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101 canções que marcaram Portugal #42: 'Irreal Social', pelos Ban (1988)

A pop dos Ban era elegante e acetinada. As suas letras enigmáticas e exóticas. Ajudaram à integração de uma geração num Portugal padronizado. Acicataram o caos criativo, o sentido crítico. Convidaram-nos, enfim, a surrealizar por aí – no seu filme sempre pop. Esta é a 42ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Irreal Social', Ban
(1988)

650 contos, era quanto lhe ofereciam para renovar, no final daquela época de 1978. Mas Vítor Baptista queria esse valor e um Porsche. O Benfica não cedeu. Vítor Baptista, orgulhoso e fazendo mais um drible na sua própria sorte, saiu assim pela porta pequena da Luz, não aquela por onde entrara 7 anos antes. O avançado rock&roll do futebol português iria um ano para o seu Vitória de Setúbal (com um salário de 100 contos) e rumaria na época seguinte ao Boavista de Valentim Loureiro e Pedroto.

João Loureiro estava bem mais absorvido pela música do que pelas atribulações desportivas do seu pai – que vira Vítor Baptista, o rapaz do brinco, a, entre outras excentricidades, apropriar-se da sua carrinha Volvo, atar um cão à baliza enquanto treinava ou sumir para os EUA de supetão. Ficou-lhe todavia uma devoção pelo seu clube (do qual viria a assumir a presidência) e sobretudo uma admiração pelo seu pai.

Nessa época, João Loureiro estava atrás do balcão da loja de discos da família e tinha acesso e tempo para ouvir Siouxsie & the Banshees, Dr. Feelgood, Talking Heads ou Joy Division. A New Wave inspirava aquele jovem inquieto e talentoso – que se rodeava de malta com expertise na música e o impelia a produzir um som diferente do que tocava na rádio, no boom do rock feito em português.

O Porto é o lugar onde se mora. É um lugar mais de paragem do que de passagem. No Porto de então, o Aniki-Bobó, o Dona Urraca, o Indústria, o Griffon’s, o Dallas e o Brasília eram paragem de uma tribo que queria fazer novo. João Loureiro e Rui Reininho estavam ao leme dessa new-wave que encurtava a distância para uma sonoridade nova e criativa, com sons contagiantes.

João Loureiro era então um líder com uma voz a meio caminho entre Ian Curtis e Joe Strummer e a sua banda armava-se de músicos de demarcados dotes. Os Bananas pisaram o palco do Rock Rendez Vous e de muitos outros do circuito alternativo, mas João Loureiro congeminava já um novo ciclo na sua banda – o ciclo que os faria sair do nicho e passar ao mainstream, que os faria consensuais no público de então e na música portuguesa anos mais tarde, mesmo depois de terem terminado.

1986 foi um ano charneira para os BAN. Ana Deus entrou para a banda, dando-lhe mais atmosfera e substância vocal – e os BAN passaram a assumir-se como uma banda pop, visceralmente pop.

A pop dos BAN era uma pop elegante, acetinada. Mas a música dos BAN era também enigmática e exótica – com a voz possante e expressiva de Ana Deus e a de João Loureiro a transmitir ambiência cosmopolita, pecado e obscuridade. As letras intrincadas e esotéricas fugiam da estrutura regular ou lírica das canções de então. Em 1988, ano do lançamento do álbum que os arremessou para os lugares cimeiros dos tops (e que importantes eram os tops) e para a playlist das rádios (mesmo de autor), Portugal era um país de bem consigo.

Cavaco Silva liderava um governo em maioria e a Europa ajudava à prosperidade. Os jovens viam-se sem ter por que lutar – invertendo a génese do que é ser-se jovem. Sentiam-se desintegrados com tanto futuro esperado para eles – como que antecipando uma prenunciada desilusão. As letras de João Loureiro consubstanciavam essa pertinência e esses anseios, essas inseguranças, relativos à integração de uma geração nesse (admirável) mundo novo.

‘Irreal Social’ propunha contribuir para a sociedade com algum surrealismo – como que a desestabilizar um padrão de alfinetes de gravata, sapatos engraxados, peúgas brancas e pastas de executivo. Fizeram a sua parte, os BAN. Desarmonizaram diretrizes; acicataram o caos para que se criasse um outro mundo novo – muito para além do pseudo mundo novo que estava a ser instituído. Bora lá surrealizar por aí. Chamaram a esse álbum justamente “Surrealizar” e conseguiram estimular uma densidade mística nessa geração – que pendia bem mais para a insubordinação do que para o conformismo.

O que se preserva da música são mesmo as canções. E os BAN, caso não tivessem criado grandes canções, ficariam remetidos ao ocaso – por muito que a sua mensagem fizesse sentido. Mas os BAN criaram grandes canções e ditaram mesmo tendências a partir desse álbum. Daí que ainda hoje as canções dos BAN sejam atuais e serão intemporais. O seu som continua a soar contagiante e fresco.

João Loureiro tinha outros planos para si. Aventuras queria mais. Os BAN tiveram ainda assim carreira longa e três anos de fulgor. Tendo sido uma banda histórica do Porto, foram mais uma banda determinante na música portuguesa. Hoje, quando recordamos aqueles acordes, mais do que termos sido surrealizados, ficamos com a convicção de que vivemos com eles um filme mesmo pop.

Ouvir também: ‘Dias atlânticos’ (1989). Do álbum seguinte, “Música Concreta”, com uma toada mais melódica que o anterior e privilegiando a criação de grandes canções.

  • 101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

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    Herdeiros do rock cantado em inglês dos anos 70 – com os Psico e os Arte e Ofício – quiseram satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi e acabaram por se tornar parte desse movimento fulgurante e fugaz. O ‘chamem a polícia’, apesar de zombeteira, é uma canção de uma aprumada seriedade musical. Uma história que cruza António Garcês, um integrante da banda com 7 anos e a vitória num festival da canção

  • 101 canções que marcaram Portugal #37: 'Fado Falado', por João Villaret (1947)

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    O Fado falado é uma canção dita e não cantada. Dependeu só de si para se tornar imortal. Um fado que falava de um meio que não frequentava, mas que permitiu a João Villaret tornar-se mainstream e, após esse escopo, passar a dedicar-se com mais dedicação à arte que o fez maior: a poesia. Esta é a 37ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #36: 'Liberdade', por Sérgio Godinho (1974)

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    Sérgio Godinho é o mais consistente compositor da música feita em Portugal dos últimos 50 anos. Em véspera do 75º aniversário, relembramos uma canção que deu finalmente nomes concretos à liberdade. Os seus conceitos (paz, pão, habitação, saúde e educação) poderiam ser inscritos num mural tingido a grafite. Esta é a 36ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #35: 'Oração', por António Calvário (1964)

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    Foi o primeiro vencedor do Festival RTP da Canção e perdura como um paradigma de um artista do seu tempo na canção ligeira. Todavia, a vida de António Calvário não se esgotou nas canções. Foi vedeta no teatro e no cinema. Viveu intensamente. Teve coragem de arriscar. Teve sucessos e fracassos. A liberdade prostrou-lhe a carreira gloriosa, mas continua hoje a ter público fiel, como uma memória viva do seu tempo. Esta é a 35ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa