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Do amor e da morte. Kevin Morby fez uma ode aos dias que não queremos que acabem

A morte de amigos queridos, como Richard Swift a Anthony Bourdain, e a descoberta do amor são as coordenadas do sexto álbum do norte-americano Kevin Morby, um álbum indispensável que sai esta semana

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Kevin Morby ainda não tinha 30 anos quando sentiu o apelo da terra — neste caso, de Kansas City, a cidade onde cresceu e da qual fugiu “com fervor” aos 18 anos. Depois de anos em digressão, o músico que se considera sobretudo escritor de canções deu por si cansado. No inverno de 2017, aos 29 anos, trocou a Califórnia por uma cabana no meio do nada, na região a que começara por chamar casa. A sua intenção era acabar “Oh My God”, o álbum que viria a lançar em 2019, mas, com a ajuda de um gravador de quatro pistas que comprou a um amigo, Kevin Morby fez mais: escreveu várias canções novas e deixou-as ganhar forma, no frio de um estúdio caseiro onde se formavam pingentes de gelo.

Depois chegaria o verão e com ele Katie Crutchfield, a mentora do projeto Waxahatchee. “Já nos conhecíamos há uns dez anos”, conta Kevin Morby ao Expresso, numa chamada Zoom que nos permite ver o seu estúdio, com paredes em madeira de pinho. Kevin e Katie começaram a namorar e a sua relação acontecia ali, numa cabana sem ar condicionado, lentamente decorada com os objetos que ele trouxera de Los Angeles.

O isolamento do casal, que de certa forma precedeu o isolamento do mundo, deu origem a “Sundowner”, título inspirado pela melancolia que Kevin e Katie sentiam quando o sol se punha e o dia, numa terra sem nada para fazer, chegava ao fim. “Aqui não havia muita vida noturna nem amigos com quem sair, e o pôr do sol representava a chegada da solidão”, explica o norte-americano. “Nesse aspeto, é um disco de inverno, mas com partes que celebram o crepúsculo, que é um sentimento mais de verão.” Ao mudar-se para o fim do mundo, Kevin Morby quis estar “sozinho o máximo possível, trabalhando isolado”. Ao interromper o seu estilo de vida “nómada, sempre no avião ou de carro, constantemente a dar concertos”, passou a ter tempo para pensar.

“Quando a tua vida é assim, não tens tempo para processar as emoções. Tens de ir [para a estrada] sem pensar em nada”, diz. Ao parar, o desaparecimento de três amigos queridos, incluindo o músico Richard Swift e o comunicador e chefe Anthony Bourdain, atingiu-o de forma diferente. “Levei com essas notícias na cabeça”, admite. “Comecei a processar essas coisas sozinho, sem distrações, e bateu-me muito”, confessa o songwriter, que menciona a morte de Richard Swift (produtor do seu maravilhoso álbum de 2017, “City Music”) e Anthony Bourdain (“talvez o último porta-voz decente da América”, escreve no texto de apresentação do novo disco) na canção ‘Campfire’.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.