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101 canções que marcaram Portugal #47: 'Missing You', pelos Sheiks (1966)

Duraram apenas dois anos mas continuam inscritos como um dos conjuntos que mais marcaram a década de 1960. Além de terem composto grandes canções, eram magnéticos e a sua música era elegante. Nunca se livraram do cognome de Beatles portugueses, mas ajudaram Portugal a sintonizar-se com o resto do mundo. Esta é a 47ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Missing You'
Sheiks
(1966)

Orgulhosamente sós, proferiu Salazar em 1965, quando teimava em manter autoridade sobre os territórios da África lusófona, em sentido contraposto a outros países colonizadores. E haveria de ser essa frase que estaria na base do fim de muitas bandas ao longo das décadas de 60 e 70 – o serviço militar e a (quase sempre inevitável) abalada para a guerra colonial. Não fora o caso dos Sheiks, que em muito se desassemelhavam de outras formações dessa época.

O ocaso dos Sheiks começou em 1967, quando Carlos Mendes resolveu abandonar a banda para retomar os estudos em arquitetura. Prosseguiriam ainda por alguns meses, deixando um lastro de inovação na música feita em Portugal. Tinham sido dos primeiros a não se conformar e a se sintonizar com o resto do mundo; por cá, quebrariam os preceitos do fado, do folclore e do nacional cançonetismo – numa atitude de rebeldia insuflada pelo cinema e pelos astros do rock&roll.

Nasceram nas Avenidas Novas lisboetas, os Sheiks, povoadas de edifícios de betão com traça tradicional e ruas largas, modernas, a inspirar um tempo novo que todavia demoraria décadas a chegar. Em frente à casa de Carlos Mendes, na Alameda Afonso Henriques, um grupo de adolescentes duplicava como podia e sabia as canções que ouvia na rádio ou no cinema.

Os Sheiks nasceram da amizade. Ajuntavam-se num banco de jardim, mas os seus horizontes eram vastos – os palcos que fizessem raparigas de cabelo engomado (de preferência loiras) suspirassem pelos galãs de porte aprumado e atitude rebelde. Os Beatles, pois claro, seriam o seu molde – e nunca se livrariam do cognome de Beatles portugueses.

Tornar-se-iam nos fab four de Lisboa – aqueles que serviriam de padrão para o yé-yé que despontava. Assumiam-se como músicos profissionais e o público fez-lhes a vontade. Passou a haver instrumentos para pagar e a consequente necessidade de muito tocar – que o depuro sacrifica as bolsas –, apesar de serem mais virtuosos na presença e no domínio vocal do que no virtuosismo enquanto músicos. Sobrava-lhes todavia uma atitude irreverente e sobretudo alegre – sem pinta de bad boys acabrunhados.

Lançariam a carreira com ‘Summertime’, um clássico de Gershwin, voz profunda de Mendes e acordes sussurrantes no início para dar o mote para a detonação enérgica da canção. A RTP estava acostumada a outras modas e os Sheiks chamaram a atenção. Apeteciam. Tinham um ‘it’. Eram magnéticos. Depois dos Sheiks, o mercado foi enxameado por centenas de conjuntos ventilados por estes Beatles à portuguesa.

Poderiam ter perdurado muitos mais anos. Os Sheiks, mesmo sem nunca terem gravado um LP, são, ainda hoje, tão frequentes que não se crê que aqueles dois anos tenham durado apenas dois anos. Entre ‘Summertime’, de 1965, até ‘That’s All’, de 1967, os Sheiks agitaram (o léxico confere) um Portugal já de si férvido. Mas as bandas não tinham então, invariavelmente, destino perene – quer pela guerra colonial que exigia rendição, quer por um mercado acanhado para absorver esta repentina erupção musical. Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Fernando Chaby e Edmundo Silva ajudaram a escrever uma outra revolução. Ajudaram Portugal a sair à rua, a não se contentar em estar orgulhosamente só. Ajudaram Portugal a sintonizar-se com o resto do mundo e a aperceber-se de que o futuro era já ali à frente.

A escolha do repertório era uma expressão de democracia. À falta de originais suficientes para alimentar um concerto, havia que selecionar covers de bandas originais anglo-americanas. Paulo de Carvalho era dissonante e teria preferido que os Sheiks ensaiassem Beach Boys, Stones ou os cantores negros da soul americana. Mas os Beatles, pela sua simplicidade harmónica, regiam a sua matriz.

‘Missing You’ é a canção dos Sheiks. Aquela que mais bem os define e que define o tempo musical pelo qual foram influenciados e que ajudaram a trilhar. Uma simetria sublime entre as vozes de Carlos Mendes e de Paulo de Carvalho. E um som fresco, com atmosfera das guitarras dos Shadows de Hank Marvin e uma cadência viva e irreverente.

O que faz de ‘Missing You’ uma grande canção e os Sheiks uma grande banda é sobretudo a sua elegância. Os Sheiks eram uma banda elegante, de músicos elegantes e com muito boa música já ouvida e apreendida. Sabiam ter personalidade quando compunham (como é o caso de ‘Missing You’), como sabiam mantê-la quando reproduziam canções que não haviam criado.

São supérfluos os exercícios conjeturais de se os Sheiks se poderiam ter aventurado fora de Portugal. Pois aventuraram-se brevemente. Em França, sobretudo. E sentiram que ‘Missing you’, que alcançou o top 10 gaulês, poderia ter sido a senha para a sua internacionalização, para a vanguarda da música portuguesa na Europa. Que não foi. Porque se os Sheiks tivessem driblado o seu destino, não teríamos tido Carlos Mendes e Paulo de Carvalho a solo. Teríamos de os ter partilhado e não teríamos muitas das canções que construíram a música portuguesa.

Os Sheiks, pela sua personalidade, fizeram Portugal descobrir o seu próprio rock, conhecê-lo e absorvê-lo. Foi a banda que, nos anos 60, deu a Portugal um outro ritmo e uma nova eletricidade. E fez à juventude conceber que a irreverência se poderia viver sem melancolia.

With this behavior of mine
I'll get the end of the line
And very soon i'll be true

Ouvir também: ‘Lonely, lost and sad’ (1966). Em todas as festas, um dos momentos mais expectados era o do slow. Este original dos Sheiks era uma canção para os pares dançarem quase estáticos, imersos em volúpia e utopia.

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