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John Coltrane na foto da capa de “A Love Supreme”

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Rebobinanços #10: “A Love Supreme”, de John Coltrane (1965)

Queria ser tão grande como os seus ídolos. Trabalhou para isso, mas também havia o génio escondido. Descobriu-o e, a partir dai, moldou-o. Não só ficou tão grande como os que idolatrava como se tornou o melhor com um saxofone tenor nas mãos. Eis John Coltrane e a sua obra-prima no décimo 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Tinha eu uns 13 anos, por aí, quando, pela mão da minha avó materna, entrei numa loja de discos e optei por aquele que seria o primeiro álbum de jazz escolhido por mim. Ainda hoje não sei o que me levou a, sem hesitação nenhuma, escolher "A Love Supreme". Não tinha, na altura, entendimento suficiente para compreender este disco. Era muito novo. Ainda não tinha aprendido nada com a vida para perceber que este seria um dos marcos mais importantes da história da música.

30 anos depois, não me faz sentido pensar ou falar acerca de música sem ter esta obra sempre na linha da frente das minhas escolhas. É como um escudo que me protege. Ouvi-lo é sempre uma experiência nova. É revigorante. De certa forma, leva-me sempre para os 13 anos que ficaram bem lá atrás. Sinto-me sempre um menino quando o oiço, tal é o peso deste disco, o melhor de Coltrane - o génio do saxofone, o mais complexo e criativo de todos os saxofonistas que já ouvi - e um dos mais importantes de sempre.

John Coltrane era extremamente humilde e muito trabalhador. Ensaiava horas e horas a fio. E mesmo quando não podia tocar o seu saxofone para não incomodar, a altas horas, quem descansava, praticava apenas com os dedos. Ali ficava, só, no seu mundo.

Era muito reservado. A música que fazia falava por ele. Era emotivo. Uma mente feroz e intensa que nunca se acomodou. Buscou sempre cada vez mais no seu som e nunca se contentou com o que ia criando. Julgo que foi o cozinhar de todos estes ingredientes que fizeram dele um dos mais inovadores, respeitados e seguidos músicos de sempre, e não apenas pelos fãs do género que tocava.

19 anos tinha 'Trane quando decidiu que era aquele o caminho que queria seguir. Queria isto para a sua vida e iria trabalhar incansavelmente para alcançá-lo. Apesar de ser já um saxofonista bastante talentoso, foi só depois de ver um outro colosso ao vivo que tudo lhe fez sentido. Charlie Parker era o seu nome, o mestre do saxofone alto. O 'Bird' iluminou o jovem espírito daquele rapaz que, no meio da plateia, ficou absolutamente estupefacto com o que viu e ouviu naquela noite.

John Coltrane (esq.) e Dizzy Gillespie (dta.) em Nova Iorque, 1951

John Coltrane (esq.) e Dizzy Gillespie (dta.) em Nova Iorque, 1951

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Continuou motivado e foi pela mão do enorme trompetista Dizzy Gillespie que se estreou nos grandes palcos. Dizzy era exigente, muito exigente. Puxava pelo jovem aprendiz. Dava-lhe liberdade criadora e fazia com que este desafiasse a imaginação ao limite. Foi, porém, com outro trompetista que toda a estrutura de Coltrane alcançou um outro nível. Deixou de ser conhecido apenas no meio musical entre os seus pares e alguns colecionadores mais atentos para uma projeção à escala mundial. Miles Dewey Davis. 'O' Miles apostou as suas fichas no saxofonista promissor. Em 1959, ambos gravam um disco que se iria tornar, também ele, um dos mais importantes do jazz, 'Kind of Blue' (é obrigatório, mas fica para outro 'rebobinanço'). Antes de se lançar definitivamente a solo, Coltrane tocou ainda com o inigualável titã do piano, Thelonious Monk.

Após um conjunto de discos magistralmente bem conseguidos (como "Blue Train" ou "Giant Steps") chegamos a "A Love Supreme". Reza a história que Coltrane se fechou cerca de duas semanas num anexo da sua casa para se concentrar na feitura deste disco. Estava na melhor fase da sua vida. A vida familiar era estável. O terceiro filho acabara de nascer. Estava tranquilo. Estava em paz consigo. A inspiração e a motivação mais apuradas que nunca. Pela primeira vez em vários anos, estava plenamente realizado e satisfeito com o que tinha idealizado quando compôs esta obra. Tudo lhe fazia sentido nesta composição: condensa toda a genialidade que sempre vagueou entre a mente e o coração. Transcendeu-se espiritualmente, como se a sua alma, a certa ponto, se tivesse afastado do seu corpo e lhe tivesse indicado o caminho certo a seguir. Todo o universo se tinha alinhado perfeitamente naquele rasgo criativo.

Gravado a 9 de dezembro de 1964 num único take. Inacreditável. Um único take. E lançado um mês depois, em janeiro de 1965. É uma suite composta por quatro partes distintas. 'Acknowledgement', 'Resolution', 'Pursuance' e 'Psalm'. Cada uma conta a sua história. Cada uma com o seu charme, a sua razão, a sua essência. Cada uma com a sua própria introspeção, a sua força motriz. É um disco profundamente espiritual, a ode a uma força superior que guiou o autor neste feito. Um obrigado.

Este disco tem raiva, tem amor. Tem mel e tem fel. Tanto nos sacode violentamente como nos abraça com ternura. Deixa-nos deliciados desde a primeira à última nota. O quarteto que o tornou possível era composto por: John Coltrane (saxofone tenor), McCoy Tyner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contrabaixo). Luxo supremo.

John William Coltrane morreu a 17 de julho de 1967. Tinha 40 anos.

Bons rebobinanços.

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    Isto não é rock de saltos altos. Isto é rock com os pés bem assentes no chão. É duro, é cru. É a mensagem que se eleva acima de toda a estética convencional. É o não ter medo de ir mais além. Bem-vindos ao mundo de Patti Smith no quarto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca