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Camille Vivier

Os melhores de 2020. O coração de Perfume Genius não explodiu mas pegou fogo

Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns internacionais do ano para a equipa da BLITZ. "Set My Heart on Fire Immediately", de Perfume Genius, ficou em terceiro lugar. “Sinto-me diferente, melhor do que alguma vez me senti, em vários aspetos. Também me sinto mais confuso e pior”. Mike Hadreas voltou às raízes da sua música e de uma América que sempre o fez sentir-se deslocado

Um, dois, três, quatro álbuns sem um passo em falso. É assim que olhamos para o percurso irrepreensível percorrido por Perfume Genius desde que se estreou, há uma década, com um tímido (e lo-fi) “Learning”. Disco após disco, a doçura e o vapor de ‘Lookout, Lookout’ ou ‘Gay Angels’ foi-se mascarando de confusão e desespero em ‘Hood’ ou ‘Dark Parts’, de violência e explosão em ‘Queen’ ou ‘My Body’, de assertividade e provocação em ‘Slip Away’ ou ‘Die 4 You’. Nessa incrível montra de pedras preciosas em formato canção, Mike Hadreas foi deixando bem à vista as suas potencialidades de escritor de canções, exímio na hora de contar histórias e traduzir sentimentos. A vontade constante de se provocar e de encontrar novas formas de nos arrepiar com o poder das palavras esteve sempre lá, e continua a estar. Tal como a vulnerabilidade da entrega. “Set My Heart on Fire Immediately” é outra excelsa entrada no seu catálogo e um disco em que, de novo, se empurra para novas experiências, sem olhar a consequências. “Isso, em parte, é bastante deliberado mas um tanto ou quanto rebelde, para ser sincero”, confessa ao Expresso, “não me interessa fazer algo que já tenha feito antes, não me quero sentir como me senti antes”.

‘Your Body Changes Everything’, a canção que se equilibra ao centro do alinhamento é, porventura, a melhor tradução musical desse sentimento de desconforto que, na hora de criar, o atira sempre para fora de pé. “É como se fosse uma espécie de combustível para mim”, diz, “sinto que neste álbum, finalmente, arranjei forma de me sentir em harmonia com isso”. Aproximando-se a passos céleres dos 40 anos (“porque é que toda a gente pensa que vou fazer já 40? Ainda tenho 38!”), Mike Hadreas abre o disco com a poderosa declaração “half of my whole life is gone” e, talvez em jeito de balanço, nas 12 canções que sucedem a ‘Whole Life’ tenta recuperar alguma da inocência e espontaneidade da música dos primeiros dois álbuns. “Tenho muito orgulho das letras que escrevi nesses tempos, gosto muito da forma como escrevia”, confessa, “tentei recuperar isso, mantendo tudo aquilo que aprendi pelo caminho, quer em termos musicais quer em termos emocionais”. ‘Jason’, que, junto com ‘Your Body Changes Everything’, se revela um dos diamantes mais brilhantemente burilados de “Set My Heart on Fire Immediately”, é a canção em que melhor consegue manter o equilíbrio entre a inocência do início e a experiência que foi desenvolvendo, abraçando a abstração dos sentimentos e a realidade que guarda na memória. “É uma recordação, a história de uma noite que passei com alguém, há muito tempo, mas que continua a ser importante para mim porque foi complicada e estranha.”

Regressando a ‘Whole Life’, Hadreas confessa que a idade não o incomoda (“só quando estou num dia mau”) porque se sente constantemente em evolução e cada vez mais apto para lidar com imprevistos. “Sei que a minha vida pode mudar a qualquer segundo. Neste preciso momento, sinto que estou a atravessar um período de mudança, pelo menos mentalmente. Sinto-me diferente, melhor do que alguma vez me senti, em vários aspetos. Também me sinto mais confuso e pior”, contradiz-se, entre risos, “mas, pelo menos, sei que as coisas podem mudar, mover-se e transformar-se. Isso nunca vai deixar de acontecer. Só receio não conseguir acompanhar essas mudanças, ficar mais lento ou limitado naquilo que quero fazer. Tenho medo de ver um novo caminho à minha frente e não conseguir chegar lá”. Não é esse o caso, neste quinto álbum. Apesar de estarem lá todos os ingredientes a que nos habituámos, ainda não é desta, e esperemos que nunca seja, que encaramos um álbum de Perfume Genius como apenas mais um álbum de Perfume Genius. Em canções como ‘Without You’, ‘One More Try’ ou ‘On the Floor’, com tudo aquilo que as separa, observamo-lo a invadir território próximo de um género musical a que, olhando à primeira, nunca o associaríamos, mas que acaba por fazer mais sentido do que pensávamos. “Sempre gostei muito da energia americana mais clássica, mas nunca me senti totalmente incluído nela”, responde, quando o confrontamos com os laivos de country e americana que atravessam os ambientes dos temas referidos, “nunca me senti incluído nessa tradição, mas há algo de muito satisfatório quando sou eu, esta pessoa estranha, a cantar esses sentimentos clássicos, aquela nostalgia e calor”. São nomes como Elvis Presley ou Roy Orbison, que diz ter ouvido toda a sua vida, que o puxaram para formas de cantar por vezes “hipermasculinas”, “são crooners que abraçam e partilham a vulnerabilidade da sua música com confiança, controlo, quase sem medos”.

‘Describe’, a primeira canção revelada da era “Set My Heart on Fire Immediately”, é um típico momento Perfume Genius. Mas é também o perfeito exemplo daquilo que o artista nos explica: um bom equilíbrio entre o passado mais longínquo e a constante vontade de mudança. Chega banhado na melancolia da tradição americana mas mantém-se fiel à explosão e negrume que sempre nos disse ter ido beber à música de PJ Harvey. “Gravei muitas das canções ao vivo, com os mesmos músicos e todos juntos na mesma sala. Desde que comecei a escrever, quis que a forma como cantaria estas letras fosse o mais parecido possível com uma performance”, revela, “quis fazer algo intensamente lento e rude, como num disco de drone metal. Tenho andado a ouvir coisas próximas disso”. O trabalho que desenvolveu no ano passado, em palco, com o bailado “The Sun Still Burns Here”, em parceria com a coreógrafa Kate Wallich (e que chegou a dar-nos duas maravilhosas canções: a enigmática ‘Eye in the Wall’ e uma acutilante ‘Pop Song’), teve uma forte influência na forma como abordou este novo disco. “Fiquei ali a pensar em como me sentirei quando habitar estas canções e as apresentar ao vivo. Foi impossível não pensar nisso, depois de tanto tempo com este bailado, uma coisa tão física e que requer tantos ensaios e performances. Deu-me novos trilhos para percorrer”, defende Hadreas, “percebi, com o espetáculo, que conseguia manter em palco toda a magia da criação, essa coisa espiritual e transcendente que encontro quando estou sozinho a escrever. Estávamos todos juntos a fazer algo nascer e isso dinamitou a ideia que tinha de que precisava de estar isolado ou desapegado para conseguir criar”.

“Set My Heart on Fire Immediately” pode ser um disco equilibrado no que diz respeito às ideias que o norteiam e coeso na concretização, mas é também um disco que se desarranja canção após canção. É, igualmente, o álbum mais longo que Perfume Genius editou até ao momento, o que significa que, por um lado, as canções têm mais espaço por onde respirar, por outro, sentimos que há demasiadas ideias a conviver entre si. É tão ou mais desconcertante que “Too Bright” ou “No Shape”, tão enternecedor quanto “Put Your Back N 2 It” e “Learning”. Em canções como ‘Nothing at All’ ou ‘Your Body Changes Everything’ sentimos a redobrada confiança com que se atira à interpretação, no fogo lento de ‘Jason’, ‘Leave’ ou ‘Borrowed Light’ a sensibilidade que sempre teve à flor da pele e em ‘Some Dream’, ‘Moonbend’ e ‘On the Floor’ a constante vontade de experimentar novas abordagens. Em cada palavra cantada, sentimo-lo a perder o medo (e até alguma vergonha) de se entregar, sem reservas, a quem o ouve. Porque, no fundo, já percebeu que é ele quem está ao leme. “Levei muito tempo até conseguir escrever uma canção sem me sentir surpreendido por ela. Agora, sento-me, digo que vou escrever uma canção e não duvido de mim próprio. Vá, talvez só um pouquinho.”

Publicado originalmente no Expresso em 2020

  • Os melhores de 2020. Fiona Apple voltou para ajustar contas em “Fetch the Bolt Cutters”

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    Na reta final de 2020, recordamos os melhores álbuns internacionais do ano para a equipa da BLITZ. "Fetch the Bolt Cutters", de Fiona Apple, ficou em primeiro lugar. Tomando inspiração na sua residência em Venice Beach, Los Angeles, na meditação Vipassana, na nomeação do juiz Brett Kavanaugh, em Kate Bush e numa personagem de Gillian Anderson, Fiona Apple regressou com 13 canções de confronto e ajuste de contas