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Elvis Costello não faz canções de protesto. “São reflexões acerca do tempo em que vivemos”

Elvis Costello quis tirar o melhor partido da situação inimaginável provocada pela pandemia e pôs-se a “experimentar coisas diferentes”. Ao Expresso, contou como nasceu o recente “Hello Clockface”, o 31º álbum de uma carreira iniciada há mais de 40 anos

Num momento, Elvis Costello estava num estúdio de Helsínquia, sozinho com a guitarra, a gravar os esboços de três canções, e, no momento seguinte, descobria-se de regresso a casa, em Vancouver, no Canadá. Tudo se passou entre o início do passado mês de fevereiro e o meio de março, quando o mundo que conhecíamos começou a desaparecer: “Depois de Helsínquia, fui a Paris onde trabalhei com o Steve Nieve e um grupo de ótimos músicos franceses que ele reuniu. Não tinha nenhuma música escrita, apenas as sequências de acordes. Eles tocaram maravilhosamente e avançámos imenso. Durante cerca de um mês não cheguei a ouvir o resultado final porque viajei para Liverpool onde ia começar uma digressão com os Imposters. Estava a correr tudo muito bem quando, de repente, por causa do vírus, as pessoas começaram a deixar de aparecer nos concertos e compreendi que estava na altura de cancelar tudo e voltar para o Canadá para ir ter com a minha família antes que fechassem as fronteiras”, conta ele, ao telefone, a partir da costa ocidental canadiana. “E ali estava eu, na ilha de Vancouver, a olhar para aquele imenso mar e a tentar perceber onde tudo isto iria parar...”

Poder ter todo o tempo para estar com a mulher, a canadiana Diana Krall, e os filhos gémeos terá sido uma bênção mas é difícil imaginá-lo parado. Estava já em curso a operação da megarrepublicação (sai a 6 de novembro) — em nove vinis e muito outro “material de apoio” — de “Armed Forces” (1979) e o novo álbum, “Hey Clockface”, tinha ficado suspenso: “Foi nessa altura que o Michael Leonhart me enviou duas músicas que viriam a ser ‘Radio Is Everything’ e ‘Newspaper Pane’. Posso dizer que essas duas músicas foram o que me permitiu ter uma visão do que poderia ser um álbum coerente. Apesar de ser um disco de enormes contrastes, a mistura do Sebastian Krys — com quem já tinha trabalhado em “Look Now” — não contribuiu para que as faixas soassem todas semelhantes mas para fazer sobressair a intensidade de cada uma delas: se ‘No Flag’ se situa num extremo e ‘Byline’ no outro, há também momentos de composição espontânea nas peças de spoken word em que procurei descobrir atmosferas musicais que pudessem articular-se bem com aqueles textos. Desejei, realmente, experimentar coisas diferentes. Se não fosse assim, teria simplesmente ido com a minha banda para estúdio. O que foi também uma forma de tirar o melhor partido de uma situação que nunca teríamos sido capazes de imaginar.”