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Há um Portugal pop secreto que agora se revela. Uma história desvendada por 2 irlandeses curiosos e o DJ de uma rádio local

Não é música apenas esquecida; é quase secreta. A lenda é esta: dois irlandeses encontraram o arquivo do “senhor Dionísio”, DJ de uma rádio local da zona de Aveiro, e o espanto foi enorme. Ao passado resgataram obscuras investidas musicais de gente como Herman José, José Cid, Paulo de Carvalho ou Né Ladeiras, mas também ilustres desconhecidos como Spunky, David Ferreira ou Guarda Branca. Os anos 70 e 80 do século XX em Portugal ganham, de repente, outras cores. Mergulhemos em “Costa Nova”

Costa Nova é o título genérico de duas compilações que recentemente surgiram na plataforma Bandcamp e que reúnem matéria mais ou menos obscura do passado da música pop portuguesa. O primeiro volume tem por subtítulo Atlantic Disco & Boogie Gems From Portugal e foca-se em produções da década de 80 do século passado; o segundo, mantém os localizadores geográficos Atlantic e Portugal no subtítulo, mas desloca a ação estética para os terrenos da Soul e do Funk, géneros que imperaram nos anos 70.

Explica-se nos textos que enquadram ambas as compilações que, “em finais de Setembro de 2019”, dois colecionadores de discos irlandeses passaram alguns dias numa casa alugada, perto de Aveiro, pertencente a um antigo apresentador de uma rádio local, o senhor Dionísio. E foi na sua colecção de discos que esses curiosos irlandeses encontraram as pérolas agora reunidas, digitalizadas para conveniência do dono da casa, impedido de ouvir os seus antigos vinis por já não possuir gira-discos. A rebuscada história terá, certamente, uma dívida considerável para com a verdade, mas alinha-se na perfeição com o tipo de narrativa que normalmente acompanha este impulso de “reescrita histórica”. Bem presente na memória de muitos melómanos estarão exemplos igualmente fantasiosos como o da compilação da germânica Analog Africa focada na produção de Cabo Verde dos anos 80, Space Echo – The Mystery Behind The Cosmic Sound of Cabo Verde Finally Revealed!, que de forma delirantemente imaginativa propunha que um navio carregado de sintetizadores se teria desviado da rota para, meses após ter desaparecido dos radares, ser encontrado em Cabo Verde, em terra, a 8 quilómetros da costa... ou o primeiro álbum do projecto Bulllet, do produtor Armando Teixeira (Balla, Da Weasel...), The Lost Tapes, atribuído ao agente secreto soviético Vladimir Orlvov que supostamente teria gravado música com segredos encriptados em fita analógica nos tempos da guerra fria. Vale tudo, para servir um conceito.

E o conceito que domina estes dois volumes de Costa Nova é o da música pouco celebrada pela memória pop nacional, música que, à luz dos actuais interesses “retromaníacos”, merece ser re-escutada e sobretudo repensada. Música que reaparece graças ao que o filósofo Jacques Derrida, citado pelo crítico de música Simon Reynolds no livro Retromania, identificava como “febre arquivista”: “Um delírio de documentação que se estende para lá das instituições e dos historiadores profissionais e se manifesta na explosão na internet de criação amadora de arquivos”. “Há, sublinha Reynolds, “um sentimento frenético em toda esta actividade – é como se as pessoas estivessem a atirar montes de coisas ‘lá para cima’ – informação, imagens, testemunhos – com uma pressa desmesurada antes que um apagão massivo faça com que os nossos cérebros queimem em simultâneo”. E nessa “pressa frenética” parece caber muita coisa: maestros operários como Jorge Costa Pinto que tudo orquestravam, de marchas populares e fados a bandas sonoras para filmes sobre o lado misterioso de Portugal; um produtor como Branco de Oliveira, fundador da Metro-Som (editora dos Ferro & Fogo, Ananga Ranga ou do primeiro single dos UHF, recentemente reeditado), que reuniu em 1975 uma banda com Herman José, Milú e Fernando Girão para traduzir os tempos do Verão mais quente da nossa história; ou os Soft que contavam Guilherme Scarpa Inês, Luís Pedro Fonseca e, uma vez mais, um tal Herman José Krippal, e que lançaram um único single no ano em que os cravos se tornaram símbolo histórico. De acordo com um post nas redes sociais do hoje popular apresentador de televisão, o compositor de música contemporânea Jorge Peixinho, que faleceu em 1995, terá até tocado violino nesse tema dos Soft que, aliás, mereceu destaque recente de Gilles Peterson no seu programa da BBC Radio 6 em que chamou a atenção para a dupla de “brilhantes compilações digitais”. E isto são apenas as primeiras três faixas do mais recente volume, aquele que recua mais no tempo, até aos anos 70 que, em Portugal foram muito claramente divididos a meio pela revolução do 25 de Abril de 1974.

E pode-se, de facto, pensar no momento em que os soldados saíram dos quartéis impulsionados pelo “Grândola Vila Morena” de José Afonso como um marco igualmente divisivo na nossa produção musical. Neste volume de Costa Nova focado na década das calças de boca de sino e das pelusidades faciais mais abundantes, alinham-se várias produções do pré-25 de Abril: Liliana Matos surge com um tema, “Canção de Quem está Só”, dirigido pelo maestro Rocha Oliveira; os Smoog, do futuro maestro Miguel Graça Moura, que à época era um devoto e modernista rocker, já com experiência adquirida nos Pop Five Music Incorporated, equipado com um Moog (já perceberam o nome da banda, certo?); Victor Manuel, que se acredita ter feito teatro de revista, e que, em 1972, registou um único single para a etiqueta Zip Zip, afiliada do mítico programa de televisão com o mesmo nome; a banda de Montegordo, Oropesa, que em 1973 lançou um sete polegadas com carimbo da Parlophone, em que se incluía o tema aqui exposto e também um revelador “Algarve ao Sul”. E, claro, talvez o mais celebrado dos nomes deste volume seja Fernando Tordo, que em 1973 editou Tocata, álbum de que foi extraído o tema aqui incluído, “Virgens que Passais” que exibe luxuriantes arranjos de Dennis Farnon e que tinha na cadeira de produtor o saudoso Luiz Villas-Boas. Tema, refira-se já agora para enquadrar o espírito da época, em que o autor menciona a “caricatura do macho decadente e português”, antecipando tempos mais... evoluídos.

Da fornada pós-revolucionária deste segundo tomo de Costa Nova saíram Carlos Paulo com “O Homem Matou-se”, tema de um single de 1979 lançado na cooperativa Toma Lá Disco, entidade de espírito vincadamente revolucionário fundada por Carlos de Carvalho, José Carlos Ary dos Santos e, entre outros, Fernando Tordo, em que tocavam o baterista dos Quarteto 1111, Vítor Mamede, e o baixista Luís Duarte, que também passou brevemente pelo mesmo grupo; Gonzaga Coutinho, músico nascido em Moçambique que em 1979 levou este “Tema Para Um Homem Só” ao Festival da Canção; ou Mané Domingos, com um hino que falava perfeitamente para os dias que se viviam em 1976 com o nada subtil título “Tu, Retornado”. O mais notório (retrospectivamente falando, claro) representante da colheita pós-74 aqui alinhada será o emigrante Roberto Leal, artista que cantou a nossa particular diáspora em “Dez Portugueses Sem jeito e Um Portugal na sacola”, canção editada em single no ano da explosão punk de 1977.

Também houve espaço, neste tempo já sem ditadura austera, para arrufos com o capitalismo, como bem demonstra a faixa da enigmática Inês Soares (na etiqueta do single aqui recuperado o nome completo que surge, presumivelmente referindo-se a autor e intérprete, é Manuel José Gonçalves Inês Soares), um jingle comercial de louvor à Toyota oferecido nos concessionários da marca japonesa e em que se cantava “um amor para toda a vida”, espelho de um tempo em que os carros ainda não eram como os iogurtes e não tinham prazo de validade. Também mereceu destaque no já mencionado programa do patrão da Brownswood na BBC Radio 6.

A história desta Costa Nova começou, no entanto, em tempos mais recentes, na continuamente revisitada década de 80, época que continua a insistir em oferecer pistas à produção pop contemporânea, como Dua Lipa ou, por exemplo, Roisin Murphy, poderão facilmente confirmar. E é precisamente por se adivinharem no presente ecos destes tempos aqui retratados que estas “cápsulas do tempo” se tornam tão relevantes. Talvez tenha havido uma clara razão para que boa parte desses temas não tenha conseguido conquistar à primeira um lugar nos livros de história – produções bastas vezes genéricas, interpretações esquecíveis, material demasiado datado, artistas que não se conseguiram na maior parte das vezes impor, etc, etc – mas esses são igualmente os argumentos em que assentam as atenções que agora são devotadas a essas “redescobertas”: é nas sombras, nos momentos esquecidos de uma determinada época, que se procuram encontrar os sinais de originalidade de um tempo, as marcas irrepetidas pela história que asseguraram a absoluta singularidade dessas produções. Não se trata de encontrar música tão visionária que tenha antecipado o futuro, antes de voltar a lançar luz sobre música tão datada que retém tudo aquilo que a mesma história de que falávamos se esqueceu.

Não estará fresco na memória de ninguém, por exemplo, o nome Display, certamente uma edição de meros propósitos comerciais, datada de 1983, na “indie” Edisom. O tema aqui exposto, “Terra”, creditado a Guilherme Inês e Zé da Ponte, também dos Salada de Frutas, e Igor Rampa, integrava também um LP que explorava a febre pelo Zodíaco. Via Nort é outro nome esquecido pelo tempo: lançaram um maxi em 1985 no selo Aquila (que também deu à estampa trabalhos de Quim Barreiros ou do fadista João Braga) com dois temas, incluído o aqui referenciado “Greenwish”, para que contribuíram uma série de “feras” como André Sarbib e Miguel Braga, nomes ligados ao jazz ou música contemporânea, e o músico e produtor Quico, homem dos igualmente míticos Poke que, em tempos mais recentes, colaborou com os Plaza de Paulo Praça.

Outros ilustres (mais ou menos) desconhecidos do volume inaugural de Costa Nova serão o emigrante francês David Ferreira, uma vez mais Gonzaga Coutinho (aqui incluído com um lado B, “1982”, de um single de... já adivinharam... 1982), os Guarda Branca (banda de Luís Martis e Fernando da Silva que ostentava um nome que hoje se poderia revelar problemático), Guilherme Silva, os Stick de António Garcez (Roxigénio) e Sérgio Castro (Trabalhadores do Comércio) ou Spunky, projecto de Maria Paula Monteiro que também deu voz aos Zanzibar, banda com ligações a Tito Paris ou Paulino Vieira.

Mais notórios serão os nomes de artistas como Paulo de Carvalho (que aqui surge à frente do seu quinteto que editou um único single em 1984 que ostentava no lado B a “versão especial dança” de (Já) Pode ser Tarde”), José Cid (que “escondeu” “Trago Comigo Ilusões” no lado B do massivo êxito de 1982 que foi “Como o Macaco Gosta de Banana”), Herman José (uma vez mais, aqui com a versão instrumental do tema título do clássico televisivo “Tal Canal”, que mereceu edição em single em 1983), Né Ladeiras (de quem se alinha uma das peças do seu clássico Sonho Azul, “Hotel Astória”, disco produzido por pedro Ayres de Magalhães) ou Thilo Krassman que surge ao lado de Florbela Queiróz no tema “Desencontro” (na verdade uma versão de um tema genérico de disco incluído originalmente num álbum de library music) com origem bastante misteriosa.

Este arquivo amador, de enquadramento público fantasioso, aproveitando o carácter inclusivo da plataforma Bandcamp, não deixa de oferecer um válido retrato de um Portugal que já poucos se lembravam, um Portugal que está arredado dos cânones consagrados pela história, remetido para as lojas de discos de segunda-mão mas em que alguns, irlandeses ou de outra nacionalidade, não se sabe, ainda encontram uma validade singular. E combustível para fazer dançar. Ou sorrir por trás da máscara, que isto não são tempos para pistas de dança.