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OCTAVIO PEIXOTO

Os melhores de 2020. A eterna juventude dos Clã num regresso de elegância olímpica

Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns portugueses do ano para a redação da BLITZ. “Véspera”, o álbum dos Clã com colaboradores de luxo como Sérgio Godinho, Capicua ou Samuel Úria, ficou em segundo lugar. Tudo graças à intérprete de exceção que é Manuela Azevedo e a uma sofisticação que os anos não apagam. Tudo polvilhado por letras que, sem querer, previram as angústias mil deste ano que agora termina

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Os Clã pertencem àquela casta rara de artistas que, abeirando-se da terceira década de carreira, soam mais jovens e estimulantes do que nunca. Milagrosamente, as subtis mudanças e aventuras sónicas que vão encetando não significam nunca a perda daquilo que será o seu código genético. O que faz uma canção dos Clã, em 2020 como em 1996, ano da estreia “LusoQualquerCoisa”, é porventura uma sofisticação na composição, a cargo de Hélder Gonçalves, que não tira lugar à acessibilidade de ritmos e melodias – tudo transportado com elegância olímpica por uma das melhores vozes de Portugal. Aliás, será injusto chamar “apenas” cantora a Manuela Azevedo. Pela forma como, empregando todo o corpo, dá vida às histórias que os outros escrevem para si, “intérprete” será uma melhor descrição desta arte de encarnar personagens.

Em “Véspera”, primeiro disco dos Clã após a saída de Pedro Rito (baixo) e Fernando Gonçalves (bateria), substituídos respetivamente por Pedro Santos e Pedro Oliveira, Sérgio Godinho volta a renovar votos com a banda, em 'Oh, Não! Outra Vez' e no insidioso monumento que é 'Tudo no Amor', pura seda negra derramada sobre uma das melhores canções do já longo cancioneiro dos nortenhos. Depois de se estrear a jogar pela equipa de Vila do Conde em 'Corrente' (2014), Samuel Úria assina um dos momentos mais simbólicos de um disco premonitório, 'Sinais', e graceja em 'Jogos Florais' (“mil palavras por cada ação/para o problema não ser de expressão”). Já a nova recruta Capicua brilha em 'Tempo-Espaço' e 'Armário', para a qual escreveu uma letra que adivinha com limpidez a angústia e claustrofobia potenciadas pela pandemia. Carlos Tê, Regina Guimarães, Arnaldo Antunes e a debutante Aurora Robalinho, na coquete 'Na Sombra', que podia ter saído de “Rosa Carne”, completam o leque de autores que ajudam a pintar em “Véspera”, nono álbum dos Clã, um quadro distópico mas não falho de esperança, requintado mas eternamente atlético. Mais um triunfo.

Em entrevista à BLITZ/Expresso, Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves falaram sobre como gerir o legado de uma carreira já longa e sobre o "segredo" de letras algo premonitórias como as de Capicua: “Eu já nem saio à rua com medo da desgraça”, escreveu a rapper na letra de 'Armário'. Pode ler essa conversa aqui.

Em “Véspera”, os Clã reúnem letras de Sérgio Godinho, Capicua e Samuel Úria, entre outros

Em “Véspera”, os Clã reúnem letras de Sérgio Godinho, Capicua e Samuel Úria, entre outros

Publicado originalmente no Expresso em 2020