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Da Vinci, pormenor da capa de 'Hiroxima (Meu Amor)'

101 canções que marcaram Portugal #45: 'Hiroxima (Meu Amor)', pelos Da Vinci (1982)

Antes de 'Conquistador', em 1989, os Da Vinci há muito que produziam música de outro tom, menos imediatista. Beberam o synth-pop do final dos anos 70 e fizeram do sintetizador a matriz para canções sofisticadas. “Hiroxima (Meu Amor)” mantém-se como uma canção atual, a remeter para uma época de eversão do rock português. Esta é a 45ª de 101 canções que marcaram Portugal, rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Hiroxima (Meu Amor)'
Da Vinci
(1982)

Vêm de há séculos as ligações de Portugal ao Oriente – por razões comerciais, económicas ou de puro fascínio por uma cultura em quase tudo diferente da sua. O Japão haveria de ser passagem de exploradores portugueses e Nagasaki fora corredor para as aventuras vividas até por Fernão Mendes Pinto.

Os Da Vinci ficariam conhecidos por uma canção patriótica, “Conquistador”, mas a Hiroshima de que falavam em 1982 não remetia para a época dos descobrimentos e muito menos para agostos passados pelos exploradores acompanhados de concubinas.

A canção era um produto de um tempo que se vivia em 1982 – político e musical. Em 1982 vivia-se um tempo novo na música feita em Portugal, ainda a querer desintoxicar-se do que fora a vaga de rock que tinha alastrado o país. Buscava-se outros ritmos, influenciados por sucessos anglo-saxónicos e o synth-pop, alavancado por sintetizadores, baixos sonantes, percussões ásperas e vozes distorcidas, serviu a Pedro Luís Neves, mentor dos Da Vinci, como tónico para criar uma sonoridade em emersão em Portugal. Para mais, vivia-se a iminência da implosão de uma guerra nuclear: Reagan, Thatcher e Brejnev abriam telejornais e conflitos travadas no Afeganistão afligiam o mundo, receoso de um combate nuclear. Em 1945, as bombas de Nagasaki e Hiroshima poriam fim à II Guerra Mundial, mas iniciariam um duelo que se estenderia até ao aperto de mão que selaria o degelo entre os líderes soviético e americano em 1988.

Os Orchestral Manoeuvres in the Dark, embalados pelo temor que corria o mundo, criaram “Enola Gay”, o bombardeiro americano que lançou a bomba atómica sobre a cidade japonesa e os Da Vinci fizeram o mesmo dois anos depois, influenciados pela banda futurista britânica e sobretudo pela onda de choque diplomático mundial. Era este o caminho da pop moderna que a banda escolhera trilhar. Na sua estreia, o single “Hiroxima (Meu Amor)” alcançaria o disco de prata, com mais de 25 mil unidades vendidas, e os Da Vinci, a par com os GNR ou a Sétima Legião, inscrever-se-iam como um dos emblemas do pop-rock futurista feito em Portugal.

Com raras exceções, o género nunca tivera sucesso mainstream (Soft Cell, Depeche Mode ou Yazoo foram algumas das exceções), mas moldaram entusiastas de uma música estranha e depurada. Evidenciava-se então o electro-pop e os neo-românticos, numa cadência mais dócil para rádios e ouvidos menos armados. O fascínio pelo universo nuclear e pela guerra fria teria sido ignorado se “Hiroxima (Meu Amor)” não fosse uma grande canção. Era sobretudo uma grande canção. A letra monocórdica era apenas um acessório para os acordes descompassados e elegantes e sobretudo para o magnetismo de Iei-Or, a vocalista. O seu sigmatismo tornou-se uma sua insígnia e uma valência na sua imagem excêntrica e enigmática.

Sete anos depois, os Da Vinci, convencidos pela sua editora, concorreram ao Festival RTP da Canção com a convicção de que poderiam representar Portugal na Europa com um tema triunfante. Ricardo Landum, mentor anos mais tarde da light music (expressão do próprio) e guitarrista da banda, alinhavou a melodia e Pedro Luís Neves escreveu a letra de “Conquistador”. A temática patriótica e o ritmo apologético bastou para os Da Vinci vencerem o Festival e se tornarem numa referência das músicas portuguesas omnipresentes e que perpassam gerações.

No auge da sua fama, enfadaram-se da exposição mediática. Os anos 90 viram surgir as revistas sociais e a intimidade dos artistas passou a ser mais exposta; era exigido que fosse exposta. Mas a génese dos Da Vinci era a música, as canções, e a encenação que a trajava. Nada mais. E retiraram-se. Não quiseram sucumbir à alcoviteirice. Não estariam dispostos a ceder às ditaduras virtuais que aí vinham e nem teriam porventura temperamento para o fazer. Desdenharam do novo paradigma que passou a vigorar. Escolheram a sua deserção numa fase em que consideravam ter feito já tudo o que haviam planeado. No topo e não em decadência. A sua rotina passou a ser a da moderação, do esoterismo e do tempo não contado.

Pedro Luís Neves continua a compor e a produzir música e Iei-Or dedica-se à literatura com outro pseudónimo para um outro lado seu, tal como fizera na música. Não fazem tenções de regressar à pop futurista com que conviveram e que ajudaram a registar em Portugal. Contribuíram para inscrever nesses quinze anos uma pop elegante e sofisticada – que fazem desta hoje uma das bandas com uma maior história de orgulho para contar.

Hiroxima, meu amor
Ai, como a noite faz lembrar
Ai como Agosto foi chorar

Ouvir também: “O Vento Mudou” (1995), uma versão atmosférica do hit de Eduardo Nascimento, num álbum, ‘Oiçam’ que homenageava também José Mário Branco.

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