Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Phil Spector

Getty Images

Génio, louco, assassino. Phil Spector, o criador da mais inocente pop, em 10 enormes canções

Criou eternas sinfonias pop, acumulou histórias de violência, acabou condenado pelo assassínio de uma mulher, morreu encarcerado. Ascensão e queda de uma lenda da música. E o que de melhor fica: 10 obras-primas feitas no único sítio onde Spector foi gigante, dentro das quatro paredes de um estúdio

Neto de emigrantes russos, Spector nasceu a 26 de Dezembro de 1939 numa família de judeus do Bronx. O pai do futuro produtor suicidou-se quando este contava apenas 10 anos e seguiram-se anos de sofrimento na escola, onde a sua frágil figura o colocava em permanente desvantagem perante as outras crianças. A música, descoberta na adolescência, acabou por ser o refúgio de Spector. O seu primeiro grupo levou o nome de Teddy Bears, veículo para uma das primeiras criações de Spector, “To Know Him is To Love Him”, título inspirado nas palavras gravadas na campa do pai. O single, gravado para a Era Records, chegou a número 1 da Billboard em 1958 e vendeu mais de um milhão de cópias, deixando claro que Phil Spector desde cedo sabia o que estava a fazer.

Com o arranque dos anos 60, Phil Spector descobriu a produção, o papel perfeito para quem tinha demasiados problemas com a sua aparência física e sobretudo para alguém fascinado com o drama da vida: para Spector, o estúdio passou muito rapidamente a ser um palco onde encenava as pequenas peças que pareciam existir dentro das suas canções. Depois de ter aprendido com os mestres Lieber & Stoller, Spector revelou ambição ao estabelecer a Philles Records. “Phil Spector, 23 anos, o magnata do rock and roll, produtor da Philles Records”. Era assim que Tom Wolfe o apresentava no notório artigo “The First Tycoon of Teen”, publicado originalmente em 1965 e incluído na abertura do livro que acompanhava o fundamental box set Back To Mono (quatro cds recheados com as melhores produções da primeira década de actividade de Spector).

Para o autor de A Fogueira das Vaidades, Spector incorporava o próprio espírito da América: inexcedível num ofício – a música – e na arte de vender o produto desse ofício. Spector não se limitava a criar hits atrás de hits, era um empreendedor no verdadeiro sentido da palavra, com um olho devastador para o negócio: ferozmente independente, o homem do leme da Philles Records recrutava os maiores talentos para trabalharem com ele – como o arranjador Jack Nitzsche – e tratava ele mesmo da prensagem e distribuição dos discos, faturando literalmente milhões. A indústria contra-atacou e Spector descobriu depressa que a sua última grande aposta – a dupla Ike & Tina Turner, que “roubou” à etiqueta de Ray Charles – não conseguiu impor o enorme investimento que River Deep Mountain High tinha significado – as críticas foram severas, os djs de rádio olharam para o lado e o enorme ego de Spector não aguentou. Em 1966, Phil Spector resolveu retirar-se do negócio.

O regresso à atividade de Phil Spector ocorreu da melhor maneira, a convite de John Lennon, com quem tinha trabalhado no single “Instant Karma”. Insatisfeitos com as sessões de Get Back, os Beatles forneceram as fitas registadas em 69 a Spector que as misturou – usando as técnicas por si desenvolvidas na década anterior durante o seu período dourado – resultando o seu trabalho final em Let it Be, o derradeiro lançamento dos Fab Four, que chegou às lojas já depois de anunciada a sua separação.

Em 1974 Phil Spector sofreu um acidente quase fatal, sendo projetado através do pára-brisas do seu carro. Mais de 300 pontos na cara e cerca de 400 na parte de trás da cabeça foram o resultado desse acidente, o que conduziu a uma maior reclusão e, dizem algumas fontes próximas, às incríveis cabeleiras postiças com que era visto em público em anos mais recentes, incluindo no seu ultra mediatizado julgamento. Neste período o seu comportamento foi-se tornando mais errático: no final dos anos 70, terá ameaçado Leonard Cohen, com quem trabalhou em Death of a Ladies Man, com uma besta, a arma que dispara flechas a alta velocidade. Spector também trabalhou com os Ramones em End of a Century, o álbum de 1980, em sessões muito atribuladas que envolveram raptos, comportamento obsessivo de Phil e a imposição de argumentos através da exibição ameaçadora de armas de fogo.

Convencido da sua inferioridade física, Phil Spector passou aliás a não dispensar as pistolas, “adereço” que passou a constar de todos os seus dramas, sobretudo com mulheres que obrigava a jogar à roleta russa. Lana Clarkson foi a vítima dessa crescente loucura e um passaporte de Spector para o grau máximo da reclusão: aquele que não se pode interromper por vontade própria. No final de “The First Tycoon of Teen”, Wolfe escrevia que Spector “fecha os olhos e prende a respiração. E enquanto ele prender a respiração, a chuva não cairá (…) e o mundo será perfeito”.

Muitas das suas histórias de violência, sobretudo para com mulheres, como Ronnie Spector, a cantora com quem casou em 1968 e que manteve em reclusão usando severa intimidação psicológica e física, foram reportadas ao longo dos anos, mas quase sempre minimizadas face ao seu “excêntrico génio”. Darlene Love, uma das cantoras com quem Spector gravou, apesar de ter sido ela mesma uma vítima da sua personalidade ultra-controladora, não deixou de expressar pesar à Rolling Stone quando a morte do antigo produtor foi oficialmente comunicada pelo Departamento de Prisões.

Condenado em 2003 pela violenta morte da atriz Lana Clarkson, Phil Spector desapareceu do mundo da música sem qualquer glória, deixando para trás uma vida plena de tragédia que é um dos símbolos do tóxico poder masculino que tem sido exposto e combatido nos últimos anos por movimentos como o #MeToo. A música que deixou, no entanto, retém a aura de um tempo em que a pop sabia ainda cantar a inocência.

The Teddy Bears – To Know Him Is To Love You

1958, quando a América começava a dar espaço para que os adolescents expressassem os seus próprios sentimentos.

The Crystals – He’s a Rebel

1963, com Darlene Love a assumer em estúdio o que mais tarde seria atribuído às Crystals e o início do som que haveria de ser uma vincada influência para artistas como Amy Winehouse.

The Ronettes – Be My Baby

1963, a canção que inúmeras publicações apontam como sendo uma das melhores que a década dos Beatles produziu e que abre com uma marcação de bateria que foi copiada por toda a gente, dos Jesus and Mary Chain a Taylor Swift.

Ike & Tina Turner – River Deep – Mountain High

1966, mais uma absoluta obra-prima pop e o tema que o próprio Phil Spector afirmava ser a sua melhor criação. Ainda assim não obteve o sucesso que se esperava, levando o produtor a retirar-se temporariamente da música.

The Beatles – Let It Be

1970: desmoronavam-se os Beatles e a inocência da década de 60 e Phil Spector apanhava os pedaços, acrescentando overdubs em estúdio mais tarde renegados por Paul McCartney que não apreciou os retoques do produtor americano.

George Harrison – All Things Must Pass

1970: o som “barroco” que o rock and roll era também capaz de alcançar, comandado, uma vez mais, por Phil Spector que esteve, no entanto, presente de forma intermitente nas sessões. Sobre o tema título, o produtor escreveu a Harrison: “Esta canção é tão boa que qualquer interpretação honesta da tua parte por mim será aceitável”.

John Lennon – To Know Her is to Love Her

Gravada em 1973, esta versão do primeiro êxito de Phil Spector ficou de fora do alinhamento final do álbum de 1975 que o ex-Beatle lançou. E foram sessões lendariamente agitadas, com Spector a aparecer um dos dias em estúdio vestido de cirurgião e de arma na mão. Esta versão foi incluída na reedição de Rock ‘n’ Roll de 1986. Amy Winehouse também gravou a sua própria versão.

Leonard Cohen – Death of a Ladies Man

1977: “É difícil ignorar um revólver de calibre 45 pousado em cima da mesa de mistura”, explicou Cohen em 2001 à Mojo. De acordo com o também já desaparecido cantor, foram sessões perigosas, com armas e muito álcool ao barulho.

Ramones – Baby, I Love You

Era nítido desde o início que o som dos girl groups que Spector produziu na década de 60 foi influência determinante na distinta fórmula punk dos Ramones. E por isso nem terá sido grande surpresa que produtor e banda tenham trabalhado juntos em End of the Century, de 1980. E esta versão foi, certamente, o completar de um círculo.

Yoko Ono – No, No, No

Gravado em 1981, este álbum inclui a faixa “No, No, No” em que Yoko Ono aborda a traumática questão do assassinato do seu marido, um ano antes. O tema abre com o ruído de disparos e é um pedaço de avançada arte pop.