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Táxi em 1981

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101 canções que marcaram Portugal #50: 'Chiclete', pelos Táxi (1981)

Foram a primeira banda rock portuguesa a alcançar um duplo disco de ouro. Ajudaram a construir o movimento herdeiro do pós-punk que avassalou Portugal. Vinham do sofisticado Porto e com ‘Chiclete’ passaram a ser aclamados em todo o país. Com Rui Veloso e os UHF, constituíam a tríade perfeita. Esta é a 50ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Chiclete'
Táxi
(1981)

Maio de 1981. Dramático de Cascais. Pavilhão à pinha. Uns ainda pouco ilustres Táxi iriam fazer a primeira parte dos Clash. Tinham gravado recentemente um disco pela Polygram e eram ainda caloiros em grandes andanças. O seu produtor, António Pinho, visionário e arguto, conseguira que aquela sua banda (cria que fossem um dos fenómenos do rock que ajudara a nascer) fosse coprotagonista de um evento maior naquele ano. À cautela, oferecera ao técnico de som dos Clash uma garrafa de vinho do Porto – para acicatar o seu esmero. Em cima do palco, os Táxi confirmaram que a música não se faz apenas de acordes, talento e inspiração; o som dos Táxi foi, naquela noite, o som dos Clash. Rouco e potente. Sublime. O público, para espanto da banda do Porto, entoou eufórico ‘Chiclete’, ‘T.V.W.C.’ ou ‘Vida de cão’, que estavam ainda em fase de tirocínio nas rádios. Foi o impulso de que os Táxi precisaram para se convencerem de que estavam no trilho certo – e que esse trilho se faria em simetria com o público, só se poderia fazer, de resto, em simetria com o público.

Aproveitaram o álbum seminal de Rui Veloso para mostrar o seu engenho e substância. Seriam, com os UHF, os representantes maiores daquele movimento. Esse cosmo new-wave foi também feito de rivalidades – sobretudo entre bandas que se respeitavam e demasiado próximas, mesmo não o assumindo. Rui Veloso mantinha-se à parte desta peleja – por ser astro em nome próprio e porque nada tinha a reclamar no rock que criara com Carlos Tê. Tanto os Táxi com o os UHF eram bandas de primeira água do que se convencionou chamar de rock português – movimento circunscrito a dois anos que, por tão absorventes, hipotecou durante muitos mais aquilo que se iria criar nos anos seguintes. Rui Veloso-UHF-Táxi: a tríade do alvoroço que assolapou Portugal nesses anos breves.

Houve um tempo em que os Táxi e os UHF não se falavam nem sequer se cumprimentavam. Mas em viagem, pelos caminhos tortuosos e longos de Portugal, ainda sem o dinheiro da C.E.E. que bancasse autoestradas, ambas as bandas ouviam os álbuns umas das outras. A fliparem com um som novo que sabiam de cor.

Os Táxi eram do Porto. Do Porto sofisticado. Do Porto com pouco mais que fazer do que fazer bem. Em Lisboa as distrações eram maiores; no Porto convencional, os jovens músicos passaram a sua pós-puberdade na Clave, na Vedeca e na Arnaldo e Trindade, as lojas de discos de referência, a seduzir os DJ’s para os deixarem estacionar mais tempo nas cabines de som insonorizadas a absorver os LP’s que não podiam comprar. Quando detonaram nas rádios, os Táxi levavam por isso avanço em expertise musical; o seu talento e a propensão do público para aquele som pouco açucarado encarregou-se do resto.

Como a maioria das bandas desse período, os Táxi tinham repulsa em cantar em português, acostumados a ouvir e a reproduzir Genesis, Stones ou mesmo Ramones. Foi António Pinho, quem mais?, que exigiu aos Táxi cantarem na sua língua, antevendo a história que se contaria. Refizeram letras, adaptaram fonemas e métricas – para criar um som com estamina e comercialmente atrativo. Na ‘Febre de Sábado de Manhã’, de Júlio Isidro, apresentaram ‘Chiclete’ e o público ao vivo no Nimas ou de ouvido colado à ‘Comercial’ trepidou com aquela canção – que iria ser a sua cédula.

‘Chiclete’ desarreigou-os da periferia; passaram a ser reconhecidos e aclamados no país inteiro, num ápice (que o tempo do rock em Portugal corria, sem o saberem, apressado). É uma canção enérgica. Bem escrita. Bem cantada. Que se esgueira dos lugares-comuns. Que faz parte, ainda hoje, do alinhamento de qualquer farra revivalista. Que absorveu ritmos do ska para se subverter numa grande canção rock. Sincopada e vibrante.

O álbum “Táxi” foi aliás o primeiro disco de ouro (duplamente, já agora) do rock português. Vendeu 60.000 cópias – num tempo em que as rádios, veículo crucial na promoção e divulgação musical, reproduziam com frequência todo o álbum e não só a canção que se esperava ouvir.

Poderá dizer-se que estavam apenas no lugar certo e no momento certo. Os Táxi estavam, isso sim, no tempo certo. E esse tempo, ao ser recordado, fará bem mais sentido com ‘Chiclete’ como canção de fundo. Com os decibéis desenfreados.

P’ra que tudo continue sem parar
Fundamental levar a vida a dançar
Nesta vida que tanto promete, chiclete

Ouvir também: ‘A Queda dos Anjos’ (1981), do mesmo álbum. Acerca da desvirgindade de um grupo de adolescentes no bordel da Dona Rosete.

  • 101 canções que marcaram Portugal #49: ‘Latin'América’, pelos Jafumega

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    Notícias

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  • 101 canções que marcaram Portugal #45: 'Hiroxima (Meu Amor)', pelos Da Vinci (1982)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #44: 'Dançam no Huambo', pelos Kussondulola (1995)

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    Foi em 1995 que se editou o primeiro álbum de reggae em Portugal. Os Kussondulola falavam sobretudo da guerra que se vivia em Angola, mas as suas letras continham mensagens políticas, sociais, ecológicas e religiosas, enquadradas num depurado rigor musical. Esta é a 44ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #43: 'És Cruel', pelos Ena Pá 2000 (1991)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #42: 'Irreal Social', pelos Ban (1988)

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