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Rita Carmo

Fernando Ribeiro, dos Moonspell: “Não temos carros caros nem casas com piscina. Muitos colegas não se geriram tão bem e estão aflitos”

“Nunca caímos na tentação de ostentar um estilo de vida de estrelas rock. É algo que a nossa classe tem de equacionar no futuro: mais modéstia”, considera o líder dos Moonspell. À BLITZ, Fernando Ribeiro fala da depressão em que “grande parte dos músicos” caíram, sem a dinâmica dos concertos em contexto de pandemia de covid-19, e no que deve ser feito “pela independência da nossa cena musical”

"Este foi dos verões menos agitados que tive", confessa Fernando Ribeiro, dos Moonspell, quando questionado pela BLITZ sobre o impacto que a pandemia de covid-19 tem tido na sua vida profissional. "A suspensão das viagens, os adiamentos/cancelamentos e, por consequência, a quebra de uma certa 'rotina' composta por apanhar o avião, toca, regressar, receber cachets" foram as alterações mais flagrantes. "Depois, a crescente falta de escolhas, de opções. Penso que isso afectou toda a gente de uma maneira tremenda e que essa equação 'perda de liberdade' versus 'cumprir as regras' em nome de um bem comum, da higiene sanitária, era algo que apenas líamos nos livros distópicos ou víamos em filmes do mesmo género. Isso tem criado um efeito secundário à pandemia que exige uma enorme gestão das nossas expectativas e das nossas forças para continuar".

Sobre a suspensão de uma fatia substancial do rendimento, o músico diz que não teve de fazer grandes adaptações. "Os Moonspell nunca viveram acima das suas possibilidades. Não temos carros caros, nem casas enormes com piscina, nem nunca caímos na tentação de ostentar um estilo de vida que coincidisse mais com aquele que uma certa fatia do público espera dos rockstars", assume, "conhecemos muitos 'colegas' que, infelizmente, não se geriram tão bem e que agora, sem cashflow, estão aflitos. Não os julgo por isso mas é algo que a nossa classe tem de equacionar no futuro: mais modéstia".

"Como tocámos muito no ano passado e tivemos alguma tensão interna, estávamos preparados para fazer um ano mais leve, quase sabático, em 2020 e dedicarmo-nos mais ao nosso novo disco. Mas marcámos alguns concertos pois sabíamos que depois de maio tínhamos de voltar à estrada para equilibrar o nosso orçamento", acrescenta. "Tal não aconteceu, o que nos prejudicou as contas. Estamos praticamente a viver das poupanças que temos e a lançar ideias para ter receitas alternativas, mas o que nos manteve de pé foi a nossa habitual parcimónia".

Quando interrogado sobre os efeitos psicológicos que a situação está a suscitar não só em si como naqueles que o rodeiam, o músico dos Moonspell responde: "A saúde mental não é um problema de agora. Infelizmente, sem a dinâmica dos concertos, sem essa possibilidade de vir à tona e respirar, não só pelo dinheiro, mas pelo contacto privilegiado com o público, a depressão de uma grande parte dos músicos é uma evidência".

"O encontro entre as nossas expectativas, criações, sonhos e a realidade, mediada pelas redes sociais, tem sido uma experiência muito dura para quase toda a gente", acrescenta. "Nunca houve tanta adoração sem critério aos 'artistas' mas também nunca se assistiu a tanta polémica e perseguição a quem se tenta expressar através do seu trabalho e fazer disso o seu sustento. Agora o não gostar significa, para os que não gostam, que o objecto do seu 'desgosto' é mau, e as pessoas sentem-se na necessidade de o afirmar e de convencer a sua rede de 'amigos' disso mesmo. É um fenómeno novo que cria muita tensão".

Em termos pessoais, diz tentar manter-se otimista: "tento pensar no big picture. Abandonei as redes sociais, mudei a minha perspetiva sobre os fãs, distanciei-me pessoalmente mas aproximei-me profissionalmente. Penso que a paciência é uma virtude que devemos privilegiar e que devemos tentar viver numa zona intermédia, longe dos extremos que já não se tocam, nem se influenciam. A interioridade é uma boa ideia".

Fernando Ribeiro diz ter esperança mas não cair "num falso otimismo". "Na verdade, estabeleci alguns objetivos para este ano, bem mais modestos que num ano normal e fico muito contente por já ter, com a ajuda da sorte e da paciência, realizado alguns. Esses objectivos passavam por ir gravar o novo disco a Inglaterra, o que, apesar dos constrangimentos, foi feito. Tocar ao vivo, mesmo em circunstâncias estranhas para o nosso público, o que fizemos em Faro e em Lisboa, graças também a uma dinâmica positiva dos promotores desses concertos. Lançar um tema novo antes do final do ano o que faremos já em novembro. Parece pouco mas dá para alimentar essa esperança".

"A minha opinião vale o que vale, mas acho que o primeiro semestre de 2021 vai ser complicado. O verão, se correr bem, será essencial para a retoma dos concertos no segundo semestre", diz ainda. "Para além do vírus há que vencer o medo, a paranóia, a falta de dinheiro. Em todo o caso vivo dia a dia, numa formula kantiana de ter um 'foco imaginário' para onde dirigir a minha energia e o meu trabalho. Lidarei bem com os possíveis cancelamentos e acredito que mesmo havendo confusão as pessoas, no geral, estão a tentar fazer o seu melhor".

Quanto à resposta que se espera que seja dada a um setor que tem sofrido com as restrições impostas pela pandemia, o músico acredita que "o Estado terá um papel importante" mas que "gostava que se abandonasse a ideia do 'grande mecenas' em favor da consciencialização de que as indústrias criativas são uma parte importante da nossa economia, desde as empresas unipessoais até aos grandes grupos. Que em vez de 'subsídios' se chamassem aos apoios aquilo que eles são: incentivos dados por uma reutilização inteligente dos recursos (impostos, taxas) que estes profissionais do espetáculo pagam ao Estado".

Entre outras medidas que gostaria de ver implementadas, estão a melhoria das "vendas físicas dos discos com uma redução (ainda que temporária) de IVA e que se equacionasse uma prestação única de TSU condicente com os tempos, sem descapitalizar a Segurança Social. Finalmente, temos todos também de pensar numa estratégia que passe menos pelo Estado e mais pelos empresários particulares (circuito de clubes e não só de teatros municipais) acarinhando e apoiando o trabalho destes. Porque o dinheiro do orçamento não pode financiar todos os sonhos ou realidades, porque não apagará todos os fogos, julgo que também é hora de repensarmos o que se pode fazer pela independência da nossa cena musical".