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Como pode a solidão de Adrianne Lenker ser tão bela?

“Songs”, o mais tradicional dos dois álbuns que a vocalista dos Big Thief acaba de lançar, é um pequeno clássico do isolamento e do coração partido. Mais do que cantadas, as palavras parecem emanar da alma de Adrianne Lenker cujos sentimentos crepitam na mais dourada das luzes

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A generosidade é um dos atributos mais evidentes de Adrianne Elizabeth Lenker. Nascida no estado norte-americano do Indiana há 29 anos, a cantora-compositora é uma figura tão enigmática — são esquivas e labirínticas as suas entrevistas — como transparente nas emoções que jorram das suas canções. À frente dos Big Thief, que em fevereiro de a.c. (antes de coronavírus) vimos tocar em Lisboa e no Porto, lançou no ano passado dois discos maravilhosos: “U.F.O.F.” e “Two Hands”. Aquando da edição do segundo, justificava ao Expresso o curto intervalo entre álbuns: “Ainda falámos da possibilidade de lançá-lo mais tarde. Mas criativamente não teria funcionado, porque já estávamos a escrever mais canções e queríamos tocá-las ao vivo agora. Se só partíssemos em digressão daqui a um ano, íamos sentir que o álbum já tinha dois anos.” Entretanto, 2020 aconteceu e deu razão a Adrianne Lenker e aos seus companheiros de banda: o mundo troca-nos as voltas e há coisas que não devemos mesmo adiar, como a partilha de canções tão preciosas como as dos dois álbuns de 2019 dos Big Thief e as dos dois álbuns que agora, um ano mais tarde, a vocalista acaba de editar. Uma partilha generosa e bem-vinda, que como muita coisa na vida de Adrianne Lenker, terá sido pouco planeada.

Até aos oito ou nove anos, a norte-americana viveu no seio de uma família profundamente religiosa (confirmando apenas, de forma compreensivelmente defensiva, que se tratava de um culto cujos membros viam com maus olhos nomes próprios que não estivessem na “Bíblia” ou formas como a estrela). Os pais acabariam, porém, por se desvincular dessa seita, acabando por trocar a espiritualidade extrema pela religião do dinheiro; quando tinha 13 anos, Adrianne lançou um álbum. A motivação partiu exclusivamente do pai, interessado em rentabilizar o talento da filha, que escrevera a primeira canção aos oito anos. Aos 24, e depois de uma juventude nómada, esta artesã musical mudou-se para Nova Iorque e, no primeiro dia, conheceu Buck Meek, ao lado de quem formou os Big Thief e com quem foi casada durante três anos (hoje, descreve a sua relação com o companheiro de banda como de “profunda amizade”). Ao cabo de quatro álbuns, os Big Thief tornaram-se uma das bandas indie mais respeitadas e seguidas da sua geração, mas o registo a solo não é novidade para Miss Lenker, que ainda em 2018 impressionara com “Abysskiss”. Em 2020, a pandemia enviou-a de volta para uma solidão não solicitada, mas profundamente criativa.