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Ana Viotti

Hélio Morais (Linda Martini): “Tive esperança na solidariedade das pessoas, mas foi-se dissipando. O pânico trouxe posições extremadas”

“O futuro continua incerto e o medo e a cultura do pânico instalaram-se na população. Há quem se esteja a aproveitar disto politicamente. É muito perigoso”, defende Hélio Morais, dos Linda Martini e PAUS. À BLITZ, o músico, que optou por não editar o seu primeiro álbum a solo este ano, fala da “supressão quase total” do seu trabalho e reitera que os artistas em Portugal “não são subsídio-dependentes”

Hélio Morais não hesita a apontar "a supressão quase total" de todo o seu trabalho como a mudança mais flagrante na sua vida em contexto de pandemia de covid-19, "seja ele enquanto músico, ou agente de bandas".

O músico dos Linda Martini e dos PAUS, que ia editar o seu primeiro álbum a solo enquanto Murais este ano mas se viu obrigado a adiar para 2021, diz que quase todos os seus rendimentos "advêm da marcação de espetáculos": "Sem espectáculos, fica fácil entender de que forma isso afeta as finanças cá de casa. Já não me recordo do último ano em que fiz menos de 60 concertos e este ano serão cerca de 10. Também no agenciamento tive um corte muito grande; o HAUS marca mais de 100 concertos por ano, mas este ano, se chegámos aos 30, foi muito".

Apesar de tudo, Morais assume falar "de um lugar de privilégio". "Consegui fazer alguns trabalhos na área da música (ainda que não necessariamente relacionados com espectáculos) e porque uma das bandas em que toco tem por hábito fazer poupanças. Mas este não é o caso da esmagadora maioria de músicos, técnicos, mesmo agentes, que me rodeiam. E isso é muito assustador e angustiante".

Sobre aquilo de que teve de prescindir devido à diminuição do rendimento, explica que o que causou mais impacto foi "o facto de ter desistido das aulas de canto". "Este ano estou a mostrar os primeiros singles do meu álbum de estreia a solo e, como o meu papel está focado na voz, achei que deveria estudar o instrumento. Uma coisa é cantar em coro nos PAUS, outra é sustentar as canções de MURAIS. E o facto de me ver confrontado com uma redução drástica de rendimentos, bem como a incerteza quanto à retoma da nossa indústria, obrigou-me a abdicar de algo, para mim, muito importante".

"E mais uma vez se mostra de que forma toda a cadeia está alimentada. Da mesma forma que eu desisti, outras pessoas terão feito o mesmo. O que terá levado a uma redução dos rendimentos da minha professora, também ela música", acrescenta, "de resto, o facto de estar sempre em casa, acaba por me fazer poupar dinheiro. Trabalhava todos os dias no escritório e na sala de ensaios de Linda Martini, ambos no HAUS. Isto fazia com que almoçasse fora diariamente. Agora almoço em casa e, com isso, poupo muito dinheiro. Também passei a pensar duas vezes se preciso mesmo de comprar determinado instrumento, ou se é só capricho".

Admitindo que está a ser "um ano muito difícil, psicologicamente", diz que a diminuição de rendimentos só veio aumentar uma preocupação que já vinha de trás: "o facto de os meus rendimentos advirem quase todos da mesma atividade". "Isso deixava-me inquieto. Claro que depois, refletindo, o que retirava era que seria preciso uma catástrofe para tudo ser abalado. Pois bem, chegou 2020. Mas o facto de ter alguma estabilidade em anos anteriores, fez-me encarar a pandemia com energia e esperança de que as coisas se resolvessem com as medidas tomadas".

"Também tive esperança na solidariedade das pessoas, umas com as outras. Mas aos poucos isso foi-se dissipando. O futuro continua incerto e o medo e a cultura do pânico instalaram-se na população", diz ainda Morais, "isso trouxe o individualismo ao de cima, bem como as posições extremadas, os policiamentos constantes que cada pessoa achou que deveria fazer a quem está à volta, etc. E há quem se esteja a aproveitar disto politicamente. É muito perigoso. Olho para o estado social e político atual com grande preocupação".

Olhando à sua volta, para as pessoas que o rodeiam, vê "muita angústia, incerteza, receio, impotência. E isso traz convulsões pessoais, nos agregados, nas relações. As pessoas estão em baixo. Ao contrário do que alguns populistas gostam de disseminar, quem faz a música dita pop (onde englobo o rock, o rap, o indie, a própria pop, a electrónica, etc.) não é subsídio-dependente. E não digo isto em tom de crítica aos subsídios. Eles têm que existir. Nem toda a arte consegue subsidiar-se a si mesma, mas ela é vital para os tecidos culturais, sociais e mesmo políticos. Mas voltando à música dita pop, a verdade é que quem a faz integra um ecossistema de clubes, promotores, programadores, essencialmente privados. Claro que o estado é um dos grandes compradores de cultura. Mas até aí falamos de um nicho, aquele que faz parte do circuito de festas municipais. Mesmo aí, não estamos a falar do estado subsidiar a música. O estado compra música. Que são duas coisas bem diferentes. O estado também compra papel para imprimir e ninguém diz que subsidia a indústria do papel".

Quanto ao futuro próximo, Morais diz encará-lo "de forma bastante cautelosa e, diria, quase dormente". "Continuo a fazer música nova - neste momento com MURAIS e com Linda Martini -, continuo a tentar marcar concertos, continuo a fazer planos. Mas sempre com a noção de que pode vir um qualquer delegado da DGS cancelar um espectáculo dias antes do mesmo, de que pode ser decretado um novo confinamento, de que os discos tenham que ser adiados novamente, de que talvez chegue a um ponto em que tenha que procurar outro trabalho, e por aí adiante. Continuo a trabalhar na música enquanto puder. Farei o que estiver ao meu alcance; até ser possível".

Quanto às medidas que poderiam ter sido tomadas pelas autoridades estatais, diz que ficaram todas por tomar. "Existe a actividade de músico nas finanças. Não existe a de técnico de som, a de roadie, a de road-manager, a de iluminador. Este é um tecido que não está, sequer reconhecido. E é por isso mesmo que o estado vive na ignorância da quantidade de gente a que a indústria dos espectáculos dá trabalho. E é ignorante, por que estas profissões são invisíveis. Vão, boa parte destas pessoas, para a lista dos “prestadores de serviços”. Urge legislar-se, respeitar-se todo um tecido que vive de forma precária desde sempre, sem horários nem protecção social digna". Deixa, para finalizar, uma crítica à forma como o diálogo entre o setor da cultura e o governo tem decorrido, que apelida de "números de circo": "O diálogo, a legislação e a visibilização, são o passo imediato. Sinto que o que tem sido feito até aqui é como os cenários do teatro; até parece que se está a construir uma casa, mas espreitas por trás e são só vigas a suster uma fachada pintada, dás um encontrão e caem".