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Manel Cruz ao vivo no Teatro Maria Matos, em Lisboa, 4 de novembro de 2020

Manuel Toga

Manel Cruz: “Nunca é demais lembrar que temos o direito a estar aqui. Não é nenhum pecado”

Esta quarta-feira à noite, em Lisboa, Manel Cruz mostrou-se grato pelo regresso aos palcos. “Temos de minimizar os danos, mas os danos aqui também existem”, afirmou o músico portuense, apontando para a cabeça. Veja o alinhamento de um concerto com arranjos mais rock, mas uma toada por vezes sombria.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No regresso aos palcos lisboetas, onde se apresentara em finais de fevereiro, dias antes do primeiro confinamento das nossas vidas, Manel Cruz deu ontem um concerto vibrante no Teatro Maria Matos, que nos últimos meses tem recebido uma programação musical regular e cumpridora das novas regras (em todos os espetáculos é obrigatório o uso de máscara, o espaçamento entre lugares e a saída faseada da sala).

Ao longo de quase duas horas - o espetáculo terminou pouco antes das 22h30, que é o novo horário de fecho determinado pelo Governo para os equipamentos culturais -, Manel Cruz e a sua banda (Nicolas Tricot nos teclados, António Sérginho na bateria e percussão e Eduardo Silva no baixo) proporcionaram um intervalo de evasão & diversão, tanto mais necessário quanto mais se avolumam as nuvens no horizonte da pandemia.

A noite começou de forma curiosa, com Manel Cruz a “purificar” a plateia. De máscara cirúrgica posta, percorreu as laterais do teatro, lendo do que parecia ser um pequeno missal a hilariante letra de 'Eleva!', canção de 2008 que sampla a pregação de um pastor brasileiro. “Desinfetados” que estavam os acólitos, prosseguiu a celebração, alicerçada sobretudo em canções do mais recente “Vida Nova” (de 2019) e do impressionante acervo de Foge Foge Bandido, 'entidade' pela qual o portuense lançou, em 2008, o labiríntico e inesgotável “O Amor Dá-me Tesão/Não Fui eu que Estraguei”.

À BLITZ, Manel Cruz já avisara que, neste regresso aos palcos que contemplou também dois concertos no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, iria apresentar arranjos mais rock. Assim foi, com a nova dinâmica a contaminar temas deste século que já ganharam o estatuto de clássico, como 'Canção da Canção Triste'. Ainda assim, sobrou espaço para a melancolia, via 'Beija Flor' ou, já no encore, 'Onde Estou Eu'.

Álvaro Ramos

Perante um público sempre caloroso - e palpavelmente sequioso de uma maior liberdade e interação -, Manel Cruz foi da introspeção à catarse, à boleia de um clima tão eletrificado como misterioso, por vezes quase sombrio (ambiente para o qual terá contribuído o jogo de luzes). Num alinhamento generoso, destaque para 'Não Aldrabes', que, mercê de uma performance entre o teatral e o diabólico, deixou a plateia excitada. Antes do encore, durante 'Tirem o Macaco da Prisão', o nosso anfitrião tornou a percorrer as laterais, passeando a sua figura franzina a poucos centímetros dos espectadores que, tementes a Deus e à pandemia, honraram a canção de uma outra vida do artista e viram, mas não agarraram.

No final, depois de tocar “aquela” (estatuto que 'O Navio Dela', do álbum do ano passado, já arrebatou - e com justiça), Manel Cruz agradeceu demoradamente aos seus músicos e a cada membro da sua equipa, num lembrete importante de que todos contam nesta batalha pela vida além da mera existência.

“Nunca é demais lembrar que temos o direito a estar aqui”, sublinhou Manel Cruz, durante os agradecimentos. “Não é nenhum pecado. Temos de minimizar os danos, mas os danos aqui”, disse, apontando para a cabeça, “também existem”.

Alinhamento

Eleva!
Canção da Canção Triste
Entre as Pedras
A Dor de Ter de Errar
Libelinha
Pode Beijar a Noiva (canção nova)
Ainda Não Acabei
Ovo
A Invenção da Tarde
Cães e Ossos
Anjo Incrível
Missa
Beija Flor
Vida Nova
A Cisma
Estou Pronto
Buraco
Reboque
Não Aldrabes
Onan
Maluco
Tirem O Macaco da Prisão

Encore

Onde Estou Eu
O Navio Dela