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Rita Carmo

Pode a indústria da música estar à beira do colapso? Em Portugal, o caso já é grave

Em muito pouco tempo, a pandemia poderá causar à música ao vivo o mesmo que a internet fez à música gravada. Os efeitos de choque já se sentem: da produção de concertos à edição discográfica, da gravação ao marketing, da criação à comunicação, nenhuma franja da indústria em Portugal esconde a grave situação que o setor atravessa. Falámos com alguns dos principais 'pivôs' da indústria nacional para tirar o pulso a uma era decisiva para o futuro da música, cá dentro e lá fora

Quem segue The Legendary Tigerman no Instagram – e são perto de 50 mil os seus fãs nessa rede social – já se habituou às suas fotos de camas de hotel desfeitas, retratos poéticos de uma vida na estrada que o músico português abraçou há várias décadas. No último dia 18 de outubro, Paulo Furtado, verdadeiro nome do artista que musicalmente veste a pele de Legendary Tigerman, fez saber que a foto da cama de um hotel em Guimarães, cidade onde se apresentou no âmbito da conferência profissional Westway Lab, será “provavelmente” a última que irá publicar “durante algum tempo”. “As digressões”, justificou depois, “estão a ser canceladas em todo o lado, muitos clubes e empregos estão em perigo e aproxima-se uma das maiores crises mundiais de sempre”.

Tomando a página deste artista no Instagram como uma das réguas possíveis para medir o alcance do verdadeiro estado de calamidade que se abateu sobre a indústria musical, percebe-se facilmente a dimensão do descalabro. As fotos anteriores de camas de hotel datam de 26 de julho (após concerto em Vila Praia de Âncora), 27 de junho (Viseu) e depois é preciso recuar até 1 de março (Braga) para encontrar a última foto de cama com lençóis revolvidos publicada antes da declaração do estado de emergência e da imposição do confinamento como medida de combate à pandemia gerada pelo covid-19.

Após ter atuado, em média, uma vez a cada 4 dias em fevereiro, o músico de Coimbra assinou apenas 3 concertos nos últimos 8 meses, sem previsões para que esse estado de coisas se altere “durante algum tempo”. Depois de quatro dezenas de concertos em 2019, num ano em que nem sequer editou novo disco - "Misfit" data já de janeiro de 2018 -, a comparação entre agendas indica claramente a escala da abrupta queda que o presente ano impôs a todos os músicos, agentes, técnicos de som, programadores, salas de espectáculos, produtores de festivais, managers, roadies, técnicos de luz, riggers, runners e inúmeros outros profissionais que operam neste setor.

“2020 é um desastre”

“Não me lembro do último ano em que fiz menos de 60 concertos entre Linda Martini e PAUS. Este ano fiz 11”, revela Hélio Morais, músico que também acaba de se lançar a solo em nome próprio e que é reconhecido agitador multifacetado com interesses na área do agenciamento, do management e da produção, encabeçando a estrutura HAUS, um estúdio que também é uma agência. “Não é preciso ser bom a matemática para entender a dimensão do dano. Isto enquanto músico. Enquanto agente de bandas, no HAUS, passámos de agendar bem mais de 100 concertos por ano, para menos de 30. No HAUS temos uma estrutura que dá trabalho direto a 5 pessoas, mais o peso administrativo de qualquer empresa. O agenciamento é uma parte muito importante da faturação e está practicamente parado. As bandas também têm menos disponibilidade financeira para gravar. Muita gente já perdeu, ou tem receio de perder, o seu trabalho. Portanto, diria que é um desastre, o ano corrente”.

Hélio Morais (à direita) nos PAUS, fotografado no HAUS, estúdio da banda em Lisboa

Hélio Morais (à direita) nos PAUS, fotografado no HAUS, estúdio da banda em Lisboa

Rita Carmo

Com 2020 irremediavelmente perdido e muitos profissionais nacionais e internacionais a temerem já por 2021 – depois de não se ter realizado em 2020, o importante certame americano South By South West, festival que anualmente se realiza em Austin, no Texas, e que funciona como montra para muitos programadores, já fez saber que a sua edição de 2021 decorrerá online e será uma “digital experience” – as dúvidas sobre a viabilidade futura deste setor são mais do que justificadas.

Em 2019, o festival NOS Alive, que se realiza desde 2007 em Algés, vendeu mais de 16 mil bilhetes a cidadãos estrangeiros de cerca de oito dezenas de nacionalidades, um indicador claro do impacto que o sector da música ao vivo tem no nosso país. A Aporfest (Associação Portuguesa de Festivais de Música) estimou que em 2019 o conjunto dos festivais nacionais gerou uma receita de cerca de 2 mil milhões de euros. O panorama do ano corrente, que ainda não chegou ao fim, é bem diferente. Num relatório divulgado pela Lusa no passado mês de Setembro, a Aporfest sublinhava que dos 287 festivais que se realizaram em todo o território nacional em 2019, “apenas 134 se mantiveram este ano” o que aponta, segundo a mesma associação, para uma quebra de receitas na ordem dos 80 por cento. De acordo com um executivo internacional de topo, em declarações à revista Music Business Worldwide, “a pandemia fará à indústria dos concertos aquilo que a internet fez à indústria discográfica”.

“Vamos ter que encontrar uma solução para os problemas levantados pela pandemia”, começa por explicar à BLITZ Álvaro Covões, director da Everything is New (EiN), empresa responsável pela produção do festival NOS Alive e que este ano foi uma das primeiras a avançar para a realização de eventos sob forte condicionamento das medidas impostas pela Direcção Geral da Saúde, como o espetáculo "Deixem o Pimba em Paz" ou um concerto de Dino D'Santiago, dois eventos que tiveram lugar no Campo Pequeno e que motivaram acesa discussão pública. “A solução poderá ser a vacina, os testes rápidos... Essa é uma linha de pensamento que tem marcado o debate no seio da indústria da música ao vivo”, explica o executivo, “a de que os eventos poderão realizar-se assim que seja possível implementar a rápida testagem dos públicos. Uma solução que poderia ser aplicada enquanto não houver tratamento eficaz, uma vacina ou enquanto o vírus não desaparecer”. Enquanto essa possibilidade não for real, o setor está a braços com uma das suas mais graves crises de sempre.

“O ano ainda não terminou e não há números finais”, avisa Álvaro Covões, “mas já se conseguem contabilizar quebras de vendas. E falo do setor dos espectáculos que engloba não apenas a música, mas também o teatro, o bailado e até as exposições e eventos: entre março e setembro, as quebras andam entre os 85 a 100 por cento!”. À natural pausa após a verbalização de números com esta carga negativa, o homem do leme da EiN faz suceder a sua conclusão: “É uma tragédia”. Covões ressalva ainda assim que há setores específicos ainda mais afetados, como os bares e as discotecas que permanecem encerrados e com “quebras totais, de 100 por cento”.

Álvaro Covões, diretor-geral da Everything Is New, que em 2019 produziu cerca de 120 espetáculos

Álvaro Covões, diretor-geral da Everything Is New, que em 2019 produziu cerca de 120 espetáculos

Rita Carmo

Sem concertos não há dinheiro para gravar

Nesta complexa engrenagem que é a indústria da música, há muitas peças que se encaixam, muitas partes com diferentes dinâmicas de movimento, e uma das mais importantes é a da edição discográfica. O universo das editoras tinha vindo, nos últimos anos, graças ao crescimento dos números de streaming, a recuperar de um longo período de perdas acumuladas graças à transformação dos modos de consumo com a disseminação da internet de banda larga. Mas essa inversão positiva nos gráficos de faturação global poderá também ser afetada pelo que se está a passar no setor da música ao vivo, ainda que no plano imediato os sinais sejam menos preocupantes para as editoras. A Sony Music aumentou mesmo as suas previsões de receitas em mais de 500 milhões de dólares, até março de 2021, para tal tendo contribuído um último trimestre francamente positivo. Os números da Universal de julho a setembro são 3,1% superiores aos do mesmo período em 2019.

Contudo, como num qualquer ecossistema natural, todos os diferentes organismos estão de alguma forma interligados e extremamente dependentes do bem-estar uns dos outros. Paula Homem, diretora geral da Sony Music Portugal, e Afonso Rodrigues, diretor de Artista e Repertório (A&R) da mesma editora, explicam a uma voz que “é um facto que o momento que vivemos fragilizou a industria musical em muitas das suas vertentes”. “É verdade que há poucos concertos, que há muitas salas fechadas, que a venda de musica em formato físico praticamente desapareceu e que os direitos gerados são muito inferiores em virtude da menor reprodução de música em espaços públicos, etc. Ainda assim, pensamos que colocar o futuro de toda a indústria em causa nesta fase é um cenário demasiado negro e pouco realista. O consumo de música digital continua em crescimento e temos que olhar com otimismo para o futuro acreditando que em algum momento a situação da pandemia vai estar mais controlada e a música ao vivo voltará a estar mais presente nas nossas vidas. Talvez não exatamente como em 2019, mas o mais próximo possível. Enquanto houver necessidade de fazer música por parte dos criadores e necessidade de ouvir música por parte do público vai existir sempre alguma forma de 'indústria' musical”, acreditam os executivos à frente da editora que tem procurado acrescentar ao seu catálogo alguns dos mais destacados campeões do universo do streaming em Portugal, de ProfJam a Julinho KSD e Plutónio.

João Brandão, produtor e engenheiro de som que dirige no Porto o complexo Arda Recorders, conjunto de estúdios recentemente inaugurado que traduz um avultado investimento – tem sido esse o estúdio escolhido por artistas como João Vieira, Sam The Kid, Black Bombaim ou a Orquestra de Jazz de Matosinhos –, sublinha que a interligação é real e que muitos artistas investem em gravações as verbas que conseguem na estrada. “A área da gravação em estúdio foi indiretamente afetada pelo cancelamento dos eventos musicais, pelo que será complicado fazer uma estimativa de perdas nesta área”, começa por explicar. “Mas sendo as atuações ao vivo a principal fonte de rendimento da maioria dos artistas, o desaparecimento dessas atividades faz com que muitos músicos e editoras percam a capacidade de investimento em novos trabalhos, pois existe uma grande incerteza para o retorno do investimento. Existe também outra influência direta da pandemia na nossa atividade através das restrições nas viagens, confinamentos pontuais, receio do contacto com outras pessoas, etc.. No nosso caso concreto podemos atribuir o cancelamento de cerca de 100 sessões de estúdio a estes factores directos”. A ideia é clara: sem condições para atuar, poderá deixar de haver condições para gravar e, subsequentemente, impossibilidade de editar.

A palavra a um artista. Hélio Morais: “Se numa primeira fase acredito que as bandas/artistas, cujos membros não vivam exclusivamente da música que fazem – que são a esmagadora maioria -, não deixem de existir, não sei que motivação terão num segundo momento. E quando penso nesse segundo momento, penso num estado em que boa parte dos clubes/bares tenham encerrado por falta de apoios e impossibilidade de estarem abertos”.

André Henriques (Linda Martini) e Adolfo Luxúria Canibal em gravações nos estúdios Arda Recorders, no Porto

André Henriques (Linda Martini) e Adolfo Luxúria Canibal em gravações nos estúdios Arda Recorders, no Porto

Facebook Arda Recorders

A dependência do setor público

Num momento em que, nos Estados Unidos, o principal pilar da indústria global de música, os músicos, se unem através de uma frente sindical comum que reúne as organizações The United Musicians e a Allied Workers Union (que representam mais de 9 mil artistas) para pressionarem o gigante Spotify para receberem pelo menos 1 cêntimo de dólar por cada stream (por oposição aos actuais $0.0038), procurando assim melhorar a sua posição neste novo paradigma de negócio, a dependência dos que se movimentam nas franjas mais “independentes” e “alternativas” da música popular das pequenas salas de espectáculos é cada vez maior.

Explica no UnHerd Ian Birrell, jornalista e co-fundador do Africa Express, juntamente com Damon Albarn, que em média “8 em cada 10 libras no rendimento dos artistas médios advém das apresentações ao vivo”, num sistema em que os rendimentos da música gravada só são substanciais para os artistas que se posicionam no topo da “cadeia alimentar” desta indústria. Ora, com os clubes encerrados, esta forma de subsistência está neste momento seriamente ameaçada. E há, sublinha ainda Hélio Morais, “todo um outro lado”: “Há técnicos que deixarão de o ser, porque terão que procurar outros empregos (muitos já estão a fazer esse movimento), há salas que não voltarão a abrir, há o receio de presidentes de municípios de um surto hipotético num equipamento público, quem promove concertos deixará de o fazer, etc”.

“As perdas”, concedem uma vez mais os representantes da Sony Music Portugal, “são colossais”. Álvaro Covões avança uma dimensão possível para esse “colosso”: “Segundo o IGAC, apenas 33 por cento dos espetáculos realizados em período homólogo em 2019 aconteceram esse ano, entre março e setembro. Mas os espectáculos que de facto acabaram por se poder realizar tiveram que acontecer com lotações muito menores e em cima de isso todos os grandes eventos foram cancelados. O que preocupa é que mesmo tendo sido criadas regras para que este setor pudesse funcionar, houve agentes que voltaram as costas à cultura, nomeadamente aqueles que são afetos ao sector público”. Covões refere-se ao estabelecimento as regras para funcionamento de eventos a partir de 1 de Junho, altura em que “a generalidade das autarquias deveria ter reposto, seguindo as regras Covid, obviamente, os espetáculos que tinham sido cancelados ou adiados e não o fizeram”. A dependência que a indústria de espectáculos em Portugal tem do setor público, através dos eventos produzidos sobretudo pelas autarquias, não foi acautelada da melhor maneira.

António Cunha, director da Uguru, a empresa que há 10 anos produz o Misty Fest, evento com características específicas que programa espetáculos nacionais e internacionais em salas de diversas cidades (e que este ano se realiza numa versão reduzida), concorda com Covões e defende que o estado e as autarquias deveriam ter tido uma ação mais concertada e assertiva: “”Deveriam estar a financiar as empresas a fundo perdido num montante igual por exemplo a 50% dos contratos cancelados e não adiados, 25% no caso de adiados e ainda 50% do valor das devoluções de bilhetes para espectáculos não reagendáveis e 25% para espectáculos reagendados. Independentemente disto, deveria ter sido já criada uma bolsa/fundo europeu e nacional para pagar devoluções de bilhetes quando as produtoras o solicitassem e com um custo financeiro mínimo. Esta medida manteria a segurança dos compradores de bilhetes”, sugere

Que valor tem a cultura em Portugal?

Andreia Criner, diretora da Livecom, empresa que assegura a comunicação das atividades de artistas tão diversos como Gisela João, DJ Ride e Capitão Fausto, e de festivais como o VOA – Heavy Rock e o EDP Vilar de Mouros, sublinha que em diferentes países europeus “o valor atribuído à cultura pelos cidadãos e respectivos governos é muito assimétrico, o que explica que alguns países tenham reagido prontamente com políticas e verbas, e outros, como Portugal, onde a cultura continua a não ser considerada um bem de primeira necessidade, se continue à espera de um plano estratégico de apoio à subsistência e retoma”. A assessora de comunicação, com passagens por produtoras de concertos como a Música no Coração e a Everything Is New, prossegue: “É certo que houve reuniões com o governo, promovidas por representantes de vários setores da cultura, entre os quais o da música, das quais resultaram algumas medidas. Porém, são poucas, carregadas de burocracia e parcas em soluções para os trabalhadores independentes que são, afinal, a pedra basilar da indústria musical, em que a esmagadora maioria não tem vínculos a nenhuma entidade patronal. Muitas pessoas estão a passar mal, há muitos meses, fruto da precariedade endémica do sector. Isso não apenas não mudou como está a agravar-se com a actual segunda vaga, que ainda só está no seu início”.

Uma das medidas a que o tecido empresarial nacional mais aderiu foi ao lay off, medida implementada pelo governo para tentar travar despedimentos. A outra medida que mais se disseminou foi a do trabalho à distância. A Sony, como boa parte das outras editoras portuguesas, passou a realizar o essencial da sua atividade em regime de teletrabalho: “Foi uma nova realidade a que grande parte do mundo teve que se ajustar. Felizmente, não parámos um único dia e conseguimos manter resultados positivos que nos permitiram garantir todos os postos de trabalho. Em setembro voltámos ao escritório em formato reduzido e alternado. Esta situação só foi possível pelo facto de termos muitos artistas, tanto nacionais como internacionais, com sucesso digitalmente, equilibrando assim todas as outras perdas”, revelam os responsáveis.

Paula Homem, diretora-geral da Sony Music (à esq.), e Rita Redshoes, artista do catálogo da Universal, na festa de 30 anos da marca BLITZ, em 2014

Paula Homem, diretora-geral da Sony Music (à esq.), e Rita Redshoes, artista do catálogo da Universal, na festa de 30 anos da marca BLITZ, em 2014

Rita Carmo

No setor do management, agenciamento e produção de espetáculos, a realidade é a mesma, como avança António Cunha: “Até ao momento, procurámos lidar com a situação com trabalho à distância, contenção de custos, lay off e soluções de financiamento que naturalmente aumentam a dívida e dependência da empresa do sistema bancário. No entanto se o atual sistema lay off continuar a não ser compatível, em algumas situações de exceção, com o despedimento parcial de trabalhadores, é possível que venha a ter de abandonar esse regime e proceder a despedimentos a breve trecho se esta situação se prolongar muito mais. Concordo absolutamente que é necessária manter a capacidade produtiva para as empresas responderem de imediato depois da pandemia, mas penso que nalguns casos o estado tem realmente de definir se quer ou não apoiar alguns setores mais afetados para que isso seja possível. É evidente que nem a cultura nem o entretenimento cultural foram alguma vez prioridade para os governos de Portugal, pelo que penso que não se pode esperar quaisquer apoios relevantes e específicos para esta área”, declara o diretor da Uguru, sem esconder um justificado pessimismo.

Virá aí “a Netflix dos concertos ao vivo”?

Internacionalmente, a indústria começa a dar sinais de querer preparar o futuro. Enquanto se vão fazendo as contas à devastação presente – e, no Reino Unido, um estúdio prevê que em 2020 se possam perder cerca de 170 mil postos de trabalho na indústria de música ao vivo – há já quem comece a preparar o futuro que será, quase de certeza, diferente: a Music Business Worldwide dava em outubro conta de uma movimentação por parte do gigante internacional BMG, que na Alemanha adquiriu uma posição maioritária na produtora de concertos Undercover. De acordo com Hartwig Masuch, administrador da companhia BMG, “quem compra um bilhete para um concerto por 100 dólares é mais fã do que quem tem uma assinatura Spotify de 9,99 dólares”. De acordo com os responsáveis pelo negócio, a principal razão passa por encontrar um posicionamento estratégico para um futuro pós-pandemia, com as editoras a poderem oferecer aos artistas mais serviços, uma forma possível de potenciar outras formas de rendimento num mercado cada vez mais complexo.

António Cunha, da Uguru, após ter realizado concertos em streaming com produção cuidada para artistas como Rodrigo Leão, acredita que o futuro poderá também acomodar novos modelos de negócio nesta área: “A solução mais óbvia seria o desenvolvimento rápido de uma indústria associada à transmissão em directo de concertos via streaming. No entanto vai ser preciso tempo para estabelecer um preço de bilhete online, de oferecer boas produções para esta finalidade. Creio que a aposta nesta área tentando melhorar custos de produção e produto deve ser mantida no pós covid de forma a transformar-se numa espécie de Netflix, Spotify ou Sport TV dos espectáculos ao vivo”.

Andreia Criner acredita também que o envolvimento directo de empresas de outros setores, apoiando espectáculos com uma visão integrada de marketing, poderá ajudar a encontrar soluções para o setor: “A Livecom está a comunicar os 32 espectáculos que assinalam os 20 anos dos Commedia a La Carte. Numa altura em que as lotações das salas estão reduzidas a metade, a Staples e a Zeiss compraram os bilhetes correspondentes às cadeiras que não podem ser ocupadas, em cada uma das sessões, viabilizando assim os espectáculos do ponto de vista financeiro e assegurando trabalho aos mais de 100 profissionais envolvidos, direta ou indiretamente. Creio que o futuro imediato passa muito por este tipo de iniciativa privada, pelo envolvimento das marcas em ações como esta ou de outra natureza, que simultaneamente alavanquem vendas e lhes tragam notoriedade, mas também mostrem que podem fazê-lo através da responsabilidade social. A iniciativa privada é fundamental para que os profissionais da indústria musical e da Cultura em geral não vivam uma longa travessia no deserto, de mão estendida, dependentes de subsídios, que são fundamentais no imediato, mas indesejáveis no longo prazo”.