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Adelaide Ferreira na foto da capa do single 'Baby Suicida', de 1981

101 canções que marcaram Portugal #48: 'Baby Suicida', por Adelaide Ferreira

Adelaide Ferreira arrebatou o rock português com uma figura disruptiva do mercado masculino de então. A sua sensualidade, alcance vocal e atitude fizeram-se-lhe colar o rótulo de rocker. É todavia um espírito inquieto, com outros talentos e muito passado antes de 'Baby Suicida', a 48ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Baby Suicida'
Adelaide Ferreira
(1981)

Deixou os seus dois amores na terra onde cresceu para deles fugir. As suas duas histórias entrecruzavam-se – o pai, intransigente e violento, não aceitara o primeiro amor de Adelaide Ferreira. José Pires beijara-a pela primeira vez na Foz do Arelho e esse primeiro beijo, que a fizera exangue, haveria de bastar para se tornar o seu maior amor – que um coração inquieto, como observava Goethe, está sujeito a imponderáveis – por toda a vida. Sabia que tinha de partir. Não sabia para onde ir e quando não se sabe para onde ir qualquer caminho serve. A sua irmã Laurinda, enlevada pela representação e pelos ideais revolucionários, já abalara para Évora, cidade onde o PCP incitava e apoiava jovens a estudar teatro; no pós 25 de Abril havia sempre lugar para mais um – como revelação de real camaradagem. Adelaide Ferreira não sabia ainda que caminho trilhar, mas aquele caminho presente haveria de traçar todo o seu futuro.

No filme "Kilas, o Mau da Fita", poucos anos mais tarde, Adelaide Ferreira era a Palito La Reine, mais uma das ‘miúdas lançadas à vida, postas a render, é claro’ e a quem o Kilas (Mário Viegas) e o Tereno (Luís Lello) punham nomes de guerra em vez de números: era a Palito la Reine, a Rosa Enfeitada, a Mimi Bocas-Fora e a Lili Bobó. Cantava num cabaret uma das canções que Sérgio Godinho compusera para Lia Gama (a Pepsi-Rita), numa toada disco, ajustada à ambiência de pecado de que a noite se reveste. No ano em que Pedro Bandeira Freire aceitou que "Kilas" se estreasse no seu Quarteto, em 1981, Adelaide Ferreira estava no quarto de uma pensão a escrever a letra (intrincada) de ‘Baby Suicida’, imersa nos acordes de Luís Fernando para uma canção rock que haveria de se tornar na sua primeira identidade. ‘Baby Suicida’ não seria porém a sua única aceção; seria uma ‘entrefitas e entretelas’ na sua carreira, fazendo ‘pendant’, já agora, com o título que Pedro Bandeira Freire haveria de dar à sua autobiografia, um ano antes de morrer. Um ano antes participara no festival RTP da Canção com um quarteto sem história - com a sua irmã Mila, Ana Bola e Helena Isabel – e lá haveria de regressar 5 anos depois.

‘Baby Suicida’ é uma canção com atitude. Sem ter sido intencional, beneficiou do vendaval rock português que assolou Portugal e a sensualidade de Adelaide Ferreira era uma disrupção no mercado masculino do rock. No clip (sim, a atmosfera MTV já chegara à RTP) de ‘Baby Suicida’, no Vivámúsica, apresentado por Jorge Pêgo, Adelaide Ferreira agitava-se na marginal Cascais-Lisboa nas traseiras de um cabriolet. Arrebatava um público ávido (e já acostumado) a esta vaga enérgica da música que se fazia em Portugal.

Colou-se-lhe o rótulo, um dos rótulos, de rocker – pelo arrojo e pela facilidade vocal com que executava as composições coléricas de Luís Fernando. Mas Adelaide Ferreira era mais do que essa têmpera; no intervalo das atuações, cerzia, bordava, como parte de uma outra Adelaide criada (também) para outro ofício que não aquele. Porque Adelaide Ferreira agrega, mais que a maioria, contornos de várias personalidades – indecisas e turbilhonantes.

Em 1985, concorreu mais uma vez ao festival RTP da Canção – agora para ganhar. Que Tozé Brito se encarregou de a encarreirar para uma vertente romântica, agora que se vivia o ocaso do rock português e se ansiava pelo seu inverso. Num festival de enchumaços e vontades impacientes por singrar, a sua segurança fez mais que o bastante para vencer. Alteraria aí de vez os fundamentos do seu percurso. Adelaide Ferreira passaria a partir desse festival a envergar a marca da canção ligeira – o outro e porventura derradeiro rasto da sua essência.

Tentou anos mais tarde voltar ao rock, mas o ‘papel principal’ estava firmado; o público assim lhe exigia e Adelaide Ferreira fez-lhe a vontade – como o fizera antes e sempre faria. Deixou de se abalar por desassossegos e encontrou quietude nas canções açucaradas, contemplativas e melodramáticas. Não se quis libertar do protagonismo maior, mereceu a veneração que lhe guardaram e não precisou de se dissimular para que lhe prestassem respeito.

É todavia um espírito inquieto, turbulento. Vivencia o seu tempo, toma-lhe o pulso e age consoante a sua lucidez e alento o ditam. Retirou-se por isso (até quando?) há cerca de cinco anos porque considerou não se enquadrar nas normas que ditam agora o mercado que ela própria ajudou a fazer crescer.

Talvez regresse um dia em forma rock, em forma romântica, em forma de atriz ou de todas essas artes numa só – quando julgar, como sempre o fez, que o seu talento agrega valor num tempo novo.

O meu nome é louca, chamo-me maníaca depressiva
Atiro-me pela janela quando os meus amigos vão todos a passar
Mais uns drunfos e telefono-te a avisar que me vou matar
Vem-me salvar, quero vomitar

Ouvir também: ‘Não, Não, Não’ (1983). Pose roqueira (o lado B continha a faixa ‘A Danada do Rock&roll’; tudo dito). Uma canção insuflada pelo synth-pop – a expor a elasticidade vocal de Adelaide Ferreira.

  • 101 canções que marcaram Portugal #47: 'Missing You', pelos Sheiks (1966)

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    Duraram apenas dois anos mas continuam inscritos como um dos conjuntos que mais marcaram a década de 1960. Além de terem composto grandes canções, eram magnéticos e a sua música era elegante. Nunca se livraram do cognome de Beatles portugueses, mas ajudaram Portugal a sintonizar-se com o resto do mundo. Esta é a 47ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #46: 'A Gente Não Lê', por Rui Veloso (1982)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #44: 'Dançam no Huambo', pelos Kussondulola (1995)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #43: 'És Cruel', pelos Ena Pá 2000 (1991)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #42: 'Irreal Social', pelos Ban (1988)

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    A pop dos Ban era elegante e acetinada. As suas letras enigmáticas e exóticas. Ajudaram à integração de uma geração num Portugal padronizado. Acicataram o caos criativo, o sentido crítico. Convidaram-nos, enfim, a surrealizar por aí – no seu filme sempre pop. Esta é a 42ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa