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Capitão Fausto

24 horas na vida dos Capitão Fausto, a banda que em 72 minutos quis fazer como os Pink Floyd. “É um filme sobre música e uma banda a tocar”

Deram no Campo Pequeno um dos grandes concertos do início de 2020 mas, de repente, a euforia transformou-se em apreensão com a chegada da pandemia. Com ideias mais arejadas, deram um passo em frente e atiraram-se à rodagem de um filme-concerto, sem público, à moda de “Live at Pompeii” dos mui estimados Pink Floyd. “Este filme não é uma resposta aos problemas – os problemas continuam. Somos nós a encontrar uma forma de chegar às pessoas”, contam os Capitão Fausto em entrevista à BLITZ

Em setembro deste ano, ainda com o calor do seu lado, os Capitão Fausto rumaram à praia de Melides, na costa alentejana, com uma missão bem-definida e um plano suficientemente aberto: gravar um filme-concerto. O resultado é apresentado esta sexta-feira (dia 20), às 20h00, numa sessão única em 70 salas de cinema do país: chama-se “Sol Posto”, integra três atuações gravadas ao vivo em três momentos distintos do dia crepúsculo, noite e alvorada – e é descrito por Domingos Coimbra, baixista da banda, como “um filme sobre música e uma banda a tocar”.

Qual foi o momento zero de “Sol Posto”, a primeira pedra?
Dadas as circunstâncias, quisemos arranjar uma forma de conseguir canalizar a nossa música para as pessoas. Tem sido possível dar concertos, mas não consegues propriamente andar a planear digressões e chegar a todas as cidades onde as pessoas querem ouvir a tua música. Então, quisemos associar-nos à já clássica, mas nem sempre feita hoje em dia, ideia de um filme-concerto. [Ao longo deste ano] falou-se muito sobre live streaming – nada contra, e é super importante encontrar novas soluções –, mas há sempre problemas de qualidade, não tem sido uma coisa muito apelativa… Embora tenha tido várias vantagens, não é certo que seja um momento ganhador – na verdade existe um modelo ganhador, que é dar concertos. (risos) Achámos por bem dar um passo extra e, em vez de darmos um concerto em direto, fizemos um filme-concerto. É uma banda a tocar, é música, mas conseguimos transportar esse lado para o do cinema, dar um toque e um cuidado que o live streaming não consegue dar.

Passaram da teoria à prática em quanto tempo?
Na verdade, foi uma operação-relâmpago. Decidimos que queríamos fazer este filme-concerto em agosto. Em três meses e meio conseguimos pôr uma longa-metragem pronta: planear durante um mês, gravar durante uma semana, numa residência artística em Melides, e depois tratar de toda a pós-produção de som e imagem, e da maneira de fazer chegar isto às pessoas.

Sabiam perfeitamente o que queriam fazer?
Fomos percebendo, à medida que fomos fazendo isto, que estávamos muito verdes na arte que é produzir um filme, portanto fomos aprendendo com o processo. Sabíamos que era para ser um filme-concerto e queríamos fazer uma passagem pela nossa discografia não tão clássica. Dar vida a algumas canções e versões que não costumam figurar tanto nos nossos concertos normais. A partir daí a ideia foi construída: o Ricardo Oliveira, o realizador, tratou de arranjar uma narrativa à volta do filme: [o conceito é] a passagem do tempo. Queríamos que o concerto não fosse num sítio estanque, por isso fomos à procura de vários sítios em Melides para fazer as atuações, acabando por aliar a essa ideia a passagem do tempo, e é por isso que o filme acaba por acompanhar os vários estágios do dia e a da noite. Houve uma simbiose e, a certa altura, isto já é uma narrativa. O Ricardo fez um primeiro alinhamento, um segundo, corrigimos sincronismos. A grande experiência foi ver o filme numa sala de cinema; foi aí que sentimos que o que tínhamos feito elevava-se ao que tínhamos imaginado. Nunca pensei ver uma coisa nossa num ecrã tão grande. (risos)

“Se há altura para tentar, para continuar, é agora”

Há um cuidado especial na experiência auditiva. O som não é demasiado ‘live’…
Pode enganar por ter sido polido. Tivemos um cuidado muito maior. A ideia original parte de conseguirmos fugir aos problemas técnicos que advêm do live streaming. Tal e qual os Beatles, pusemos meias nos microfones por causa do vento, levámos Alvalade, o nosso estúdio, para lá. Mas aquilo somos nós a tocar em direto; fizemos takes diferentes em dias diferentes, mas o resultado que se está a ver ali é a banda a tocar. O som foi polido e tratado como se de um disco fosse, por isso é natural que se sinta esse detalhe, mas todos os sons que se ouvem são feitos na altura. Tentámos muito preservar o lado da performance dos músicos.

Este concerto é diferente daquele que fariam, neste momento, num palco?
Quisemos fazer algo diferente porque a maior parte dos concertos têm limitação de tempo. Aqui também há uma limitação de tempo, mas algumas daquelas músicas não teriam espaço nos nossos atuais alinhamentos e sentimos que lhes fizemos justiça. Não tocávamos a ‘Tui’ há anos, a própria versão que fazemos da ‘Gazela’ nunca tinha tocado ao vivo. Apeteceu-nos estendê-las e dar-lhes um lugar que nunca tiveram em concertos nossos. Se tocarmos num festival com malta aos saltos, há um cuidado diferente no alinhamento. Ali estamos a tocar para nós próprios. Podemos arriscar de uma maneira diferente. Pode até ser um bom cartão de visita para canções não tão comuns.

É inevitável que, comparando com um concerto ‘normal’, acabe por surgir um lado mais espacial, mais panorâmico?
Isso vem da nossa costela floydiana, de querer fazer um tributo ao concerto dos Pink Floyd em Pompeia [em 1971]. O Ricardo Oliveira fez o videoclip do ‘Pontas Soltas’, o documentário sobre o “Dias Contados” e agora o “Sol Posto”, e desde miúdos que temos a ideia de fazer [com ele] qualquer coisa nesta onda. A primeira parte do filme é quase um piscar de olho à ideia dos travellings do “Live at Pompeii”. E pareceu-nos também que o “Pesar o Sol”, o nosso segundo disco, está de mãos dadas com essa ideia mais espacial. Não queríamos, contudo, que o filme ficasse só na divagação sónica, por isso demos igualmente espaço a outras músicas mais conhecidas. Que não fosse só uma viagem psicadélica, que é um lugar comum.

A situação de pandemia pela qual estamos a passar faz com que se questione a pertinência de se ter uma banda?
Cada vez mais se começa a perceber que é nas alturas mais negras que percebemos o valor civilizacional que tem a cultura. A cultura para ajudar na educação para a empatia, para estarmos em contacto com os temas fraturantes, ou para ser simplesmente um escape. Na verdade, somos um grupo extremamente privilegiado porque somos uma banda de sucesso do centro de Lisboa, temos a noção do que isso significa, mas ao mesmo tempo é muito importante continuar precisamente nesta altura. Se há altura para tentar, para continuar, é agora, nestas alturas divisivas. Temos um papel nisso, mas começa-se a perceber que é muito difícil continuar sozinho. Tem de haver uma ajuda, um apoio, e parece-me muito óbvio que há medidas que têm de ser tomadas: é preciso apoiar o setor, não apenas dos músicos, das estruturas técnicas, das equipas – todas elas têm uma função muito maior na sociedade do que, agora, durante uns tempos ficámos a achar. Nunca tremi por um segundo – volto a dizer que falo de uma posição de privilégio –, nunca questionei a natureza de ter uma banda porque ela continua mais pertinente do que nunca.

Os Capitão Fausto deram, no Campo Pequeno (Lisboa), em março, o último grande concerto antes do confinamento de março. Alguma vez pensaram ter tantas saudades da estrada?
Foi possível voltar a dar alguns concertos, mas não conseguimos fazer digressões completas. É muito importante que consigamos manter esta narrativa de que é seguro consumir cultura, e sempre que possível devemos fazê-lo desde que se mantenham as condições de segurança. Quando tal se revelar impossível – esperemos que não – também acho que é importante este setor ser mais apoiado do que está a ser. Quando falamos em cultura não estamos a falar daquelas profissões que desaparecem de repente porque, com a tecnologia, conseguimos substituí-las. Não é uma coisa funcional, é algo fulcral civilizacionalmente. Claro que toda a gente está cheia de vontade de voltar à A1.

A ausência de palavras no filme também é uma maneira de dizer: “Estamos todos a fazer muito barulho no mundo, vamos lá calar-nos durante 72 minutos?”
Não foi esse o nosso objetivo. (risos) Eu pensaria mais desta forma: a ideia de não falarmos faz focar o filme no que sabemos fazer melhor, que é tocar. É um filme sobre música e uma banda a tocar. Sente-se bastante o lado real. Este filme não é uma resposta aos problemas – os problemas continuam – mas é o nosso ‘take’ em encontrar uma forma de chegar às pessoas.