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Manel Cruz

Rita Carmo

Manel Cruz regressa “mais roqueiro”. É “um desconfinamento intelectual”, mas “o pessoal da música anda todo a fritar da cabeça”

Promete um alinhamento “mais roqueiro” e “uma espécie de desconfinamento intelectual, agora que isto está mesmo assustador”. Manel Cruz atua esta quarta e quinta-feira no Porto e a 4 de novembro em Lisboa, “com umas saudades do carago”. À BLITZ, a voz dos Ornatos Violeta fala do que podemos esperar destes espetáculos, de “rifar concertos” e de como “as pessoas da cultura têm sido obrigadas a boicotar-se a si mesmas”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“Estou muito, muito entusiasmado. Já não tocávamos com banda há cinco ou seis meses e estávamos com umas saudades do carago. Tivemos este mês para ensaiar e acho que vai ser muito fixe", afirma à BLITZ Manel Cruz, no momento em que se prepara para regressar aos palcos. A voz dos Ornatos Violeta atua quarta e quinta-feira no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e a 4 de novembro em duas sessões no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

"Estamos com um alinhamento um bocadinho diferente, mais forte, com menos momentinhos calmos, mais roqueiro", adianta, sobre uma experiência que será necessariamente diferente daquela pela qual passou em junho, um concerto no Mosteiro da Batalha, sem público, transmitido em streaming. "O sítio é incrível. Lindo, lindo", recorda. "Mas foi o meu primeiro concerto para ninguém, só para as pessoas que estavam a filmar - até me lembro de, na altura, achar que era fixe que os técnicos pudessem aparecer, porque acaba por ser o nosso público. E depois apareceu uma barata", ri-se. "Era o meu público, a baratita. Mas a sério, fez diferença. Ver qualquer coisa viva à frente!". Para Manel Cruz, a presença de espectadores é essencial. "Teres uma pessoa a ver faz toda a diferença. Saberes que estão ali, ou não. Aí é que um gajo vê que tem de se agarrar a alguma coisa. É tudo psicológico".

Os concertos de Porto e Lisboa serão, assim, "uma espécie de desconfinamento. Desconfinamento intelectual, agora que isto está mesmo assustador. As pessoas da cultura têm sido obrigadas a boicotar-se a si mesmas. O que eu sinto é que não há um plano do Governo para a cultura, mas há uma pressão enorme sobre as pessoas das salas de espetáculos, por exemplo, que acabam por desistir".

Para Manel Cruz, "a parte psicológica, cultural e intelectual não é valorizada como um dano efetivo. Mas a psiquiatria é uma especialidade médica. Acho que essa parte está a ser completamente descurada, e o pessoal da música anda todo a fritar da cabeça".

"Estamos a tentar fazer uma rede [de apoio], até por causa do STOP [antigo centro comercial do Porto onde muitos músicos ensaiam]. Há muitas pessoas a fazer coisas diferentes e acredito que, mais cedo ou mais tarde, isso se vá unir. O que me assusta é [o que vai acontecer] até lá. Muita coisa fecha, muito pessoal desiste".

Recentemente, Manel Cruz teve a ideia de "rifar um concerto", ou seja, sortear a possibilidade de um fã ter direito a ver um concerto exclusivo, presencialmente. "Dávamos um concerto para uma pessoa, depois gravávamos e divulgávamos. Assim podíamos levar o vencedor da rifa à nossa sala de ensaios. Pareceu-me uma ideia engraçada de o pessoal se poder virar, não na cena do streaming, mas tocando ao vivo, só para uma pessoa. Uma pessoa por mês, por semana? Mas ainda estamos a informar-nos de como se pode fazer a cena das rifas em termos legais".

O concerto de quinta, 29 de outubro, no Porto, está esgotado. Para quarta ainda há bilhetes, entre 12,50 euros e 20 euros. Para Lisboa (4 de novembro, às 18h30 e às 21h30), os bilhetes custam 20 euros.