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Iron Maiden em 1981

Getty Images

Há 40 anos, o monstro ‘Eddie’ ficava mais metálico mas os Iron Maiden estavam numa encruzilhada. Viagem a “Killers”, o fim de uma era

Foi o último álbum com Paul Di’Anno, o vocalista mais-punk-do-que-metal que segurava o microfone da banda inglesa desde a sua fundação. “Killers”, em 1981, foi o disco da afirmação metálica do grupo do monstro ‘Eddie’, mas uns certos Iron Maiden despediam-se aí, com Bruce Dickinson e um novo fôlego a chegarem poucos meses depois. 40 anos depois, o que vemos no espelho retrovisor?

O arranque de carreira dos Iron Maiden foi atribulado. A banda explorava um novo tipo de som, uma nova atitude, construía igualmente um novo tipo de público numa era em que a cena musical vivia dias particularmente agitados, com muitas frentes no combate pelos lugares cimeiros dos tops – os monstros do rock dominavam, com David Bowie, Deep Purple, Queen, Paul McCartney ou Rolling Stones todos a passearem-se pelo primeiro lugar do top de vendas britânico em 1980, mas também havia sinais claros de novos ventos, com o peso dos AC/DC ou as mais inovadoras propostas new wave de bandas como os Police e The Pretenders e ainda a pop despida de guitarras de Gary Numan a lograrem igualmente experimentar a vista lá do topo.

Foi nessa “cena” que os Iron Maiden causaram imediato impacto, com o homónimo álbum de estreia, lançado em meados de abril de 1980, a conseguir furar o Top 5 britânico cavalgando a nova onda do heavy metal britânico. Foram dias agitados, esses, com mais de 150 concertos em apenas 11 meses, o que dá bem conta da ferocidade com que o grupo – que na altura incluía Steve Harris, Dave Murray, Clive Burr, Dennis Stratton e ainda, como vocalista, Paul Di’Anno – procurava impor-se na muito povoada arena rock. Foi em 1980 que os Iron Maiden se estrearam no palco de um grande festival, com uma memorável performance em Reading, perante 40 mil pessoas. “Nunca tínhamos tocado para tanta gente”, escreve Steve Harris em Run To The Hills. “Quando o nosso técnico de luzes, Dave Lights, virou os focos para a audiência pudemos ver gente até onde a vista alcançava. Quando tocávamos nos pubs dava para ver o branco nos olhos das pessoas e isso até pode assustar quem não esteja habituado. Mas tocar para 40 mil pessoas... Quando as luzes se acenderam e pudemos ver toda aquela gente, senti mesmo um arrepio”.

Esse arrepio significava também que a banda sentia não ter tempo a perder. Após uma série de concertos a abrirem para os Kiss na parte europeia da sua Unmasked Tour, Harris e restantes companheiros despediram o guitarrista Dennis Stratton, apontando a mais recorrente justificação das “diferenças criativas”, trazendo para bordo Adrian Smith, que tinha estado nos Urchin, banda em que Murray também tocou por um breve período. Juntos, Murray e Smith, amigos de infância, seriam responsáveis por criarem a identidade guitarrística que suporta o som dos Maiden até aos dias de hoje.

A substituição de Stratton prenunciou também outro tipo de tensões dentro do grupo, que navegou águas muito próximas do punk no início da sua carreira, com Paul Di’Anno a ser aliás referenciado como estando bastante mais próximo senão dessa estética – a sua voz gutural carregava algo desse espírito – pelo menos do estilo de vida, revelando ser o mais desbragado dos membros do grupo, consumindo doses generosas de drogas (sobretudo as muito punk anfetaminas) e álcool, hábitos que afectavam seriamente a sua voz e o seu desempenho em palco. À Kerrang, Paul admitiu que teve problemas em lidar com a pressão: “Eu era um miúdo, com apenas 22 anos, e nós estávamos a encabeçar a nossa própria digressão e eu não sabia lidar com isso. Claro que andava a meter speed e essas coisas, para conseguir manter o ritmo, e isso só piorava as coisas. Ficava acordado durante dias, mas sentia-me mesmo mal. E havia noites em que achava que não iria sobreviver”.

Mas Harris e Murray tinham uma visão e sabiam muito bem que caminho seguir. Uma das primeiras decisões foi em relação ao som: a banda pretendia refinar o que na estreia tinha passado por estética underground e para elevar a fasquia recrutou Martin Birch, um veterano que em 1981 tinha já sérios pergaminhos por ter assumido responsabilidades de produção em álbuns dos Fleetwood Mac, Deep Purple, Wishbone Ash, Rainbow, Whitesnake, Black Sabbath e Blue Oyster Cult, o que lhe conferia autoridade para domar o mais pesado som eléctrico das guitarras. A aposta provou estar certa porque Martin Birch encetou no segundo álbum dos Maiden, o clássico Killers, uma longa relação que durou até Fear of The Dark, trabalho já de 1992.

Os filhos pródigos

O álbum foi registado em sessões no estúdio de Londres Battery, entre Novembro e Janeiro, com a banda bem oleada graças à recente digressão. A estrada, diga-se aliás, foi fundamental para que o grupo construísse a alargada base de fãs que ainda hoje sustenta o elevado estatuto de que goza: os Iron Maiden nunca mais voltariam a fazer tantos concertos anuais (embora, certamente, tenham tocado para muito mais gente), quanto no triénio de 1980, 1981 e 1982 em que fizeram muito perto de 500 espectáculos (!!!). Essa energia foi, muito naturalmente, captada pelos microfones de Birch, num conjunto de peças maioritariamente carimbado por Steve Harris e de onde saíram clássicos como o instrumental “The Ides of March”, “Wrathchild”, “Prodigal Son” ou “Purgatory”, tema que foi editado em single em Junho de 1981. O single, no entanto, não furou o Top 50 britânico, o que se compreende porque o incluía apenas material já disponível no LP (o lado B, “Genghis Khan”, era o segundo instrumental do alinhamento) e um artwork não tão incrível quanto o que adornava a capa de Killers.

Mais cabelo, Eddie

Derek Riggs é o artista plástico responsável por ter criado a icónica figura de Eddie. Com uma estética inicial mais punk (supostamente as versões originais da figura foram pensadas para potenciais posters de concertos de punk rock), Eddie terá sido repensado com mais cabelo a pedido do management dos Iron Maiden e acabou na capa do álbum de estreia do grupo, num plano aproximado, tendo por trás um muro e um candeeiro que revelava a sua figura, meio zombie. A estética foi aprimorada para Killers, com a cabeleira mais domada de acordo com o livro de estilo do metal, o mesmo cenário urbano e nocturno por trás, mas uma maior presença física, com a sua postura ameaçadora de machado na mão já tinto de sangue, presumivelmente pertencente à figura fora de campo de que só se vislumbravam os braços agarrados à t-shirt do ser “monstruoso”.

A capa de “Killers” (1981), dos Iron Maiden

A capa de “Killers” (1981), dos Iron Maiden

A ilustração que viria a ser escolhida para a capa do álbum de 1982, The Number of the Beast, foi originalmente proposta por Riggs para o tal single de “Purgatory”, mas os músicos acharam-na tão boa que preferiram reservá-la para o trabalho seguinte, conscientes que já estavam da importância dessa particular estética para a imagem total da sua banda. Esses cuidados podem ter sido considerados “excessivos” vindos de um colectivo que era suposto representar um genuíno movimento underground e Killers acabou por ser recebido com algumas reservas por parte da crítica. A Sounds, que foi das primeiras publicações a oferecer generosa atenção aos Maiden, deu apenas uma estrela na sua crítica ao trabalho: “mais um falhanço do que um triunfo”, sentenciou-se aí.

Rumo à besta

De facto, mesmo hoje, não é um trabalho que a posteridade tenha elevado aos píncaros. Na sua lista de 100 melhores álbuns de metal de sempre, a Rolling Stone encontra lugar no seu Top 5 para The Number of the Beast (#4) e posiciona o trabalho de estreia, Iron Maiden, um pouco mais abaixo (#12) (e há mais uma entrada do grupo de Steve Harris no Top 100, para o álbum Powerslave, que merece o #34 da lista). O site Album of The Year na lista que agrega votações dos seus utilizadores para os melhores álbuns de heavy metal, atribui a segunda posição a The Number of The Beast, logo abaixo de Paranoid dos Black Sabbath, e é ainda generoso para com trabalhos como Powerslave, Seventh Son of a Seventh Son, Piece of Mind, Somewhere in Time e Iron Maiden, mas não consegue melhor do que um 30º lugar para Killers, a sétima entrada de títulos da discografia dos Iron Maiden naquela lista. Poderá por isso pensar-se que também está longe de ser o álbum mais apreciado pelos fãs.

A verdade é que se tratou do último disco com participação de Paul Di’Anno que não aguentou a carregada agenda de concertos, com a voz a falhar em alguns momentos decisivos, o que não foi obviamente aceite pela banda que não demorou a procurar quem o substituísse: Bruce Dickinson assumiria o microfone a partir de The Number of The Beast, cristalizando aí aquele que é tido como o som clássico da banda. Di’Anno, por outro lado, representa a fase em que o grupo procurava, por um lado, distanciar-se do punk a que podem ter sido inicial e pontualmente associados, e por outro emergir do underground como uma força capaz de aguentar a escala dos estádios e dos grandes festivais, algo para que o vocalista original do grupo não estava, decididamente, equipado: “Não é segredo nenhum que na digressão que se seguiu ao Killers eu estava fora de controlo”, confessou o antigo vocalista do grupo do monstro Eddie à Kerrang. “E nem era apenas por eu andar a cheirar um pouco de cocaína – eu andava a dar o máximo 24 horas por dia porque achava que era o que era suposto fazer-se quando se está numa grande e muito bem-sucedida banda de rock”.

Talvez fosse. Mas o que os Iron Maiden deixaram claro, desde o primeiro momento, foi que sempre tiveram um grande desejo de futuro, não cedendo, no entanto, um milímetro que fosse na sua visão e na sua estética. Esse nervo que já se pressentia em Killers trouxe-os, aliás, até aos dias de hoje. Este ano, se o mundo não trouxer mais surpresas, estão apontados para encabeçarem, a 24 de Setembro, a primeira noite do festival Rock In Rio: “Enquanto nos quiserem a nós e ao Eddie”, declarou Bruce Dickinson em dezembro passado, “vamos continuar”.