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Gary Miller/Getty Images

Os melhores de 2020. Fiona Apple voltou para ajustar contas em “Fetch the Bolt Cutters”

Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns internacionais do ano para a equipa da BLITZ. "Fetch the Bolt Cutters", de Fiona Apple, ficou em primeiro lugar. Tomando inspiração na sua residência em Venice Beach, Los Angeles, na meditação Vipassana, na nomeação do juiz Brett Kavanaugh, em Kate Bush e numa personagem de Gillian Anderson, Fiona Apple regressou com 13 canções de confronto e ajuste de contas

Em 14 de outubro do ano passado, Zelda Hallman, a housemate de Fiona Apple, publicou no YouTube um vídeo de 1 minuto no qual esta, qual Martha Graham doméstica, ensaia, no chão da sala, uma coreografia com a cadela “Mercy” — uma possante boxer-pit bull — que a arrasta impiedosamente por entre um piano e várias cadeiras, enquanto ela, na medida do fisicamente possível, vai improvisando movimentos e poses. Nada de extravagante, afinal — apenas um passatempo de um dia normal na casa de Venice Beach, em Los Angeles, de onde, há anos, Fiona só muito raramente sai. Na verdade, muito antes de palavras como “quarentena” e “confinamento” se terem tornado omnipresentes, já esse era o seu modo de vida habitual, o que teria, aliás, consequências na produção musical: entre a explosiva estreia, “Tidal” (1996), e “When the Pawn...” (por extenso, “When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks Like a King What He Knows Throws the Blows When He Goes to the Fight and He’ll Win the Whole Thing ’fore He Enters the Ring There’s No Body to Batter When Your Mind Is Your Might So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand and Remember That Depth Is the Greatest of Heights and If You Know Where You Stand, Then You Know Where to Land and If You Fall It Won’t Matter, Cuz You’ll Know That You’re Right”) decorreriam três anos; desse para “Extraordinary Machine” seriam precisos seis; “The Idler Wheel...” (isto é, “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”) exigiria sete; e para chegar ao atual “Fetch the Bolt Cutters”, necessitaria de oito. Além de que, com muitíssimo poucas exceções, desde 2012, não pisa um palco.

Quase poderia antecipar-se todo este percurso quando, nos MTV Video Music Awards de 1997 (nos quais, aos 19 anos, conquistaria o galardão de Best New Artist pela canção ‘Sleep to Dream’), ao aceitar o prémio, declarou: “Não preparei um discurso e ainda bem, porque não irei fazê-lo da mesma forma que toda a gente. Que todas as pessoas a quem deveria agradecer me desculpem mas tenho de aproveitar o tempo que me é concedido. A Maya Angelou diz que, enquanto seres humanos no seu melhor, apenas podemos criar oportunidades. Vou, então, usar esta oportunidade do modo que entendo. Por isso, o que quero dizer — estão a ver, todos vocês, estão a ver este mundo? — é que este mundo é uma merda. E que vocês não deverão tomá-lo como exemplo para a vossa vida, não deverão seguir aquilo que pensam que nós imaginamos ser cool, o que vestimos, o que dizemos e tudo o resto. Sigam o vosso próprio caminho.” Exatamente aquilo que, ainda que pagando um elevadíssimo preço na sua vida pessoal e artística, Fiona Apple fez. O que, há semanas, no “Guardian”, reconfigurando-a na condição de “perfect artist for a time of crisis”, se apresentava em seis pontos: 1) não foge a temas difíceis (sempre falou dos problemas de depressão, ataques de pânico e transtorno obsessivo-compulsivo de que sofre e nunca escondeu ter sido violada aos 12 anos); 2) conta a melhor história acerca do que fazer para se libertar da cocaína (“Experimentem ir ao cinema com o Quentin Tarantino e o Paul Thomas Anderson a snifarem coca e nunca mais vos voltará a apetecer”); 3) pode ensinar-nos uma ou duas coisas sobre autoisolamento (pouco sai de casa a não ser para passear a cadela em Venice Beach); 4) aprendeu a viver com mais juízo (a antiga consumidora de uma garrafa de vodka por dia, é, agora, abstémia e vegan); 5) não é politicamente desatenta (no verão passado, ofereceu o valor das royalties de dois anos da canção ‘Criminal’ a um fundo que presta apoio legal a imigrantes; compôs ‘Tiny Hands’, acerca de Donald Trump — “We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants” —, para a Marcha das Mulheres, de janeiro de 2017, em Washington; ‘For Her’, do último álbum, foi escrita num acesso de fúria após a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça); 6) não tem dúvidas quanto a prioridades (no final de 2012, cancelou uma digressão pela América do Sul devido ao agravamento do estado de saúde da sua anterior pit bull, “Janet”).

Foi, justamente, em 2012, que as primeiras moléculas de “Fetch the Bolt Cutters” começaram a juntar-se, num ainda vago conceito em torno da casa de Venice Beach, a que chamou “House Music”. Mas a primeira canção, ‘On I Go’, inspirar-se-ia num cântico de meditação Vipassana que, colando fragmentos de textos antigos e novos, lançou para o caldeirão de ferventes jam sessions com o baixista Sebastian Steinberg (Soul Coughing), a baterista Amy Aileen Wood e o guitarrista Davíd Garza. Ferventes mas não propriamente convencionais: todo o tipo de objetos potencialmente percutíveis — baldes, vasilhas, pedaços de metal e de madeira, mesas, paredes, palmas, utensílios de cozinha, as ossadas da cadela “Janet” que Fiona guarda num estojo —, cânticos, arquejos, gritos, miados (cortesia da atriz Cara Delevingne), latidos de cinco cães (“Mercy”, “Maddie”, “Leo”, “Little” e “Alfie”, devidamente creditados), foram utilizados numa orquestra de matriz waitsiana. “A Fiona queria começar do chão para cima e, para ela, o chão é o ritmo. Parecia mais a criação de uma escultura”, contou Garza à “New Yorker”, ou como acrescentava Steinberg, “Tocámos do modo que os miúdos brincam ou que os pássaros cantam”. Em ‘I Want You to Love Me’, Apple é totalmente explícita: “Blast the music, bang it, bite it, bruise it”.

Uma versão anterior — que os então presentes consideram ainda o seu mais extraordinário desempenho vocal — tivera lugar numa cadeia do Texas quando, em 2012, Fiona havia sido presa por posse de haxixe. “Cantei-a durante a noite para me acalmar. Enquanto estávamos todos na sala de espera, eu cantava, estupidamente, de uma forma arrogante, para a câmara de vigilância. Não é, realmente, boa ideia ser sarcástico quando se está lidar com a polícia. Por muito que me custe, aprendi a lição.” Mas, nas condições ideais de temperatura e pressão, é esse precisamente o espírito ideal — bruto e cru — capaz de conferir tensão e perfurante intenção a 13 canções de confronto e ajuste de contas. Em ‘For Her’ (a tal incendiada pelo caso Kavanaugh), um coral ofegante e ritmicamente martelado salta de “Sniff white off a starlet’s breast, treating his wife like less than a guest, getting his girl to clean up his mess” para o implacável “Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”; ‘Relay’, apontada a um objeto de desprezo (“I resent you presenting your life like a fucking propaganda brochure”), explode numa definição impiedosamente repetida (“Evil is a relay sport, when the one you burn turns to pass the torch”); e, na faixa-título, sobre moldura instrumental em processo de liquefação, invoca Kate Bush (“I grew up in the shoes they told me I could fill, shoes that were not made for running up that hill, and I need to run up that hill, I need to run up that hill, I will, I will, I will, I will, I will”) para concluir com “Fetch the bolt cutters, I’ve been here too long”. Não por acaso, o pedido da detetive Stella Gibson (interpretada por Gillian Anderson), num episódio da série de televisão “The Fall”, quando necessita de um alicate para libertar do cárcere uma mulher que o serial killer Paul Spector sequestrara e torturara. Como se, agora, quando o mundo vive em prisão domiciliária, para Fiona Apple, esse fosse o instante certo para sair de casa.

"Fetch the Bolt Cutters", de Fiona Apple

"Fetch the Bolt Cutters", de Fiona Apple

Publicado originalmente no Expresso em 2020