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Concertos de 2020 que não queremos esquecer. Quando Angel Olsen celebrou o aniversário em Lisboa

A 22 de janeiro de 2020, Angel Olsen fez 33 anos e celebrou em Lisboa, com o primeiro de dois concertos esgotados no Capitólio. À boleia do álbum "All Mirrors", a norte-americana ofereceu uma noite tão épica como intimista, que aqui recordamos no balanço de um ano atípico, também no que toca a concertos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Uma longa fila à porta do Capitólio, mais de uma hora antes do arranque do concerto, e uma fã estrangeira de ar desolado, ostentando um cartaz com a frase “need two tickets”. O cenário que antecedeu o primeiro de dois espetáculos de Angel Olsen em Lisboa, esta quarta-feira, dizia bem da expectativa com que era aguardada a aniversariante, avistada a sair, risonha, de um restaurante vizinho com um ramo de flores.

Lá dentro, e depois da primeira parte de Hand Habits (o projeto da guitarrista Meg Duffy, que até há pouco tempo fez parte da banda de Kevin Morby), uma escadaria opulenta, projetada ao fundo do palco, dava as boas-vindas ao serão com a autora de um dos mais aclamados álbuns de 2019, “All Mirrors”. Com balões pretos e dourados espalhados pelo chão, assinalando as 33 voltas ao sol de Miss Olsen, a quem o público cantaria os parabéns, os seis músicos (quatro deles mulheres) foram ocupando os seus postos, indicando desde logo que os arranjos de cordas de “All Mirrors” seriam recriados por uma violinista e uma violoncelista.

De vestido negro e sorriso luminoso, Angel Olsen surgiu perante a sala esgotada com a felicidade de quem está em casa. Mais tarde, partilharia que já está em Lisboa há uma semana (chegou mais cedo para ensaiar, como contou em entrevista ao Expresso) e, em resposta a um fã curioso que lhe perguntou quando planeia mudar-se para Portugal, brincou: “Quando tiver 50 anos. Não quero ser aquela americana tontinha que diz: 'oh my God, I love Lisbon'. Embora o seja! E vou mudar-me para a Margem Sul, vai ser espetacular”.

Ainda ao Expresso, a norte-americana havia dito que, em todos os discos que gravou e todas as bandas ao vivo que juntou, a parte mais complicada é sempre comunicar aos outros as suas intenções, “sem parecer que estou a fazer de mãe deles”. A avaliar pelo espetáculo de ontem, nesta digressão Angel Olsen terá encontrado uma forma harmoniosa de transmitir as suas ideias, uma vez que, tanto nos momentos épicos como nos mais intimistas, a banda brilha. E a sua 'líder' voa.

Logo em 'All Mirrors', tema-título do disco mais recente, não muito longe do 'campeonato' da também aplaudida Weyes Blood, a voz de Angel Olsen mostrou-se tão imponente como em álbum, sobrevoando a cama de sintetizadores e baixo, antes de uma segunda metade de canção mais rock. Por vezes, ao longo da noite, a gravidade da música e das letras (“Standing, facing, all mirrors are erasing/Losing beauty, at least at times it knew me”, canta em 'All Mirrors', imaginando porventura um futuro longínquo) contrasta com a boa disposição da autora mas, ao invés de lhe retirar intensidade, este quente-frio oferece ao espetáculo uma maior proximidade.

Distinguindo-se dos seus antecessores pela 'pegada' mais pesada e uma toada mais negra e orquestral, “All Mirrors” foi apresentado quase na íntegra e a sua carga dramática ficou espetacularmente representada quando, ao quarto tema, Angel Olsen pegou pela primeira vez na guitarra elétrica para tocar uma versão desacelerada, quase fúnebre, de 'Impasse'. O ritmo lodoso seria estilhaçado no refrão vertiginoso, que implora uma entrada no cânone das canções de James Bond - e mostra todo o controlo vocal da nossa anfitriã. “I never lost anyone”, canta repetidamente, espalhando arrepios pela sala, refém de cada uma das suas palavras.

Ainda a fumaça de 'Impasse' não tinha assentado quando Angel Olsen entra com enganadora mansidão na monumental 'Lark', o tema de abertura do disco que aqui nos traz e um dos mais poderosos da sua obra. Praticamente estática em palco, talvez para com maior precisão atingir o âmago de cada sentimento que revisita, Angel Olsen termina a canção em modo de catarse total e deixa a plateia, que lhe dispensa uma enorme ovação, a seus pés. Poucas vezes o fim do amor terá sido glosado com tanto desespero, e a intensidade do que ali acabara de acontecer 'obrigou-a' a tecer um comentário quase brincalhão: “Eu tenho muita raiva dentro de mim”, diz, na voz mais inofensiva. “E ela sai de muitas formas diferentes. Às vezes escrevo canções e depois camto sobre isso para sempre”.

O trote mais ligeiro do western 'Summer' aligeirou o ambiente, antes de 'Tonight' devolver Angel Olsen à penumbra dos teclados. No primeiro concerto “em pouco mais de um mês”, a banda apresentou-se “nua e crua”, explicou a cantora, em jeito de desculpa pelas pausas entre canções, para afinar o alinhamento. Os fãs de longa data ter-se-ão alegrado com o regresso ao primeiro disco, “Half Way Home” (2012), do qual recuperou o crooning, simultaneamente elegante e tortuoso, de 'Acrobat'. A lança pop 'Shut Up Kiss Me', do anterior “My Woman” (2016), e o falsete de 'Windows' (Angel Olsen de mão na barriga, fazendo-nos lembrar que, na conversa com o Expresso, afirmou “se estiveres a cantar como deve ser, cantas do estômago, não da garganta”) conduziram o concerto até ao primeiro adeus, com a inesperada viagem ao primeiro EP de sempre, “Strange Cacti”, de 2010. “Vocês não devem conhecer, mas não faz mal”, sossegou ela, antes de oferecer à plateia lisboeta um momento de grande beleza. Sozinha com guitarra elétrica, a bordo de 'Something Cosmic', foi cândida e encantatória.

O adeus definitivo, antes do reencontro desta quinta-feira, aconteceu com 'Chance', magnífica e clássica balada de “All Mirrors”, revelando mais uma vez Angel Olsen como exímia malabarista de diferentes registos, musicais e emocionais: do drama épico ao sussurro mais vunerável, tudo lhe assentou bem e tudo foi tragado com paixão por um público cujos silêncios respeitosos mereceram elogios tanto de Olsen como, na primeira parte, da tímida Meg Duffy. “Ela vai deixar-vos malucos”, prometeu a artista que abriu o concerto. E assim foi. Afinal, e como disse a mulher que esgotou três concertos esta semana (na sexta toca no Porto), “it's my freaking birthday”. E ela ri e chora se quiser.