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Dino D'Santiago

Rita Carmo

Os melhores de 2020. Como Dino D'Santiago construiu a sua nação “kriola”

Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns portugueses do ano para a redação da BLITZ. Em primeiro lugar neste top ficou “Kriola”, o disco que Dino D'Santiago lançou de surpresa em abril e no qual puxa pela sua veia mais interventiva para sublinhar que esta “nova Lisboa” não é tão nova assim e que a mescla de identidades e culturas já há muito deu origem a uma outra genealogia. “Kriola” celebra a geração “de ouro” de um mundo crioulo

O caminho foi longo, mas a voz quente de Dino D’Santiago finalmente encontrou um merecido lugar de destaque na música feita dentro de fronteiras. Foi há menos de dois anos que “Mundu Nôbu” permitiu que colhesse os frutos do trabalho árduo, desenvolvido ao longo de quase duas décadas, e ajudou a que se escancarassem, bem à sua frente, portas de infinitas possibilidades. O artista de Quarteira começou por afinar a voz em coros de igreja, mas só ficámos a conhecê-lo quando, há 17 anos, participou na segunda edição do concurso televisivo de talentos vocais “Operação Triunfo”. Desde então, consolidou o seu nome fazendo coros para os Expensive Soul, assinando a meias com Virgul (Da Weasel) o projeto Nu Soul Family e, claro, arrancando o seu projeto a solo com “Eva”, em 2013.

A vontade de girar a agulha para as sonoridades cabo-verdianas que lhe correm nas veias ficou bem expressa nas abordagens criteriosas ao batuco e ao funaná de ‘Nôs Tradison’, ‘Pensa na Oji’ ou ‘Ka Bu Txora’, mas foi a vontade de conquistar novos públicos que o levou, cinco anos volvidos, a salpicar a tradição de modernidade. Com a ajuda de Kalaf Epalanga e do produtor britânico Seiji, D’Santiago deixou-se embalar ao som de ondas eletrónicas em “Mundu Nôbu”, álbum no qual abriu o seu globo musical a outros ritmos, como a quizomba, para compor temas tão marcantes quanto ‘Sô Bô’, ‘Nova Lisboa’ ou ‘Nôs Funaná’. O que saltou mais à vista nesse segundo longa-duração foi uma nova confiança, que se adivinhava em projetos anteriores mas só então assentava bem os alicerces.

Neste novíssimo “Kriola”, a firmeza das suas potencialidades permite a Dino D’Santiago fazer algo provavelmente não tão solto, quando comparando com o registo que lhe antecedeu, mas mais próximo daquilo que começa a cimentar-se como a sua persona artística. Ao mesmo tempo, puxa pela sua veia mais interventiva para sublinhar que esta “nova Lisboa” não é tão nova assim e que a mescla de identidades e culturas já há muito deu origem a uma outra genealogia. A geração “de ouro” de um mundo crioulo é abraçada ao longo de oito canções que ganham forma entre contestações e constatações, ditadas ora em português ora em crioulo. Gravado entre Londres e Lisboa, o disco começa por puxar pela força da “língua da Cesária” numa luminosa ‘Morbeza (na na na)’ e termina com os clamores de igualdade de ‘Nhôs Obi’, interpretada a meias com Vado Mas Ki Ás. Nesta “cachupa instrumental” de D’Santiago entram pitadas de tarraxo e inspirações grime, mas o mais importante é perceber que estas novas coordenadas geográficas lhe trouxeram uma maior liberdade na hora de explorar as suas raízes. A sensualidade de ‘Sofia’ e ‘Arriscar’, os ritmos envolventes de ‘My Lover’, a combatividade de ‘Kem Ki Flau’ e a resistência de ‘Roda’ ajudam a criar um disco sem ‘gorduras’, que tem em ‘Kriolu’, com a participação de Julinho KSD, o exemplo maior da vibração desta nação crioula.

Dino D'Santiago lançou “Kriola” de surpresa, em abril

Dino D'Santiago lançou “Kriola” de surpresa, em abril

Publicado originalmente no Expresso em 2020