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Rita Carmo

Capicua: “[Precisamos de] cachets bem pagos e diversidade. Para não irem sempre os mesmos”

A rapper Capicua diz à BLITZ que se a situação pandémica durar muito mais tempo haverá “muito talento desviado para outras profissões”. Acreditando que depois do inverno as pessoas “vão estar com fome de cultura, de partilha e de esperança”, Ana Matos Fernandes entende que só o apoio público e o mecenato poderão salvar a indústria do espetáculo

"Apoio público e mecenato". É assim que a rapper Capicua responde quando a questionamos sobre o que é necessário fazer para não se deixar arruinar a indústria da música e do espetáculo. "Apoio do estado e das autarquias, que terão o papel fundamental de apoiar as pessoas que estão sem trabalho, por via de políticas sociais que têm de ser efetivas e urgentes, bem como o papel de estimular a retoma com programação cultural que reanime o sector, com cachets bem pagos e diversidade - para não irem sempre os mesmos. E claro, o mecenato, de empresas que comprem os bilhetes de lugares não vendáveis das lotações covid, para que seja viável fazer concertos, que patrocinem festivais e projetos culturais múltiplos e que nos ajudem na concretização das iniciativas que o estado não apoia".

Sobre aquilo que mudou de forma mais flagrante na sua vida com o advento da pandemia, Ana Matos Fernandes, de seu verdadeiro nome, não tem dúvidas: "a agenda de concertos". "É o mais óbvio para todos os músicos. Acho que os concertos que dei este ano inteiro, correspondem aos concertos de um mês de um ano normal. É um corte brutal".

A artista confessa que conseguiu poupar dinheiro nos últimos anos e que vai "fazendo outras coisas que me vão dando rendimento. Portanto tem dado para gerir os impactos, sem ter de prescindir de muita coisa (até porque não sou muito gastadora)". Contudo acredita que, dependendo do tempo que a pandemia durar, "vai ter de ir havendo readaptações e provavelmente chegará a uma altura em que teremos de cortar com despesas de forma mais drástica".

"No meu caso a frustração foi mais nos meses iniciais porque tinha acabado de lançar um disco e foi difícil para mim perceber que não ia poder tocá-lo ao vivo tão cedo e que, provavelmente, ele perderia a relevância da "novidade" antes que pudesse vir a ter a oportunidade de retomar os concertos", assume, acrescentando que o facto de ter um filho pequeno a permitiu "distrair-se" dessa frustração. "Bem ou mal, tenho conseguido, a custo, marcar o calendário com o disco, aos poucos e poucos. Mas preocupo-me muito com o estado de espírito dos meus colegas porque a grande maioria está muito angustiada e perdida. Se isto durar muito mais tempo, acho que teremos muitas desistências, muita perda de massa crítica e muito talento desviado para outras profissões".

Capicua diz ter esperança que na primavera já seja possível vislumbrar um panorama diferente. "Tenho fé que, com as lições que aprendemos este ano e com as experiências que foram sendo feitas, a partir da primavera de 2021 vamos retomar a atividade cultural, ainda com normas de segurança apertadas, mas com mais desenvoltura e mais intensidade", defende, "primeiro porque já sabemos fazê-lo e as coisas vão estar mais enraizadas enquanto hábito e, segundo, porque depois do longo inverno que se aproxima, as pessoas vão estar com fome de cultura, de partilha e de esperança. A retoma vai ser uma questão de sobrevivência, não apenas para o sector, mas para todos".