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Massive Attack em 1991. A cantora Shara Nelson, voz de 'Unfinished Sympathy', ao centro; Andrew Vowles (Mushroom) à esquerda; Robert del Naja (3D) à direita

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Rebobinanços #9: “Blue Lines”, dos Massive Attack (1991)

Bristol, 1988. Aqui nasceu o trip hop. Aqui nasceu um dos géneros mais singulares na história da música moderna. Mistura magistralmente de música eletrónica com hip-hop, dub, soul e reggae. A batida é lenta, atmosférica, hipnótica, áspera, viciante. É dos Massive Attack o nono 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Os Massive Attack surgiram de um grupo de músico, DJs e produtores musicais que davam pelo nome de Wild Bunch. Era este grupo que dominava a cena musical eletrónica em Bristol. Daí saíram Robert Del Naja, Grant Marshall e Andy Vowles. Foram estes três que se lançaram sem paraquedas no maravilhoso mundo novo do trip-hop. Esse, até então, território desconhecido.

"Blue Lines" é um disco que fala de amor. Ponto final. Amor nas suas mais diversas formas. Tudo aqui é amor. E foi preciso muito amor para fazer nascer este trabalho. Um cocktail explosivo de emoções.

E por falar em amor, 'Safe From Harm', uma das grandes canções dos Massive Attack, é isso mesmo. A batida fica em constante repetição no subconsciente de quem a ouve. A parceria entre Shara Nelson e Del Naja nas vozes é deliciosa. É sensual.

A natureza maternal revela-se implacável. A mãe tem uma perceção do mundo contemplativa. Uma mente aberta. Há violência e caos no quotidiano. A vida corre livremente como tem de ser. Uma mãe apenas observa o que acontece em seu redor. Mas, quando se trata do seu bebé, as coisas mudam de figura. Aí, os seus instintos tornam-se primitivos. A racionalidade deixa de ter lugar. O único objetivo é proteger o que é seu a qualquer custo.

Segue-se outro grande tema de amor, 'One Love'. "Tu és o amor da minha vida". Há quem tenha vários amores. Há quem tenha vários tipo de amor. Há quem precise de ter vários amores. "Eu não. Eu acredito apenas num amor. Aquele amor. Sei que vai durar para sempre". Uma mensagem bonita como há poucas nos tempos que vivemos.

Há um tema muito chill no disco, o que dá nome ao álbum. "Blue Lines". Soberbo. Calminho, mas aguerrido. Suave, mas provocador. Começa de forma incisiva com: "Can't be with the one you love, then love the one you're with". A partir dai percorre locais onde o lirismo tradicional não se aventura. Locais onde apenas os mais destemidos se lançam. É o único tema em todo o trabalho em que todos os elementos da banda cantam.

Falando de vocalistas, os Massive Attack convidaram Shara Nelson (soul), Horace Andy (reggae), Tricky (trip hop), companheiro dos tempos de Wild Bunch, e Neneh Cherry. Cherry era casada com o produtor do disco, Cameron McVey. Porém, não foi essa relação que fez com que Cherry participasse neste álbum de estreia da banda de Bristol. Foi muito mais que isso: Daddy G (Grant Marshall) reconheceria que foi Neneh Cherry quem deu o empurrão que faltava à banda para que esta avançasse. A artista considerava este era um grupo de gente muito preguiçosa, e desperdiçar talento não fazia parte da sua natureza. Devemos este disco também a Neneh Cherry.

'Be Thankful For What You've Got' é o único cover do disco. Escrita por William Devaughn em 1972, tornou-se rapidamente no primeiro grande êxito da banda. A mensagem é simples: a dignidade é a coisa mais importante que se pode ter. Pode-se não ter um Cadillac todo 'artilhado' para conduzir, mas anda-se de cabeça erguida. "Agradece tudo o que tens. É tudo o que precisas".

Para falar do tema 'Five Man Army' é preciso começar por evidenciar a linha de baixo. É seda pura nesta rudeza de trip hop. Horace Andy, de forma sublime, a pincelar com a sua subtileza um dos temas mais crus do álbum. A letra fala do submundo e das suas perdições que não são poucas. Excessos. Consumos desmedidos. Extravagâncias. "Eu tenho o microfone; eu sou o maior". Mas, ainda assim, o jamaicano faz questão de frisar de forma veemente que o dinheiro é a raiz de todo o mal e que apenas o amor é o caminho certo.

Um dos momentos altos do disco é a grande 'Unfinished Sympathy'. Foi esta canção que transportou os Massive Attack para patamares estratosféricos. Tudo é perfeito. A batida seca e gélida. A voz de Nelson. A orquestra, que não estava orçamentada nos custos iniciais da gravação e só foi possível incluir porque Mushroom (Andy Vowles) decidiu vender o seu carro para pagar o valor que faltava - além dos músicos contratados, os Massive Attack 'ainda' foram gravar aos estúdios de Abbey Road. A orquestra conferiu ao tema um peso e uma seriedade absolutamente marcantes.

Amor conturbado. Não correspondido. Lamento de quem quer muito que resulte. O outro quer esconder o passado mais obscuro. O dia é bom, mas a noite não. "Não podes ter um dia sem uma noite". "Foste o livro que eu abri e agora quero saber mais". Assim, a relação fica incompleta como uma "alma sem uma mente num corpo sem coração".

Música preciosa é 'Day Dreaming'. É uma autoavaliação que os Massive fazem. Dizem que a sua mensagem é positiva. É forte. Só querem levar a vida sem problemas. Os pés bem assentes no chão, mas a ambição é alta. Este foi o primeiro single da banda. Foi assim que começou esta viagem de 30 anos de, palavras deles, "música dançável para a cabeça, em vez de ser para os pés". Tropeçaram na fórmula certa.

O amor, entre todas as suas particularidades, também é amargo. Muito amargo como é relatado em 'Lately'. "Éramos tão felizes. Onde foi que errámos?". Onde antes havia liberdade e desafio, agora há segredos e afastamento. Já não há mais caminho que os dois possam percorrer como no passado.

A capa do álbum foi inspirada numa outra capa. O mítico disco de estreia dos Stiff Little Fingers, "Inflammable Material" de 1979.

Chegamos ao fim do disco com a mesma sensação de satisfação de quando começámos a ouvi-lo. "Blue Lines" é um trabalho com um som absolutamente novo e inovador - a vontade é de ouvi-lo vezes sem conta.

'Hymn Of The Big Wheel'. Este é, na minha opinião, um dos temas mais marcantes dos Massive Attack. A letra é tão eficazmente simples: fala da vida que dia após dia vai correndo. A grande roda continua a girar, mas a verdade é que este mundo onde vivemos não é um sítio fácil. Há poluição. Cada vez menos verde. O betão está a ganhar vantagem neste planeta cada vez mais controlado e vigiado. Enquanto uns lutam, outros relaxam. Será sempre assim nesta roda gigante.

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