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Sault

Chamam-se Sault, não dizem quem são, mas é deles a música mais importante feita em 2020

São maioritariamente ingleses (quase de certeza) e vamos ouvir falar mais deles em 2021 (dedos cruzados). A banda que esconde a cara na era da exposição total criou a banda sonora que reflete um tempo de ansiedade, de combate, mas também de abandono e celebração. Quem são os Sault (há pistas!) e porque é que precisamos tanto deles?

Até Mick Fleetwood faz vídeos virais para o Tik Tok. As estrelas já não sabem viver sem rede e estes tempos já não se definem apenas com hashtags como #blacklivesmatter ou #metoo e o #MeMeMeMe que prolifera nas redes sociais traduz aquela que bem poderá ser a mais valiosa moeda do presente: a atenção. Os Sault, no entanto, só querem que ouçam (e, vá lá, dancem) a sua música. E isso é o mais radical gesto artístico de 2020.

No corrente ano, em que muitos artistas optaram por adiar a edição de novos trabalhos para o próximo ano porque estão actualmente impedidos de os promoverem ao vivo —e nomeie-se apenas um exemplo: Kendrick Lamar, que chegou a estar anunciado para o primeiro dia da edição cancelada do Nos Alive neste último Verão e que não lança novo trabalho desde 2017 (ele que tinha tido novos discos nos escaparates tanto em 2015 como em 2016), era suposto ter apresentado novo álbum antes da digressão que tinha planeada e que foi adiada para 2021 — os Sault lançaram não um, mas dois novos álbuns, repetindo a “estratégia” que já em 2019 tinham delineado ao editarem dois registos de longa duração, 5 e 7.

Untitled (Black Is) foi lançado digitalmente em 19 de Junho e o mais recente Untitled (Rise) revelou-se ao mundo precisamente três meses depois, a 18 de Setembro, numa precisão que indica rigoroso planeamento. Algumas semanas antes, a 7 de Setembro, uma série de minimais posts na rede social Instagram revelava a capa do álbum e excertos de cada uma das suas canções, replicando idêntico gesto de 13 de Junho que serviu para mostrar o material do primeiro “volume” do (para já...) díptico Untitled. Um tweet do dia anterior, 12 de Junho, representa, até à data, a mais expansiva e reveladora “declaração” da banda.

“Apresentamos o nosso primeiro álbum ‘Untitled’ para assinalar o momento presente em que nós, enquanto Pessoas Negras e de Origem Negra, estamos a lutar pelas nossas vidas. Descansa em Paz George Floyd e todos os que sofreram com a brutalidade policial e o racismo sistémico. A mudança está a acontecer... Estamos focados. Sault x”. Em primeiro lugar, sem que à data fosse ainda possível descodificar totalmente as palavras do misterioso grupo, nesse tweet – que é aliás o último de uma curta série de apenas seis posts nessa rede em que os Sault contam com uns meros 5 mil seguidores e onde, já agora, não seguem ninguém – já indicavam que (Black Is) seria apenas o primeiro dos seus projectos Untitled. Três meses depois, (Rise) revelava mais um conjunto de 15 canções, com um recorte emocional diferente, mais celebratório porventura. Mas nada indica que o presumível colectivo se quede por aqui: ainda há tempo para transformar Untitled num tríptico de 2020.

Curiosamente, pode dizer-se que o anonimato dos Sault tanto lhes tem rendido inquisitiva atenção por parte de importantes meios de comunicação, como o Guardian, NPR ou a Variety, por exemplo, como talvez ajude a explicar o ruidoso silêncio de outras publicações de referência, como a Pitchfork (que só lhes dedicou um curto texto sobre a faixa “Fearless”) ou a Rolling Stone e Spin, que parecem ter ignorado totalmente dois álbuns que, pelo menos em teoria, assentariam como luvas nos seus perfis editoriais. Parece claro que o anonimato – ou talvez seja melhor descrever a atitude dos Sault como “reserva” – resulta de uma postura conceptual que pretende privilegiar a música e a mensagem que carrega e não os “autores” que a criam, como se quisessem dizer que a sua voz representa um evidente clamor global que marca este combativo presente.

Mas sabem-se já algumas coisas: a Forever Living Originals é a editora britânica independente que lança os álbuns do grupo e que no seu catálogo conta ainda com trabalhos de artistas como Little Simz, Cleo Sol e Kid Sister. As curtas fichas técnicas dos quatro álbuns já lançados apontam Inflo, alter-ego artístico de Dean Josiah Cover, como o produtor. E nessa condição, o seu currículo é assinalável, listando nomes como os Kooks, Tom O’Dell, Karen O, Jungle, Belle & Sebastian (!!!), Little Simz, Michael Kiwanuka, Little Sister, Jack Peñate ou Cleo Sol. Todos recorreram aos seus óbvios talentos de produção e/ou composição, duas valências que por vezes hoje se confundem, tal a forma como se trabalha em estúdio. O jornal Chicago Reader deu-se ao trabalho de analisar a meta-data da música que os Sault lançaram nas plataformas de streaming e concluiu que Dean Josiah Cover e Cleopatra Nikolic, aka Cleo Sol, são apontados como os principais autores das canções. Por outro lado, como também sublinha a publicação americana, a voz da rapper de Chicago Little Sister, notória graças a “Pro Nails”, tema do seu álbum de 2009, Ultraviolet, que contava com a participação de Kanye West, é igualmente perceptível em temas como “Black Is” sendo aliás creditada com a co-autoria de seis dos temas do álbum.

Os Sault são, portanto, e pelo menos, Dean Josiah Cover, Cleo Sol e Kid Sister. Há rumores que circulam entre fãs na Internet que levantam a possibilidade dos músicos dos Sault serem o núcleo da banda que acompanha Michael Kiwanuka ao vivo, o que ajudaria a explicar a presença da estrela britânica no alinhamento de (Black Is) (o homem de Love & Hate é creditado em “Bow”). Em Fevereiro deste ano, nos últimos concertos que fez antes de ter que reagendar a sua digressão, incluindo as apresentações que tinha marcado para Portugal, para 2021, Michael Kiwanuka fazia-se ladear por músicos como Michael Jablonka na guitarra, Steve Pringle nos teclados, Alex Bonfanti no baixo e Graham Godfrey na bateria. Serão eles os responsáveis pela económica música que se escuta nos álbuns dos Sault?

Musicalmente, pode dizer-se que tanto Untiled (Black Is) como a sua “sequela” Untitled (Rise) vivem de uma espécie de depuração da música negra das últimas décadas: há disco e house, funk, hip hop, afrobeat e R&B no ADN do som do grupo, com todas essas coordenadas a serem combinadas numa moderna abordagem laboratorial de estúdio, em que as fundações rítmicas dos temas surgem quase sempre adornadas melódica e harmonicamente de forma bastante minimal, com guitarras, cordas, sintetizadores ou pianos. A ideia parece ser sempre que a música não ofusque as mensagens.

No primeiro dos dois registos que lançaram este ano, os Sault tomaram as dores do movimento #BlackLivesMatter como principal inspiração, ecoando a mesmas mensagens de protesto que fizeram a dar altura estremecer as ruas da América na sequência das mortes de George Floyd ou Breonna Taylor: ““The Revolution has come (Out The Lies) / Still won’t put down the gun (Out the lies)” é uma das primeiras declarações num disco em que o orgulho negro é ostentado quase como um acto de resistência: “We all know black is beautiful / You know, well now you do / Black is excellent too / In me, in you / Black is shiny and new / Black is older than earth / All at the same time”, canta-se no tema que dá título ao primeiro dos registos.

O tom altera-se subtil e ligeiramente em Untitled (Rise). O espírito de combate mantém-se, a vontade de protestar continua subjacente à mensagem, mas o álbum parece afirmar que mesmo perante a adversidade não se pode esquecer a celebração. “I Just Want to Dance” é o melhor exemplo disso mesmo, uma prova de que a raiva pode ser apaziguada na pista de dança: “I just wanna dance / Dance, dance, dance / Makes me feel alive / I get kinda mad / Mad, mad, mad / We lost another life” escuta-se antes de um afirmativo “You won’t see me cry / No, no, no”. Dançar é um acto de resistência. Dançar à beira do abismo é outra forma de vencer. Logo depois, no tema “Street Fighter”, garante-se: “They can’t stop us / Nothing like us / It’s not over / Till they hear us now”.

Face ao sucedido com as eleições americanas, não se pode deixar de enquadrar a música dos Sault com um vasto movimento de protesto que pode, de facto, e como a banda prometia no seu tweet de Junho último, estar a fomentar ou pelo menos a reflectir a mudança. Quando a música regressar aos palcos, desejavelmente já em 2021, talvez tenhamos a oportunidade de ver e ouvir os Sault ao vivo, agora que a sua reserva garantiu que é na música que as atenções se devem concentrar. Na música e nas palavras e ideias que ela contém. E se os Sault de repente fizessem a primeira parte dos concertos que Michael Kiwanuka reagendou para Maio de 2021 (dia 20 no Campo Pequeno, em Lisboa, dia 21 na Super Bock Arena, no Porto)? Mantenham-se atentos às cenas dos próximos capítulos: esta história pode não ter título, mas também, e isso é certo, não tem igualmente fim à vista.