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Rebobinanços #11: “Licenced to Ill”, dos Beastie Boys (1986)

Misturar metal com punk e hip-hop é fácil? Não, não é, mas os Beastie Boys nunca foram uma banda de trilhar caminhos fáceis. Este é o décimo primeiro 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Começaram por ser a banda de abertura para Bad Brains, Dead Kennedys, Misfits ou mesmo Madonna, com quem fizeram uma tour pela América do Norte em 1985, um ano antes de lançarem "Lincesed to Ill". Ganharam notoriedade pela complexa inteligência nas suas opções musicais. Tinham um som muito cativante, muito bem pensado, desprovido de qualquer segunda intenção. Eram muito irónicos, tanto nas letras como na vida privada, segundo consta. Aliavam essa ironia a composições simples com ritmos também eles simples. Foi este o grande trunfo dos Beastie e foi desta forma que chegaram perto do grande público, que os imortalizou em tão pouco tempo.

Após entradas e saídas, foram três os homens que nos trouxeram a formação que sempre conhecemos. Michael Diamond, Adam Horovitz e Adam Yauch. Simplificando: Mike D, AD Rock e MCA. Melhor assim.

"Licensed to Ill" assenta em samples, onde os Boys espalham as suas letras. Bastaria dizer que este trabalho começa com a bateria de John Bonham e segue com guitarra de Tony Iommi para fechar aqui a crónica. Mas é óbvio que não basta. De todo. Há aqui pérolas que nunca mais acabam. "Rhymin & Stealin'" fala de ousadia: piratas dos tempos modernos que embarcam numa nave e aterrorizam idiotas nos sete mares. Um por todos e todos por um. Alexandre Dumas transformado em M.C. Arranque com tudo.

"The New Style". Mensagem rebelde. São os Beastie Boys a mostrar irreverência na sua postura. Eu sou o maior. Eu tenho dinheiro. E as vossas namoradas, acreditem, só me querem a mim. Sou eu quem domina a cena. Muita cerveja, muitas mulheres. Um estilo de vida em resumo.

Amor matreiro chega-nos pela mão de "She's Crafty". Mais uma vez com Zeppelin como fundo. Desta vez agarram no clássico "The Ocean" para trilhar caminho por uma história peculiar. A miúda espertalhona que se aproxima de mansinho e que, no fim, dá a estocada que arquitetou. Seduz, vai enrolando com os seus truques e depois fica com tudo. Enfim, o nome da música diz tudo.

Em "Posse in Effect" a banda mostra o seu lado mauzão. Maus hábitos são aqui descritos com uma naturalidade deveras banal. Aliás, se não se viver no limite nem se deve viver de todo.

"Slow Ride" tem uma letra muito psicadélica. Leva-nos por caminhos sinuosos, por becos e travessas, lugares em que a nossa mente não está habituada a navegar. Os Beastie Boys a mostrar que conseguem, também nas letras, ir bem longe. Musicalmente, a opção recaiu na mítica "Low Rider" dos War.

Música divertida é "Girls", Fala de um amor não correspondido. Na verdade, a miúda até se muda para bem longe só para não ter de "levar" com este 'sarna'. O ritmo é leve e fica facilmente no ouvido graças ao magnífico xilofone, uma grande ideia.

O ponto mais alto trabalho é, sem dúvida, "Fight For Your Right". O tempo assim o ditou. Rebeldia é o que melhor caracteriza este tema. A história de um teenager (talvez de todos na verdade) que se revolta contra os pais. Sente-se privado das suas liberdades, tem de viver as liberdades que lhe são impostas - impostas é mesmo o termo. Não aceita e, naturalmente, quer ter os seus direitos. É a mãe que não o deixa faltar às aulas e deita fora as suas revistas porno, é o pai que não o deixa fumar. Tem de usar o corte de cabelo que é ditado, o estilo de roupa que é determinado. Está tudo contra este adolescente que não gosta de se sentir preso. No fim de contas, só quer lutar pelo seu direito a poder ter escolha. Quer ter o direito a poder divertir-se à vontade. O seu direito à "Party". O videoclip é divinal.

Chega-nos com peso "No Sleep 'Till Brooklyn". Temos Kerry King, o lendário guitarrista de Slayer, um dos gigantes da cena. O riff é sacado aos AC/DC de "TnT": baixou-se o tempo, afinou-se aqui e ali alguns acordes, encaixa na perfeição. Sendo os Beastie, uma banda nova iorquina de gema, este tema é sempre um regresso a casa . A banda segue em digressão, mas o descanso só acontece quando retorna ao lar. Uma espécie de dever cumprido. Andam pelo mundo, mas é aqui que os corações ficam. É uma alusão também ao disco ao vivo dos Motorhead "No Sleep 'Till Hammersmith". Um retrato da vida na estrada, pé no pedal de cidade em cidade. Sempre sem dormir, está claro.

Em "Paul Revere" temos a história ficcionada de como os três elementos dos Beastie Boys se conheceram. Tudo começa com Ad Rock a fugir à polícia precisamente num cavalo com o nome da canção. Vai ao encontro de MCA, também este a braços com a justiça. Ambos decidem então fugir em direção à fronteira. No caminho, entram num bar onde encontram Mike D. Resolvem então, os três, assaltar o sítio. No fim, sacam o dinheiro e as joias a quem lá estava. Para completar, ainda levam duas miúdas e uma cerveja gelada.

Verdadeiro hip-hop temos em "Hold It Now, Hit It", que contém todos os ingredientes que um rapper precisa para criar um hino dentro do género. Ritmo básico, letras acerca de muita bebida, muito sexo e extremo consumismo. Os Beastie Boys eram os reis no seu tempo.

"Brass Monkey" não só é o nome de canção como também é um cocktail. Este é um dos grandes temas do álbum: muito funky, muito cool. É das canções mais reconhecidas dos Beastie Boys. Essencialmente, a letra fala-nos das várias formas de beber o cocktail, de todas a formas e feitios, e com todo o tipo de companhia.

'Slow and Low' foi inicialmente gravada pelos Run-D.M.C. e depois regravada pelos Beastie Boys. Velha escola de hip-hop a funcionar, como diz a letra: "Deixa fluir, deixa-te levar. Lento e baixo, esse é o ritmo". Magistral.

Já na hora da despedida, a banda brinda-nos com "Time to Get Ill". É uma despedida em grande. "Que horas são? É hora de ficar doente". Tudo pode ser explicado pelo (verdadeiro) nome da banda. Sim porque Beastie quer dizer "Rapazes entrando em Estados Anarquistas Rumo à Excelência Interior".

Em 1986, a revista Rolling Stone descreveu "Licensed to Ill" da seguinte forma: "Three Idiots Create A Masterpiece”. Concordo 50%. É, de facto, uma obra de arte. Quanto ao resto, a história mostrou o contrário.

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