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Jónsi do lado de fora dos Sigur Rós. Um arrepio de intimidade e efervescência

Ao segundo álbum em nome próprio, Jónsi, o líder dos islandeses Sigur Rós, mostra toda a música que cabe na sua vida

Ter uma das vozes mais enigmáticas e comoventes do (pós-)rock nunca impediu o islandês Jónsi Birgisson de fazer com ela o que bem entende. Do lacrimejar luminoso de ‘Svefn-g-englar’, momento-chave do álbum que colocou os seus Sigur Rós no mapa, aos gritos fantasmagóricos de ‘Kveikur’, passando pela diversão de ‘Gobbledigook’, o músico foi mostrando, ao longo do tempo, a amplitude de registos e emoções que o tornam um vocalista único. Com a sua banda de sempre em pausa (quem sabe se não para sempre), Jónsi decidiu atirar-se de cabeça, dez anos depois de “Go”, a uma segunda aventura a solo bem assente no cruzamento de fronteiras estilísticas. Maioritariamente cantado em inglês, “Shiver” deve muito pouco ao seu orgânico antecessor, mas também não se deixa contagiar pelos discos ambientais que editou com o ex-parceiro Alex Somers — “Riceboy Sleeps”, de 2009, e “Lost & Found”, de 2019 — ou pelo projeto Dark Morph, que o juntou, no ano passado, ao compositor sueco Carl Michael von Hausswolff. Apesar de os territórios explorados nas 11 canções estarem a anos-luz do trabalho que desenvolveu com os Sigur Rós, os admiradores do grupo encontrarão em “Shiver” algum conforto, pelo menos. Quanto mais não seja pelo matar das saudades que poderiam ter da voz idiossincrática do artista islandês. Olhando a este percurso ziguezagueante de Jónsi, estaríamos a ser preguiçosos, e pouco fiéis ao que sentimos quando escutamos o disco, se escrevêssemos que há nele uma soma de todas as partes.

Coproduzido pelo britânico A. G. Cook, que além de fundador da afamada e inventiva editora PC Music emprestou os seus dotes mágicos à pop de Charli XCX ou Caroline Polacheck (e colaborou por mais do que uma vez com Oneohtrix Point Never), “Shiver” traz consigo uma vitalidade bem audível em temas com ambientes tão díspares quanto o dueto espacial gore com Liz Fraser (dos Cocteau Twins) ‘Cannibal’, um dilacerante e autodestrutivo ‘Swill’ ou o extraordinário sussurro de esperança ‘Exhale’. “Faço isto há 30 anos. Farto-me de tudo facilmente”, assume Jónsi. “Quero sempre que as coisas sejam divertidas, excitantes e frescas, e ao fazer um novo álbum só queria ter uma abordagem diferente.” É assim que justifica a escolha de Cook, que conheceu numa viagem recente a Londres, para burilar consigo este disco, gravado entre Berlim, Reiquiavique, Londres e Helsínquia. Se este encontro com o produtor londrino se traduz, de forma genérica, num mergulho para fora de pé, a parceria com Fraser era algo que já merecia ter acontecido há muito tempo. Um casamento perfeito, dirão alguns. O terceiro cruzamento imortalizado em “Shiver” terá, contudo, uma coprotagonista um tanto ou quanto inesperada. É com a rainha da pop sueca Robyn que canta sobre as partilhadas “dores escandinavas” numa efervescente ‘Salt Licorice’, provavelmente a canção mais pop e mais dançável que algum dia gravou. Em entrevista ao jornal britânico “Guardian”, o músico islandês assume, sobre o dueto, que gostaria de encomendar uma remistura tecno que levasse a canção a “ser ouvida em todos os clubes gay”, porque é admirador de tecno gay e dos clássicos de Lady Gaga. Nada temam, fãs dos Sigur Rós, não é propriamente isso que ouvimos em “Shiver”.