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Kevin Morby

Os melhores de 2020. Kevin Morby cantou dias intermináveis numa cabana no meio do nada

Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns internacionais do ano para a equipa da BLITZ. "Sundowner", de Kevin Morby, ficou em segundo lugar. A morte de amigos queridos e a descoberta do amor foram as coordenadas do sexto, e indispensável, álbum do músico norte-americano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Kevin Morby ainda não tinha 30 anos quando sentiu o apelo da terra — neste caso, de Kansas City, a cidade onde cresceu e da qual fugiu “com fervor” aos 18 anos. Depois de anos em digressão, o músico que se considera sobretudo escritor de canções deu por si cansado. No inverno de 2017, aos 29 anos, trocou a Califórnia por uma cabana no meio do nada, na região a que começara por chamar casa. A sua intenção era acabar “Oh My God”, o álbum que viria a lançar em 2019, mas, com a ajuda de um gravador de quatro pistas que comprou a um amigo, Kevin Morby fez mais: escreveu várias canções novas e deixou-as ganhar forma, no frio de um estúdio caseiro onde se formavam pingentes de gelo. Depois chegaria o verão e com ele Katie Crutchfield, a mentora do projeto Waxahatchee. “Já nos conhecíamos há uns dez anos”, conta Kevin Morby ao Expresso, numa chamada Zoom que nos permite ver o seu estúdio, com paredes em madeira de pinho. Kevin e Katie começaram a namorar e a sua relação acontecia ali, numa cabana sem ar condicionado, lentamente decorada com os objetos que ele trouxera de Los Angeles. O isolamento do casal, que de certa forma precedeu o isolamento do mundo, deu origem a “Sundowner”, título inspirado pela melancolia que Kevin e Katie sentiam quando o sol se punha e o dia, numa terra sem nada para fazer, chegava ao fim. “Aqui não havia muita vida noturna nem amigos com quem sair, e o pôr do sol representava a chegada da solidão”, explica o norte-americano. “Nesse aspeto, é um disco de inverno, mas com partes que celebram o crepúsculo, que é um sentimento mais de verão.” Ao mudar-se para o fim do mundo, Kevin Morby quis estar “sozinho o máximo possível, trabalhando isolado”. Ao interromper o seu estilo de vida “nómada, sempre no avião ou de carro, constantemente a dar concertos”, passou a ter tempo para pensar. “Quando a tua vida é assim, não tens tempo para processar as emoções. Tens de ir [para a estrada] sem pensar em nada”, diz. Ao parar, o desaparecimento de três amigos queridos, incluindo o músico Richard Swift e o comunicador e chefe Anthony Bourdain, atingiu-o de forma diferente. “Levei com essas notícias na cabeça”, admite. “Comecei a processar essas coisas sozinho, sem distrações, e bateu-me muito”, confessa o songwriter, que menciona a morte de Richard Swift (produtor do seu maravilhoso álbum de 2017, “City Music”) e Anthony Bourdain (“talvez o último porta-voz decente da América”, escreve no texto de apresentação do novo disco) na canção ‘Campfire’.

A morte, por um lado, e a descoberta do amor, por outro, servem de coordenadas a “Sundowner”, um álbum onde a habitual languidez de Kevin Morby ganha uma dimensão mais livre e panorâmica. Em ‘Velvet Highway’, um tema ao piano, conta-se sem palavras a história de uma autoestrada sinistra. “Tinha ido visitar uma cidade no Texas, chamada Marfa”, conta. “É uma cidade de artistas no meio do deserto. Tens de ir de avião até El Paso, no Texas — é o aeroporto mais próximo, fica a três horas — e depois segues de carro por uma autoestrada muito longa. A primeira vez que fiz esse trajeto foi a meio da noite. As pessoas da cidade deram-lhe a alcunha de Velvet Highway porque há ali tantos coelhos que acabas por atropelá-los. É uma autoestrada misteriosa, coberta por pelo de coelho.” Já ‘A Night at the Little Los Angeles’ é uma referência à história que criou para a sua casa: “Quando dei à minha casa a alcunha de Little Los Angeles, inventei a ideia ficcional de um motel temático sobre a cidade. No futuro, quando Los Angeles tiver ardido e já não existir, podes ir àquele motel ranhoso no meio do Kansas que te mostra como era a cidade. Inventei também umas personagens duvidosas que estão nos vários quartos e imagino o que se passa por detrás das suas portas”, elabora, admitindo que a letra de ‘Paper Thin Hotel’, de Leonard Cohen, terá sido uma inspiração.

No dia em que conversámos, Kevin Morby acabava de chegar do Colorado, onde deu os primeiros concertos pós-pandemia: para 175 pessoas numa sala de 9 mil lugares, o que apesar de “surreal” lhe deu esperança de poder voltar a tocar ao vivo. Na viagem de regresso — nove horas de carro até ao Kansas —, viu muitos sinais de apoio a Trump. “Devo ter visto uns dez cartazes enormes, em quintas e assim. Mas também vi um cartaz do Black Lives Matter, à saída de uma pequena cidade. Achei espetacular e fez-me pensar: isto é um progresso, aquele cartaz não estaria ali há um ano”, congratula-se. “Sempre pensei que, mesmo sendo um sítio lixado e sem sentido, podia usar a América para fazer algo de belo. Mas agora estou a ficar desencantado. Começo a perguntar-me se é o sítio certo para mim. Em nove horas de carro, também vês cartazes de lojas onde podes parar para comprar armas militares. Todos os dias penso: posso levar um tiro em qualquer lado, se estiver numa fila ou no cinema.” Mudar-se para Portugal, país do qual guarda belas recordações de Aveiro, Lisboa e do Porto (“fiquei de férias umas semanas; era outono e começava a ficar frio, o que parecia perfeito para aquela cidade”), é o plano B deste americano apaixonado pelo mundo. Quando lhe perguntamos quais os seus guitarristas favoritos, responde com prazer: “Gosto muito do Tom Verlaine, dos Television, do Jeff Tweedy e do Nels Cline, dos Wilco. Adoro guitarristas clássicos, como Django Reinhardt ou John Fahey, e muitos guitarristas africanos como os da banda Tinariwen ou Bombino. Adoro os Can, sempre me influenciaram na forma como toco guitarra e até baixo. Qualquer pessoa que use a guitarra como voz: se conseguires cantar as partes da guitarra, é isso que me influencia.”

Em “Sundowner”, Kevin Morby tem uma canção favorita: a que une a sua história de amor com Katie Crutchfield e a paisagem que os deixou a sós, ‘Don’t Underestimate Midwest American Sun’. “Essa canção foi escrita quando a Katie e eu começámos a namorar. Ela vinha visitar-me e ficávamos sozinhos num ambiente novo, sem tentações de ir fazer outra coisa. Depois partíamos em digressão e voltávamos àquela vida caótica. Namorávamos há pouco tempo e não sabia quanto tempo iríamos ficar juntos. Só quis apanhar aquele sentimento de quando estás sozinho com alguém e não queres que isso acabe.”

"Sundowner", de Kevin Morby

"Sundowner", de Kevin Morby

Publicado originalmente no Expresso em 2020

  • Os melhores de 2020. Fiona Apple voltou para ajustar contas em “Fetch the Bolt Cutters”

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