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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Manuel João Vieira

Rita Carmo

Caloteiros, anarquistas, avarentos e fascistas. Tudo isto é fado. E Manuel João Vieira

Antes da prometida “Ginecologia do Fado”, anatomia. Ao longo de 33 canções, Manuel João Vieira mergulha em fados humorísticos de outros tempos junta-lhes os seus (fados e tempos). Rocker nos Ena Pá 2000, crooner nos Irmãos Catita, homem very sentimental, mito vivo do Portugal morto, canta (conta?) os heróis esquecidos como ninguém

O “J” no nome, diz-nos, “é de Juvenal”. Só que é tanga. É de João. Manuel João, Lello (vários, do Perdido ao Minsk), Orgasmo Carlos, Manuel Vieira (“é assim que assino no Cartão do Cidadão”), Candidato Vieira, Manuel João Vieira (rocker nos Ena Pá 2000, crooner nos Irmãos Catita), homem very sentimental, mito vivo do Portugal morto. E isto é, espante-se, um disco de fados com letras resgatadas a tempos nebulosos, cristalizados em poeirentos singles de vinil que Vieira arrematou na Feira da Ladra, toda a arte pretensamente barata que lhe é tão cara.

Não é de agora. “Quando estava com os Irmãos Catita no Cinearte [pouso habitual do grupo na década de 90, em Lisboa], além de versões de canções portuguesas dos anos 30, 50 e 60, fazia parte do nosso repertório um certo número de fados, uns quatro ou cinco. Era o momento em que os músicos podiam ir beber uma cerveja e eu ficava sozinho com o guitarrista. Os andamentos eram conforme nos apetecia, não eram propriamente andamentos de fado, mas vem dessa altura o meu interesse por esse tipo de canção”, afirma. Foi território desbravado à chegada aos 30 anos, quando paralelamente ao meta-rock’n’roll dos Ena Pá 2000, Vieira olha para trás e não vê apenas xailes negros. “Tive um grupo de música popular tradicional portuguesa pouco tempo depois do 25 de Abril, mas a música que abordávamos não era fado porque o fado que nos estava na cabeça era associado a coisas um bocado chatas. Em pequeno, via umas senhoras na televisão… era tudo muito trágico para uma criança”, admite.

O fado que lhe havia de interessar era outro. Era o fado que lograva furar a “manipulação” de António Ferro, o homem da propaganda de Salazar, interpretado por ‘heróis’ alternativos como Joaquim Cordeiro, em Lisboa, ou Neca Rafael, no Porto. “O fado humorístico punha uma certa ironia no meio de toda aquela tragédia, algum surrealismo, na linha da tradição galaico-portuguesa das cantigas de escárnio e maldizer. Nos Ena Pá 2000 brincávamos com o rock, no caso do fado não foi preciso fazê-lo porque essas canções já existem desde os anos 50. Fizemos algumas como o ‘Fado Boi’ ou o ‘Ser Milionário’, com letras do Fernando Brito, mas quase não era necessário.”

“Anatomia do Fado” é, por isso, um compêndio de afeições, onde a falta de poder de síntese (Vieira assume ter exagerado ao coligir um álbum duplo, 32 canções) joga a favor de uma variedade de personagens (caloteiros, anarquistas, avarentos, fascistas) e uma heterogeneidade temática (enriquecimento, ambição, penúria, abnegação) que sublinham, mais do que a ambição do intérprete (e, num bom punhado de ocasiões, autor), a necessidade de trazer para o tempo presente as vozes (e maneiras de ver) que o passado obliterou. “Há coisas que são engraçadíssimas porque as letras parecem quase surrealistas atualmente. Há uma letra que é mimosa, lindíssima, um conto de fadas chamado ‘Anabela’ [de Frutuoso França, já versada pelo projeto Lello Perdido], que é tão desfasada da nossa cultura atual que parece uma piada, mas não é uma piada — era uma coisa que na altura era verdadeira e profunda. Ela vai à fonte buscar água e quando volta tem os lobos a taparem-lhe a passagem, ela passa a medo mas a canção diz ‘os lobos nem sequer se incomodaram/ nem o instinto feroz se revelou/ quem sabe se até mesmo murmuraram/ que linda rapariga que passou/ Mas se fossem três homens, eu sei lá…”. Ainda no reino animal, não há como evitar um par de gargalhadas com o poema de Fernando Brito para ‘Fado Boi’, uma fábula crudelíssima sobre um bovino que nem sempre o foi, acabando a vida “sobrevoado por moscas, picado por pirilampos”.

Para um próximo volume ficará o que o artista apresenta como “Ginecologia do Fado”, com “os fados pornográficos dos anos 70” que um inusitado momento de decoro mandou evitar publicar agora. Mal podemos esperar.

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Anatomia do Fado
Manuel J Vieira
2 CD Museu do Fado Discos

Publicado na revista E, do Expresso, de 24 de outubro de 2020