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Ena Pá 2000

101 canções que marcaram Portugal #43: 'És Cruel', pelos Ena Pá 2000 (1991)

Vieram estimular uma classe estudantil pouco engajada com o status quo e sedenta de extravagâncias. Assentes na criatividade de Manuel João Vieira, faziam da provocação a sua matriz. As referências escatológicas, as mensagens nonsense, o humor pornográfico e as grandes canções fizeram deles um símbolo do desvio à norma. Esta é a 43ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'És Cruel', Ena Pá 2000
(1991)

Adversão à espontaneidade: poderia ser (mais um) elemento comum entre Fernando Pessoa ortónimo e Manuel João Vieira. A alquimia do fingimento agrega a génese dos criadores - ainda que, num aparente paradoxo, se apegue a uma hiper consciência. Manuel João Vieira é um só - ainda que se transfigure entre a essência de artista plástico e a de músico por vocação. O seu mimetismo e dispersão impediram-no de se empenhar em exclusivo a uma arte - e fê-lo, por isso, excluso em cada uma delas. No caso da música, o que o fez marginal e não passar nas rádios terão sido os palavrões. Melhor: ter sido conotado com palavrões - apesar de os seus discos os conterem em minoria. Contêm isso sim referências escatológicas, mensagens nonsense e um humor pornográfico - que foi aquilo que o fez um fenómeno de nichos, que Manuel João Vieira estimula. Foi indolente e intolerante - porque o seu caráter assim o ditava - tendo pago comercialmente o preço por esse desvio à norma e tendo sido recompensado em igual medida pela veneração de gerações de entusiastas.

Enquanto personagem, a sua alquimia manifesta-se em se desconhecer que faceta encontraremos quando se exprime. Enquanto músico, infiltra-se na canção latina, como as que se fazia antigamente - sem constrangimentos. Fazendo pendant com a música que produz, veste trajes dos anos 70, metamorfoseando os adereços e a música que ouviu em encenações kitsch mas atuais.

Começou por zombar da música e sobretudo das letras simplistas do rock que se fazia no início dos anos 80 - quando integrava o movimento Homeostética na Escola Superior de Belas Artes e fazia da música distração, tendo como fito quebrar com a música que se ouvia então. Mas a música passou a ser o emblema da arte que passou a produzir e a chegar a um público mais vasto do que o das artes plásticas. Até hoje. Pode orgulhar-se de ter criado bons discos, boa música, bem produzida, com bons arranjos, executada por excelentes músicos - em palco ou em estúdio. Lamenta todavia que muito do público que gostaria de açambarcar fique mais rendido às letras ostensivamente estranhas do que ao depuro dos atributos anteriores. Mas essa peculiaridade é que faz as bandas que integra - muitos heterónimos de um autor só - singulares.

Autor dedicado, tenta imprimir na música o mesmo esmero que coloca na pintura (à qual se dedica seis horas por dia). Tenta enfim executar os seus compromissos o melhor que sabe - apesar do avacalhanço com que os Ena Pá 2000 estão conotados. Foram pioneiros aliás dessa barafunda criativa e cénica; durante anos, adotaram como farda casacos extravagantes e um funil na cabeça - como uma marca subversiva. Mais do que chocar, queriam manifestar-se e fazer a diferença. Conseguiram-no, ainda que indignados por teimarem em não os integrarem no mainstream.

'És Cruel' foi a primeira senha dos Ena Pá 2000 para o ‘grande’ público. Veio acicatar o conservadorismo do circuito alternativo e estimular uma classe estudantil pouco engajada com o status quo e sedenta de extravagâncias. Os Ena Pá começaram (e passaram) a ser difundidos de forma clandestina - como se a sua música se manifestasse como uma preciosidade a manter secreta. Mas foram mais do que esse secretismo - porque, pela sua atitude provocatória e imprevisível, um maior público os queria consumir. A sua preocupação pela estética e pela elegância musicais era secundada por essa sua constante provocação, imprevisibilidade e bizarria. Eram magnéticos e o seu vocalista tinha carisma. Manuel João Vieira não se cingia porém à sua atitude desviante: abarcava vários interesses e oscilava entre o sisudo e o absurdo, entre a atitude circunspecta e a estapafúrdia. E isso faziam dele e dos Ena Pá 2000 singulares.

Não se bastando a uma linguagem musical, fundou (e agregou) outros conceitos musicais - em que encarnava outras personagens inusitadas. Todas tendo como referência Tony de Matos, o dandy da canção portuguesa - com uma voz possante e trejeitos de marialva. A partir daquele ano de 1991, não haveria outro caminho senão continuar a fazer aquilo que mais bem sabe: surpreender. Um volte-face seria para ele uma rendição. E esse conformismo nunca lhe correu nas veias.

És cruel
Meteste a tua filha num bordel
Enforcaste o teu caniche a um cordel
És cruel

Ouvir também: ‘Um Gajo Muita Fixe’ (1999). Do álbum “2001 Odisseia no Chaço”, com uma toada de humor transversal à maioria das canções.