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Ana Bacalhau (Deolinda): “Preocupa-me esta espera que corre lenta, ácida, incerta e que vai corroendo os espíritos de todos”

“Preocupa-me saber quantos de nós, artistas, músicos, técnicos, agentes, promotores, vão sobreviver e como vai ser depois disto passar. Preocupa-me a crise económica que se adivinha e que irá impedir que muitos possam comprar bilhetes para eventos culturais. Preocupa-me a dor de querermos fazer o nosso trabalho e não podermos”, afirma contundentemente a voz dos Deolinda, pronunciando-se sobre os efeitos da pandemia na sua vida

Ana Bacalhau confessa estar preocupada com o impacto que a pandemia está a ter e terá na saúde mental. À BLITZ, a cantora dos Deolinda questiona-se: "O isolamento, o distanciamento trarão ainda mais dificuldades na comunicação entre todos, na empatia? Espero que não, mas temo que sim". "Na minha comunidade profissional, preocupa-me o facto de não se vislumbrar um tempo próximo em que a nossa atividade se possa realizar de forma normal e que aquilo que haja para fazer tenha de ser feito com equipas reduzidas ao máximo, o que levará a que muita gente fique sem trabalhar ou veja os seus rendimentos severamente afetados", acrescenta depois.

"Preocupa-me saber quantos de nós, artistas, músicos, técnicos, agentes, promotores, vão sobreviver e como vai ser o tecido humano e empresarial dentro do meu setor profissional depois disto passar. Preocupa-me pensar que possamos perder pessoas com muito talento e conhecimento técnico, artístico, musical. Preocupa-me a crise económica que se adivinha e que irá impedir que muitos possam comprar bilhetes para eventos culturais. Preocupa-me a dor de querermos fazer o nosso trabalho e não podermos. Preocupa-me esta espera a que chamo 'desespera', que corre lenta, ácida, incerta e que vai corroendo os espíritos de todos".

Sobre aquilo que mudou na sua vida, nos últimos meses, diz "o que mudou é que está sempre tudo a mudar de forma bruta, brusca e os pressupostos de ontem, hoje já não se verificam. A insegurança de não se poder contar com nada faz com que tenhamos de navegar à vista, cria ansiedade e dificuldade em projetar um futuro a curto/médio prazo. Não se podem fazer grandes planos para 2021, pode-se apenas fazer um plano de intenções e depois fazer figas. Acho que o próximo ano ainda vai ser complicado, mas quero acreditar que em 2022 possamos sentir alguma melhoria".

"Tive de me cingir ao que é essencial e importante em termos de subsistência familiar e subsistência psicológica, também", responde Ana Bacalhau, quando a questionamos sobre as adaptações que teve de fazer em termos de orçamento, "as poupanças de anos com mais trabalho, os direitos de autor e conexos, colaborações, participações e um ou outro concerto, permitiram-me fazer face às despesas até ao momento".

Quanto à resposta que espera das autoridades, no sentido de ajudar a indústria da música, a artista acredita que terá de ser "uma resposta multidisciplinar, que inclua as várias vertentes, géneros e correntes artísticas, que conheça as especificidades das profissões ligadas à cultura, às artes e, especialmente, às artes performativas, não esquecendo as pessoas que as compõem, não só os artistas, mas toda a equipa que trabalha num espetáculo, numa performance, num disco, num videoclipe". E conclui dizendo que espera que "essa resposta a curto/médio prazo seja o começo de uma resposta a longo prazo que aposte na cultura como forma de produzir riqueza material e imaterial e, sobretudo, de contribuir para o bem-estar de toda a comunidade".