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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Gemini no final dos anos 70. O grupo levou "Dai Li Dou" à vitória no Festival da Canção em 1978

101 canções que marcaram Portugal #41: 'Pensando em Ti', pelos Gemini (1976)

Os Gemini nasceram do talento de Tozé Brito – que soube antever tendências por que Portugal ansiava. Com um país mergulhado em Zecas e Adrianos, os ABBA à portuguesa reavivaram uma pop fresca e alegre. Feita de plumas, néons, letras açucaradas e acordes melodiosos

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'PENSANDO EM TI', DOS GEMINI
(1976)

Quando uns suecos venceram o Festival Eurovisão de 1974 com o tema Waterloo, aquilo que fazia deles grandes não era apenas as acuradas melodias, as letra simples e o entrosamento entre as vozes dos dois casais em palco. O que fazia dos ABBA grandes eram aquelas mulheres, aquela loira e aquela ruiva, e os homens que fizeram as pistas na segunda metade dos anos 70 serem dominadas pelas suas canções, ditando moda e tendência. Os ABBA eram a inversão da lei de Murphy – uma banda trabalhada à minúcia com tudo para dar certo.

Portugal estava mergulhado no PREC, em embaladores que faziam, já fora de tempo, canções de vivas à liberdade. Portugal estava mergulhado em Zecas, Brancos, Fanhais ou Adrianos. Tozé Brito percebeu que Portugal não se bastava apenas de Que força é essa e de A paz, o pão, habitação, saúde, educação e precisava de uns ABBA à portuguesa. Precisava dos Gemini. Como varinha de condão que sabia ter, reuniu Mike Sargeant para formar um grupo com uma ruiva e com uma morena. A base era essa. Teresa Miguel e Isabel Ferrão, que improvisou um cabelo loiro para caber na Agnetha dos ABBA. Esculpiu letras melosas e melodias orelhudas. À medida de um Portugal a quem sobejava alegria de viver, de dançar, de bater o pé. De um Portugal que ansiava por ceder ao instinto de rir em vez de pensar. Que escolhia ouvir também canções que falavam de manhãs solitárias depois do amor consumado. De saudades. De perdas. De lençóis revoltos em vez de educação, saúde e habitação frágeis. De um Portugal que precisava da voz de Teresa Miguel e de Isabel Ferrão, as meninas dos fatos justos e reluzentes. Das suas coreografias e dos sorrisos alegres.

Portugal precisava de Tozé Brito. E Tozé Brito deu a Portugal aquilo que foi preciso. Soube perceber que a música, como todas as artes, só é válida se for consumida. E que a arte é também feita de néons, fatos justos e letras simples. Mas também soubera perceber que Portugal precisava de um dandy chamado Vítor Espadinha. E também precisaria das Doce. E de Linda de Suza. E dos Gemini. Os Gemini agitaram Portugal com o seu ‘Pensando em ti’, com uma pop fresca e leve como não se ouvia desde nunca. Porque a pop manifestava-se tímida no Portugal de 1976.

Portugal sempre soube usar o pastiche de receitas testadas para animar a malta. Os Sheiks vs. Beatles/Kinks/Byrds haviam sido receita feliz nos anos 60, mas no Portugal de 1976 fazia falta de novo a pop clonada. E Tozé Brito encontrou a receita. Nesse tempo e depois disso. O Festival RTP começara a perder fulgor a partir de 1974, mas em 1978 era ainda o fogacho de que as bandas necessitavam para ter visibilidade. E os Gemini concorreram com uma canção sem letra (ou com uma letra incoerente). Da li - Da li - Da li - Da li - Da li - Da li dou - papagaio voa. Ganharam. Não haveria necessidade de terem ficado para a história como a banda do ‘papagaio voa’, até porque eram uma excelente banda e tinham soberbas canções – e tinham Teresa Miguel e Isabel Ferrão. E mais tarde Fátima Padinha, que Isabel Ferrão resolveu fazer vida para além das canções. E Mike Sargeant. E o midas Tozé Brito.

Com o fim dos Gemini, Tozé Brito decidiu retirar-se das bands enquanto integrante. E arquitetou pouco depois as ‘Doce’, o seu mega-projeto. E não mais parou de fazer canções. Soberbas, todas – mas, mais que as canções, as fórmulas, como um Einstein da canção em português. Pensando em ti é uma grande canção. Mas é uma ainda maior canção porque veio derrubar o status quo da música que se fazia em Portugal. Porque a música popular – para o povo, pois então – é feita de receitas simples para gente simples. Como Portugal é. A fugir aos nichos e à arte que é feita para os nichos. Tozé Brito continuou a fazer as canções que afinal toda a gente ouviu. Soube compreender Portugal e as canções por que ansiava em vários momentos. Soube transformar em cash-flow o seu talento e funcionalizar o talento de outros. Soube olhar para a música de forma pragmática – unindo tendências e vontades de uma enfiada só.

Portugal herdou do império de Roma a necessidade de pão e de circo. Mas cobiçava tantos outros direitos reclamados ou desconhecidos. Em 1976, os Gemini foram um dos vértices desse Portugal extravagante – que soube instintivamente entender fluxos artísticos inovadores e improváveis.

E as cartas que te escrevo
Mas que acabo por rasgar
São sempre iguais
Só falam de amor
Pedem-te para voltar

Ouvir também: Dai li dou (1978). Concorreu ao festival RTP de 1978 e venceu. Nesse ano, apenas foram a concurso 3 intérpretes, com 4 canções cada (Gemini, José Cid e Tonicha). Os Gemini ficaram em 1.º, 3.º, 10.º e 11.º lugares. José Cid ficou em 2.º, 5.º, 6.º e 7.º. Tonicha ficou em 4.º, 8.º, 9.º e 12.º. Ufa...

  • 101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #37: 'Fado Falado', por João Villaret (1947)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #36: 'Liberdade', por Sérgio Godinho (1974)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #35: 'Oração', por António Calvário (1964)

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  • 101 canções que marcaram Portugal #34: 'Canto aos Peixes', pelos Ex-Votos

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    Zé Leonel foi bem mais que o primeiro vocalista dos Xutos e Pontapés. Foi alguém que subverteu as normas e viveu na periferia das convenções, um grande músico e letrista, mas sobretudo um roqueiro genuíno. Esta é a 34ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #33: 'Playback', por Carlos Paião

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    Desde que a sua história se cruzou com a de Amália, Carlos Paião – grande compositor, melodista exímio – tornou-se também um artista respeitado não apenas como artesão para letras pitorescas. Foi no ano seguinte a este 'Playback', a 33ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #32: 'Trova do Vento que Passa', por Adriano Correia de Oliveira

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    Adriano Correia de Oliveira era um homem doce e subversivo. De consciência política apurada, viveu num tempo com razões de sobra para a inquietação. A letra de Manuel Alegre resume em dois versos a génese de um tempo pelo qual valia a pena criar: há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Esta é a 32ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #31: 'Sete Mares', por Sétima Legião

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    A Sétima Legião foi uma das bandas mais elegantes da pop em Portugal. Agregavam consenso entre pistas de dança, imprensa e crítica. Nasceram na Fundação Atlântica, de Miguel Esteves Cardoso, mas queriam ser mais que uns Joy Division à portuguesa e transversalizar a sua arte. Se um dia formalizarem o seu fim, é certo que já terão inscrito com tinta permanente clássicos da nossa pop de maior qualidade