uma concorrente descalça, o único receio de Eduardo Nascimento era paradoxalmente a sua fobia por sapatos novos – que fora obrigado a usar. Enquanto jovem, pedia ao pai que calçasse os seus sapatos para os folgar. Sonhava que naquela noite do festival se estatelaria ao descer as escadas do palco do Palácio Imperial de Hofburg. Ao seu lado, mas em Angola, estavam os seus, presos ao televisor ou à rádio, alentando o seu filho agora distante.

Não por isso, mas porque o palco que estava agora a seguir era apenas uma vereda no seu percurso, regressou a Luanda pouco depois. Começaria aí outra carreira – na aviação – e a independência do seu país, a 11 de Novembro de 1975, viveu-a no aeroporto, extenuado, depois de literalmente ter mandado parar a guerra na capital para o avião que transportava convidados oficiais pudesse aterrar.

Fez coisas bonitas, Eduardo Nascimento. Viveu a música com uma entrega descomedida – mais do que ter vivido obstinadamente para a música. Nas décadas que se seguiram ao seu regresso, distendeu amizades e selou com doçura e aristocracia o seu percurso. Nunca se engajou como representante de uma minoria – como quiseram fazer dele. Foi tão só um nosso prodígio na música – que Portugal tem sabido preservar.

Nuvens tenham dó
Que eu estou tão só
Batam-lhe à janela
Chorem sobre ela

Ouvir também: ‘O vento mudou’ (1995), pelos Da Vinci. Das muitas versões que se fizeram, esta é talvez a que melhor desconstrói a canção original.

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