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101 canções que marcaram Portugal #46: 'A Gente Não Lê', por Rui Veloso (1982)

Depois de “Ar de Rock”, a dupla Veloso/Tê teve de percorrer um caminho periférico até encontrar terra firme comercial. ‘A Gente Não Lê’, desse período, é uma das mais belas canções que se criaram em português. Uma canção de embalar. Uma canção simples, em homenagem a gente simples. Esta é a 46ª de 101 canções que marcaram Portugal, rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'A Gente Não Lê'
Rui Veloso
(1982)

O que fazer depois de “Pet Sounds”? O que fazer depois de “A Night at the Opera”? O que fazer depois de “Sgt. Pepper’s”? O que fazer depois de um álbum perfeito? Depois de “Ar de Rock”, Rui Veloso e Carlos Tê tinham ainda muita obra para produzir e muito para dar à música portuguesa, mas ainda mais para fazer se não quisessem comparações com o álbum de charneira de 1980.

Em “Ar de Rock” pareciam ter dado tudo, como se aquelas canções magistrais fossem o imenso que poderiam ter dado tão só. Mas ‘a gente vai continuar’. E continuar dependia de retirar a tatuagem de rock n’roll de Rui Veloso. Dependia de mostrar que Carlos Tê era um inesgotável criador de canções, de melodias, e que Rui Veloso era bem mais do que um guitarrista virtuoso. O álbum “Fora de Moda” foi uma deceção. Porque não trazia uma grande canção, porque era difícil passar na rádio ‘A Minha Namorada Até Fala Estrangeiro’ ou ‘Estrela do Rock and Roll’. Porque ‘A Gente Não Lê’ não poderia ombrear com ‘Tainted Love’, dos Soft Cell, ‘Physical’, de Donna Summer, ou ‘Latin’América’, dos Jafumega, dentro de portas. O que fazer então? Viver dos créditos do estrondoso êxito anterior? Esperar por momentos de maior inspiração comercial?

“Fora de Moda” estava mesmo fora de moda no seu tempo. Não é um álbum incompreendido nem esquecido. É um álbum apenas sem canções sonantes ou mainstream. Com uma esmerada produção, um som cuidado e tudo o resto para dar certo, exceto não ter uma canção (uma que fosse) orelhuda. ‘A Gente Não Lê’ era a exceção do álbum, mas estava longe de fazer esquecer os grandes hits de “Ar de Rock”. ‘A Gente Não Lê’ é todavia uma das mais belas canções (letra/música/interpretação) que um artista português foi capaz de produzir.

“Fora de Moda”, bem como “Guardador de margens”, editado no ano seguinte, foram a vontade de Veloso/Tê infletirem a sua matriz – apesar de os blues estarem invariavelmente na génese de todas as suas composições. As canções que os fizeram maiores tiveram todavia de trilhar um caminho periférico até se encontrar terra firme. António Avelar de Pinho (da EMI; colega de Nuno Rodrigues na Banda do Casaco) talvez não se tivesse deixado impressionar com as cassetes da mãe de Rui Veloso se esta, em 1979, ao invés de canções rock, tivesse apresentado “Fora de Moda”.

Fica todavia para a história ‘A Gente Não Lê’. Produzida por Nuno Rodrigues, tinha o som entregue a Tó Pinheiro da Silva – que sabia o que fazia (e o que faria depois disso). Uma canção que seria revisitada pela minhota Isabel Silvestre com uma sonoridade mais tradicional e que poderia ter sido escrita direitinho para ela sem passar por Rui Veloso. Uma canção de embalar. Uma canção simples, em homenagem a gente simples. Uma canção que ganha corpo na letra soberba de Tê – um observador acutilante que conhece o seu povo, desde o heroinómano do Porto nos anos 70, o mago do bilhar ou o aventureiro português por terras da Índia.

Nesta canção, descreve a gente de Trás-os-Montes – que depende apenas de si, dos penedos e da sua fé para sobreviver. Gente que confia o seu destino a Deus. Gente que vive como viviam os seus avós, bisavós e toda a sua cronologia. Gente que nada é para além da sua aldeia. Gente que conta consigo, com a irmandade com a natureza, com os animais, com o destino. Gente que nada sabe de letras, que assina em cruz, que é sábia em colheitas, em comunhão com a terra e em resignação.

Era este o Portugal de Carlos Tê, em 1982. E como o dele, era o Portugal de 50 anos antes, de 100 anos antes, de 500 anos antes, de sempre. Poemas, romances, reportagens, crónicas, peças de TV escritas e descritas durante séculos – tudo compilado numa canção de breves minutos.

Carlos Tê e Rui Veloso formaram das duplas mais produtivas da música moderna em Portugal. E sempre souberam que caminhos haveriam de trilhar. Saíram do carril mas voltaram pouco depois à estrada do sucesso. Com aquelas letras, com aquela figura estranha que era Rui Veloso: ar enfezado, bigodinho, óculos redondos e caretas enquanto dedilhava acordes de blues.

Rui Veloso fez a carreira que se sabe. E fez álbuns, fez canções para todos: para a multidão, para o povo e para a crítica. É um democrata da música; nunca trabalhou para nichos mas assenta o seu sucesso, ainda hoje, como desde sempre: não na figura, não nas oitavas que consegue alcançar, não nos dotes de Eric Clapton, mas na composição, no seu Tê (que é o seu Ary, o seu Vinícius). Na originalidade que ambos conseguem criar, produzir, quebrar.

A ‘Gente Não Lê’ é porventura das letras mais sofisticadas de Tê, uma canção que perpassa gerações e que será atual para sempre – como retrato de um período demasiado longo que se viveu.

Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira

Ouvir também: ‘A Minha Namorada Até Fala Estrangeiro’. Bons riffs de blues, transversal a todo este álbum.

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