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101 canções que marcaram Portugal #44: 'Dançam no Huambo', pelos Kussondulola (1995)

Foi em 1995 que se editou o primeiro álbum de reggae em Portugal. Os Kussondulola falavam sobretudo da guerra que se vivia em Angola, mas as suas letras continham mensagens políticas, sociais, ecológicas e religiosas, enquadradas num depurado rigor musical. Esta é a 44ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Dançam no Huambo', Kussondulola
(1995)

Portugal é porto de destino ou de chegada. Na génese do país está receber quem vem de longe e quem parte para longe. Tornou-se abrigo para africanos que, depois da independência dos seus países, buscaram em Portugal resguardo da guerra que entretanto aí eclodira ou para fugir a uma vida de desamparo.

Janelo da Costa nasceu no bairro do Prenda, um bairro no alto de Luanda que marcou a infância, a juventude e a sua essência. Vivia em Angola mas vivia sobretudo em África, continente marcado por feridas não saradas. Acostumara-se, no tempo colonial, a ouvir bordões de libertação do homem negro e mais tarde, numa Angola independente, outros como ‘Havemos de voltar a ter paz’. A música era reflexo dessa realidade - quer a que se ouvia, quer a que se produzia. Fez por isso sentido que o reggae, como metáfora do retorno do homem às suas raízes, a África, tivesse feito sentido para Janelo - que, habitando neste continente, o vivenciasse com aguçada lucidez. O reggae e a música que Janelo começou a criar davam voz àqueles que sofriam - e Angola e os angolanos pareciam estar predestinados ao martírio, fonte produtiva de lamento musical. A esperança, a revolta e a indignação andavam por esta época em comunhão e Djá (o Deus superior, o Jeová) não se escusava em acarinhar lamentos. Para um país que olhava de soslaio para a sua própria sorte e desalento para o seu futuro, a fé e a música pareciam ser os únicos revigorantes para a descrença que depositavam nos homens que insistiam em lhes garantir sorte diferente.

Os discos de Bob Marley e Peter Tosh circulavam de mão em mão no Portugal recém democrático, que também na música tateava modelos novos. As festas de garagem pediam new-wave, punk, disco sound e reggae - ao invés da música que se ouvia na rádio, ora açucarada ora com acordes sincopados de guitarra e letras revolucionárias. Algumas discotecas encarregavam-se mesmo de fazer do reggae o seu emblema - como o Jamaica, no Cais do Sodré. Na verdade, o reggae tinha sido o primeiro fenómeno, fora do domínio anglo-saxónico, a obter um sucesso global. Partira de Kingston e conquistara o mundo. Antes, a bossa-nova, o fado, o flamenco, a música indiana (via Ravi Shankar) ou a marroquina ensaiaram êxito fugaz, estando dependentes das suas figuras ou mentores; o reggae, no entanto, foi o género que se constituiu como a primeira expressão de world music a transcorrer efetivamente fronteiras de forma definitiva.

No boom do rock português, influenciados sobretudo pelos Police, algumas bandas portuguesas (como os Táxi, o Grupo de Baile ou os JáFumega) revestiam a sua música dos ritmos da Jamaica. O reggae insuflava o rock mas não se afirmava todavia como género autónomo. Janelo da Costa, residindo no Algarve, encabeçou essa afirmação, mais do que do reggae, do rastafarismo - que se materializava como a religião e filosofia desse movimento. Janelo e outros parceiros unidos pela devoção ao raggae passaram a realizá-lo, mais do que a incorporá-lo.

Demorou ainda tempo para que o primeiro álbum de reggae produzido em Portugal tivesse sido editado - 20 anos depois desse interesse acentuado. O álbum “Tá-se bem”, dos Kussondulola, editado em 1995, perpassou para as rádios e grande público um reggae feito em português. As raízes do género estavam já embrenhadas na nossa cultura: já ouvíramos vezes sem conta as canções de Bob Marley e Jimmy Cliff e de criadores ocidentais absorvidos pelo reggae. Ouvíramos letras lamentosas ou festivas; sem precisarmos de as interpretar ou de as ter vivido, identificávamo-nos com elas - porque expressavam uma realidade que afinal também nos dizia respeito.

Os Kussondulola falavam sobretudo da guerra que se vivia no seu país, à semelhança de outros músicos vindos da antiga colónia, mas apesar da crueza e aspereza das letras, a mensagem veiculava uma atitude pacifista. Continham mensagens políticas, sociais, ecológicas e religiosas, mas enquadradas num depurado rigor musical. Os Kussondulola denominavam-se ‘Guerrilheiros da paz’ e procuravam sem armas uma nova felicidade - não só para Angola, mas tendo como fio condutor (e ponto de partida) o conflito que afligia o seu país. Foram criados assim não só como um ímpeto criativo mas com o fito de ajudar espiritualmente quem os ouvia. Entretanto traziam já décadas de Europa e de muito boa música consumida - daí que os Kussondulola deixassem o pop e o rock intrometer-se no seu reggae, tornando a sua música (porventura não intencionalmente) mais bem aceite.

Foram dos muitos a se sentirem bem em Portugal e Portugal alinhou nessa nova vaga de multi-culturalidade: abraçou causas de povos lusófonos, pôs-se ao lado da paz e da auto-determinação. Impregnou a sua música de outros ritmos, acordes e cores. Como a acepção do nome da banda, devemos deslocar-nos para onde nos sentimos melhor, buscando uma nova felicidade. Foi o que fizeram os Kussondulola, timoneiros de uma geração rebelde por justa causa, uma banda marcante no contexto de um Portugal desperto para os ritmos da Jamaica e de uma outra doutrina - numa década tão madrasta para Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

A canção seria reconhecida como Pim, Pam, Pum - a remeter para os devastadores confrontos no Huambo, antiga Nova Lisboa; era agora todavia em Lisboa que se clamava pela paz lá longe. Tentava-se de longe ajudar quem vivia em sufoco, condenado ao esquecimento. Os acordos firmados em Portugal, no Congo ou na Zâmbia de nada serviriam para amenizar o conflito entre irmãos ressabiados. Eram estas as histórias da guerra civil de Angola, cantadas em códigos irónicos, que os Kussondulola queriam enunciar. A guerra terminaria em 2002 e o que perdurou foi a sua música - uma brisa nova que passava e nos impelia a vibrar.

Fazem reuniões
Fazem debates
Adis-Abeba
Lusaka, Lusaka
Kambas da luz e do dia
Não pertencemos nem à noite
Nem à escuridão.

Ouvir também: 'Rock Steady' (1998). Do álbum seguinte, “Baza Não Baza”, impregnava-se da mesma linguagem áspera e com mensagens contundentes.