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Paul McCartney em 2020

Mary McCartney

Aos 78 anos, Paul McCartney fez um álbum sozinho. Não é só tocante, é um grande disco

O confinamento de Paul McCartney foi, muito provavelmente, melhor do que o nosso. Deu para tratar das cenouras, plantar árvores e fazer um dos melhores álbuns da sua carreira. Em “McCartney III”, o veterano toca todos os instrumentos e prova que há poucos, como ele, a tratar as canções com este carinho e este cuidado

É em “Pretty Boys”, sobre terna guitarra acústica, que Paul McCartney revela a idade que carrega não apenas nos ombros, mas também na voz: o peso dos seus 78 anos sente-se sobretudo quando entoa a frase “let me take my best shot”. Mas os anos que adornam em tons de sépia uma garganta que já foi resplandecentemente dourada não retiram nobreza a este Sir do rock, antes pelo contrário: conferem-lhe aquela dimensão extra de humanidade que às vezes parece escapar a certos mitos e lendas.

Macca é homem da mesma “colheita” de 1942 que nos deu também Country Joe McDonald, John McLaughlin, Barbara Lynn, Graham Nash, Carole King, John Cale, Barbra Streisand, Brian Wilson, Arthur Brown, Gilberto Gil e Roger McGuinn, para citar apenas artistas que continuam do “lado de cá”. Mas é inegável que o ex-Beatle conseguiu ter uma carreira bem mais prolífica do que a de qualquer outro dos seus pares da sua idade, fruto de uma honesta dedicação que, como revelou em entrevista à Loud and Quiet, se mantém inalterada desde que se lembra: “Quando eu era um miúdo, tudo o que queria fazer era ligar uma guitarra a um amplificador e levantar o volume para obter aquele arrepio e isso ainda se mantém. Não se trata tanto de procurar algo novo, mas antes de andar constantemente em busca de algo para fazer que me mantenha afastado das ruas”. À frescura de ideias, portanto, McCartney adiciona ainda aquele tão subtil toque de humor, britânico, certamente, que o distingue de outros veteranos porventura mais amargos, como Bob Dylan, apenas um ano mais velho e igualmente incapaz de estar parado. Aliás, há que sublinhar que em toda a sua estranheza, 2020 foi, ainda assim, um ano em que tanto Dylan como McCartney nos deram novos discos...

III é, tal como McCartney, lançado em 1970 em vésperas dos Beatles se despedirem do mundo com Let It Be, e McCartney II, disco de 1980 que surgiu na sequência da dissolução dos Wings, fruto de trabalho solitário no estúdio. É importante não esquecer que Paul McCartney foi, juntamente com os seus companheiros dos Beatles e sob orientação de George Martin, um pioneiro a encarar o estúdio não como uma extensão do palco, mas antes como laboratório de experimentação que possibilitava, graças à tecnologia multipistas, que um músico proficiente em vários instrumentos, como sempre foi o seu caso (e lembrem-se, se fizerem favor, da piada de John Lennon: “Ringo Starr melhor baterista do mundo? Ele não é sequer o melhor baterista dos Beatles!”), gravasse sozinho. “O denominador comum”, explica Macca, referindo-se ao que liga estes três álbuns, “é que de repente dei por mim com muito tempo livre. Depois dos Beatles se separarem, repentinamente fiquei com muito tempo e sem um plano particular em mente. E depois quando os Wings se separaram algo semelhante sucedeu. E comigo, quando eu tenho muito tempo livre, a minha situação recorrente é: ‘Bem, já que é assim escreve e grava – é algo que se pode fazer quando se tem tempo livre’. Desta vez algo similar aconteceu, mas o que travou tudo foi a pandemia. Deveríamos ter feito uma digressão europeia este ano, mas depois a Itália teve o problema do vírus logo muito cedo, e gradualmente todos os outros concertos, incluindo Glastonbury que deveria ter sido o culminar da digressão, foram cancelados. Portanto nesse momento pensei: ‘O que é que vou fazer?’ E normalmente é nisso que acabo por cair – escrever e gravar”.

Ainda bem! A humanidade sente-se não apenas no grão mais pronunciado da voz de Paul, mas também na liberdade e leveza dos temas, no facto de ser um disco que versa, essencialmente, sobre o amor, e na muito clara sensação de que este é um trabalho que resulta da vontade de alguém se divertir, sozinho em estúdio, sem pressões de espécie alguma. E sem expectativas, também. “Este disco”, confirma McCartney, “tem a ver com a liberdade e com o amor. Há uma grande variedade de sentimentos nele, mas eu não procurei que o disco fosse um registo que mostrasse como me sinto neste momento. Os velhos temas continuam lá, o amor e o optimismo. ‘Aproveita o dia’ – sou eu. E essa é que é a verdade”.Este novo álbum dispensa arranjos grandiloquentes, com os microfones a captarem, sobretudo, instrumentos acústicos ou os eléctricos que soam mais intimistas, talvez por estarem ligados a pequenos amplificadores, talvez por serem tocados de forma mais confessional, menos, vá lá, rock and roll – escute-se, por exemplo, a tocante “Women and Wives”, um recado para os tempos.

Ainda assim, depois de um pequeno almoço bem tomado, ou talvez após se atirar às sobras da noite anterior feito de um qualquer repasto sofisticadamente elaborado pela sua filha Mary – fotógrafa que além de ter cuidado das imagens que acompanham esta edição, replicando o papel que em tempos foi desempenhado pela sua mãe, Linda, é igualmente, assegura McCartney, uma excelente cozinheira –, o veterano músico ainda é capaz de nos obrigar a bater o pé, como tão bem demonstra em “Lavatory Lil”, que bem poderia ser uma faixa dos White Stripes se Jack White a tivesse gravado após uma semana inteira a ouvir Abbey Road.

Mas é o tema seguinte, “Deep Deep Felling” que, nos seus gloriosos 8 minutos e meio de honesta e incondicional entrega na forma como canta o impacto físico do amor, que funciona como centro de todo o projecto: trata-se de uma faixa mais livre, no sentido em que não segue uma estrutura convencional, com McCartney a puxar de todos os seus argumentos – o de músico aventureiro, capaz ainda de se atirar para fora de pé, o de melodista imaginativo, o de auto-produtor que ainda gosta de testar novas ideias, aqui manifestadas, por exemplo, nos arranjos de vozes, na atmosfera esparsa. “Queria que o tema durasse para sempre. É um bocado indulgente e isso preocupou-me um pouco. Pensei que precisava mesmo de a encurtar, mas mesmo antes de me atirar a essa missão, escutei-a e pensei: ‘Sabes uma coisa, gosto disso, não lhe vou mexer’.

Registe-se ainda o tom folky de “The Kiss of Venus” ou sobretudo a poderosa faixa final, “Winter Bird / When Winter Comes”, que emparelha com a abertura de “Long Tailed Winter Bird”, funcionando como uma espécie de moldura para todo o projecto. Não há como não acreditar em Paul quando ele canta que precisa de consertar a vedação porque duas jovens raposas têm andado por ali, que precisa de escavar um rego ao pé do canteiro das cenouras ou que precisa de arranjar tempo para plantar umas árvores. O tema foi originalmente gravado numa “sobra” de estúdio numa sessão com George Martin, mas sem intervenção direta do falecido produtor, por alturas das sessões de Flaming Pie, nos anos 90, só com uma guitarra, como se o músico estivesse a anotar uma lista de tarefas que precisasse de executar quando regressasse a casa. E essa é, no fundo, uma ideia muito presente neste disco gravado durante o confinamento: a sensação de lar, de que este é o produto de um homem com a vida resolvida, que passava as tardes no estúdio a gravar e depois descia para a cozinha onde a filha e a sua família se reuniam em torno de uma mesa cheia de gente e o avô podia mostrar aos netos a música em que tinha estado a trabalhar: “isto foi o que fiz hoje”.

Apesar de ter sido feito de forma solta e despreocupada, III motivou, ainda assim, uma imaginativa campanha de marketing, pensada para estes tempos. Inicialmente programado para ser lançado a 11 de Dezembro, o disco acabou por ser atrasado uma semana, com Macca a ceder o seu “slot” no calendário a Taylor Swift para que ela pudesse apresentar o álbum Evermore sem ter que repartir atenções com um dos seus mestres. Depois, em cidades como Londres, Los Angeles, Toronto, Berlim, Tóquio, Paris, Rio de Janeiro e, pois claro, Liverpool, surgiram murais com os títulos das onze canções do alinhamento, um excerto da tablatura e um QRcode que desbloqueava mais informação e um desafio, lançado a músicos de todo o mundo, para que criassem eles mesmos versões dos temas então revelados. Tudo isso foi comunicado no Facebook do artista com as versões a serem reunidas através de uma plataforma própria, criada por Paul em conjugação com a sua editora, a Universal. Uma forma de Paul se ligar aos fãs, de promover o seu trabalho, obviamente, mas também de desmistificar esta coisa das canções, como se quisesse dizer que é igual aos seus fãs, que é, afinal de contas, tão mortal como qualquer outro.

À Loud and Quiet, McCartney confirmou que poderia escrever uma canção todos os dias, se quisesse: “De certa maneira, acabo por tocar uma coisa ou outra todos os dias. Um amigo meu disse: ‘Guitarras é o melhor’. E, sinceramente, são mesmo. São ótimas. É possível formar uma boa amizade com um pedaço de madeira e metal. Sempre tive a sorte de mesmo em miúdo ter uma, e quando o mundo está contra ti, podes sempre correr para um canto com a tua guitarra e tornar tudo melhor. Essa é a magia da música, porque nos chega vinda de lado nenhum. Às vezes ‘cai-me a ficha’ e eu penso: ‘Isto é ótimo, porque eu realmente aprendi uns acordes, e consigo mesmo meter-me no meio deles.’ Ainda me recordo de há muito tempo ser difícil para mim tocar alguns. E no outro dia pensei, ‘Não, afinal sou capaz de me mexer entre acordes. Estou a ficar mesmo bom nisto.” O tempo, Paul, tem dessas coisas, não é? Quando alguém faz vida da sua arte e mete a sua vida dentro da sua arte, mesmo quando pensa em coisas mundanas como vedações ou canteiros de cenouras, o mais provável é tornar-se mesmo bom no que cria. E já ninguém tem dúvidas de que Paul McCartney é mesmo bom: a escrever canções, a tratar da terra e da família. A viver.