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Marianne Faithfull e a covid-19. “Tudo o que me lembro é de estar num lugar muito negro. Presumo que fosse a morte”

A cantora inglesa Marianne Faithfull diz que não se lembra de ficar doente com covid-19 ou de ir parar aos cuidados intensivos. Em entrevista ao Guardian, a veterana fala ainda das várias sequelas. “Uma médica veio dizer-me que os meus pulmões nunca mais vão recuperar, mas acredito em milagres”

Marianne Faithfull falou sobre as três semanas em que esteve internada e às portas da morte, em abril do ano passado, devido à covid-19. Numa entrevista ao Guardian sobre o novo álbum, "She Walks in Beauty" (com edição agendada para 30 de abril), a artista inglesa disse que não se recorda de ter ficado doente nem de ter ido parar aos cuidados intensivos.

"Tudo o que me lembro é de estar num lugar muito negro - presumo que fosse a morte", diz, esclarecendo que apesar de ter recuperado ficou com várias sequelas: "falhas de memória, fadiga e os meus pulmões ainda não estão OK - tenho de receber oxigénio e todas essas coisas. Os efeitos secundários são tão estranhos. Algumas pessoas conseguem recuperar mas sem saber andar ou falar. Horrível".

Admitindo que este próximo álbum poderá ser o seu último, Faithfull diz que toda a gente antevia a sua morte, incluindo os médicos, avaliando por um relatório onde leu a frase "apenas cuidados paliativos". A artista assume que o seu passado marcado por consumo de heroína, bulimia, cancro de mama, hepatite C, uma anca partida que infetou depois de uma cirurgia e o enfisema pulmonar que resultou de anos de tabaco só pioraram a situação: "quem me dera nunca ter pegado num cigarro na vida".

O novo álbum da artista de 74 anos, sucessor de "Negative Capability" de 2018, foi gravado com Warren Ellis, dos Bad Seeds de Nick Cave, e inclui leituras de poemas de John Keats, Percy Bysshe Shelley e William Wordsworth. O disco tem também colaborações de Brian Eno e Nick Cave e é, segundo Ellis "o álbum que ela sempre quis gravar". Poderá também ser o último, porque Faithfull não consegue cantar neste momento: "e talvez nunca mais consiga".

"Uma médica veio visitar-me e disse-me que acredita que os meus pulmões nunca mais irão recuperar", acrescenta ainda, "ficaria muito chateada, mas tenho 74 anos. Não me sinto invencível nem amaldiçoada. Sinto simplesmente que sou humana. Contudo, acredito em milagres, é algo que me dá esperança".