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101 canções que marcaram Portugal #49: ‘Latin'América’, pelos Jafumega

Carlos Tê escreveu algumas das canções mais marcantes do rock português. Os Jafumega, banda nascida da simbiose entre vários músicos, tendências e liberdades musicais, encomendaram-lhe a sua cédula comercial. Escreveu ‘Latin’América’, o hino da banda do Porto, identificável até hoje pelo riff inicial. Uma canção radiante e vigorosa, a 49ª de 101 que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

‘Latin'América’
Jafumega
(1982)

A que festival gostaria de ter assistido em Portugal? Talvez a resposta mais consensual seja Vilar de Mouros 1982. Vilar de Mouros corria riscos – porque não correr riscos custaria uma quantia que pouco havia. Mas os riscos que corria eram prefiguradores da música mais elegante que se iria ouvir dali a pouco em formato mainstream. O festival Vilar de Mouros 1982 teve um cartaz tão híbrido quanto Travadinha, A Certain Ratio ou Charlie Haden (este último acostumado ao inusitado em Portugal, depois de ter sido detido por ter saudado, em 1971, durante o primeiro Cascais Jazz, os movimentos de libertação das colónias portuguesas).

Os cabeças de cartaz desse Vilar de Mouros eram porém os Stranglers, os U2 e os Echo & the Bunnymen. Os U2 já se afirmavam como banda de culto mas ainda longe das digressões aparatosas; eram ainda músicos descomplicados – para quem a música era não mais do que isso, música, e tinham ânimo para ouvir bandas periféricas do circuito em que (já) se moviam. Antes deles tocaria uma banda do Porto, uma banda rock nacional composta de exímios instrumentistas e muito background musical. Os Jafumega chamavam a atenção e chamaram a atenção da banda que iria incendiar o Live Aid dali a poucos anos. Clandestinos atrás do palco, os U2 viram o concerto inteirinho dos Jafumega; para quem viu o concerto na íntegra, deverão ter ficado impressionados com a performance elétrica de Luís Portugal e do prodigioso som do seu ‘line-up’.

Mário Barreiros, um dos Jafumega, há muito que parecia antever a notável carreira que iria trilhar. Integrara algumas bandas – os MiniPop, com apenas 10 anos, fizeram mesmo parte do cartaz do primeiro Vilar de Mouros – e depois do 25 de Abril, época em que o país deixara de estar cercado de arame farpado, descobriu o jazz. O jazz agregou os Jafumega, banda de simbiose entre vários músicos, tendências e liberdades musicais. Tinham todavia um fio condutor: o da elegância. Agregavam esmero nas suas composições e tiveram o engenho de se tomarem como uns dos que fizeram o rock em Portugal, no seu fulgor. Não eram contudo um fogacho; apenas estavam neste fluxo de passagem. Eram já músicos maduros e o rock era apenas mais um dos seus semblantes.

Carlos Tê fora o criador da música que desbravou o rock em Portugal, ‘Chico Fininho’. As referências até aí eram importadas e soavam artificiais. Num país ainda avassalado pelo analfabetismo, entender o que aquelas canções queriam dizer foi o móbil para a eclosão daquela new-wave. Homem do Porto, como os Jafumega, descobriu que se podia assinar o rock com vogais fechadas e consoantes fortes. Os Jafumega encomendaram assim a sua cédula comercial a Carlos Tê, compositor culto, atento aos fenómenos sociais e às agruras do mundo, com letras que traziam a valia de serem já, por si, musicais. E escreveu ‘Latin’América’, o hino da banda do Porto, identificável até hoje pelo riff inicial. A voz de Luís Portugal, entre o enérgico e o falsete, é o vértice da sublimidade desta composição. Tudo se agregou para criar uma canção radiante e vigorosa. A atiçar os rabos a se desalapar. O álbum tinha outras grandes canções, mas foi ‘Latin’América’ que atravessou o rock português e lhe subsistiu.

No ano anterior, já ‘Ribeira’, lado B de um single, pusera Portugal a trautear ‘a ponte é uma passagem para a outra margem’, qualquer que fosse a ponte que se atravessasse. ‘Ribeira’ funcionaria como o prelúdio de uma história que se contaria dali a pouco. Permitiu-lhes dar concertos, viver como músicos, obter cash-flow e aspirações. Afirmaram-se como uma banda comercial sem o terem desejado ser. Dissolveram-se, na verdade, devido a esse mesmo mediatismo: após o lançamento do último álbum, em 1983, as editoras começaram a sondar novas tendências. Os Jafumega não tinham na algibeira outra ‘Latin’América’ e os seus elementos tinham outros planos – num trilho que aglutinasse a música tradicional, o Portugal real e as inflexões do jazz. Não quiseram ceder à nova ambiência musical opaca e saíram como entraram: com elegância.

Fazia sentido regressarem um dia. Pela consistência do que tinham produzido. Pelo muito que eram ainda recordados e festejados. E regressaram. Em 2013. Para os coliseus. Reescrevendo uma prosa já lida a que não cansa volver. Foram um dos protagonistas dessa história maior do rock, maior por tão breve ter sido. Deles nunca teremos saudades; nunca se revive quem haverá de estar sempre presente.

Na pala das ditaduras
Continente gritador
Rebenta pelas costuras
A morte, o medo e o terror

Ouvir também: ‘Nó cego’ (1982), do mesmo álbum.

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